
a review by Maruchi22

a review by Maruchi22
K-ON é um sutil thriller psicológico sobre uma sádica rica usando estrategicamente gentileza para torturar um grupo de pessoas socialmente inferiores que não suspeitam de nada, enquanto vai aos poucos sendo desarmada e curada pela sinceridade rude delas. É o tipo de plot que poderia fazer parte de um ótimo romance ou ópera do século 19, mas é performado de maneira tão delicada que você mal percebe que está ocorrendo. É compreensível assistir um episódio e pensar "bem, nada aconteceu", mas é aí que está a arte. Na realidade, quando se examina com atenção, tudo aconteceu; foi apenas mascarado como efervescente.
O acidente do morango é o exemplo perfeito e plausivelmente o climax do anime inteiro (eu não acho que seja uma coincidência que é um dos momentos que marcou as pessoas, mesmo aquelas que viram o anime apenas como uma coleção de momentos).
Ao longo da segunda temporadas, vemos Mugi perder o interesse em ativamente arquitetar o purgatório em que ela aprisionou as outras garotas, conforme ela passa a se identificar como uma delas, como alguém não apenas observando seu drama, mas sofrendo-o também. Como resultado, seu sadismo se transforma em um tipo de masoquismo (claramente uma referência à visão Deleuziana de que sadismo e masoquismo não são opostos), onde ela constantemente tenta se destronar, submetendo-se a trabalho braçal, etc, tudo no esforço de capturar a liberdade, calor e sinceridade de seus súditos (compare e contraste com o personagem Konstantin Levin de Anna Karenina).
Entretanto, isto não é o bastante, e vemos ela ficando cada vez mais frustrada ao longo da temporada. Parte da estrutura do status quo que ela criou é que as outras personagens a adoram como uma deusa benevolente incapaz de errar. Por causa disso, ela nunca recebe a justiça ou absolvição pelo sofrimento que ela intencionalmente infringiu. E, por esse motivo, deve sempre estar espiritualmente separada delas.
Tudo isso se torna claro com seu plano de receber um tapa da Mio. Mio, como a principal vítima da tortura de Mugi, é a única capaz de conceder o reconhecimento físico por seus crimes que ela tanto deseja.
Mas aqui, tragicamente, ela é derrotada pelo seu eu mais jovem, malicioso e calculista. O status quo que ela criou é forte demais. Ela nunca recebe o tapa.
Ao tentar ser como suas vítimas e ganhar suas amizades, ela se tornou apenas mais um joguete nas mãos de seu gênio maligno. A maldade que permeia seu passado a impede de obter, no presente, o paraíso que ela tão puramente deseja.
É um ápice lúcido mas estranhamente belo para o arco de um dos mais complexos anti-vilões da ficção. K-ON certamente há de ser lembrado como um clássico das animações japonesas.
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