
a review by JonathanFB

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𝟏.
Essa análise é 100% focada no filme de 1998 e nada em relação ao material original será citado.
𝟐.
A análise será focada em duas partes, sendo a primeira dela focada em uma RÁPIDA explicação sem spoilers sobre o filme. Porém, na segunda parte, não irei controlar os spoilers, então, não leia se não tiver assistido o filme ainda.
𝟑.
Usei de inspiração algumas leituras que fiz pela internet e todas serão creditadas ao final da análise.

#Introdução e Rápida Análise Sem Spoilers

Perfect Blue é um filme lançado em 1998, dirigido pelo lendário e precocemente falecido Satoshi Kon. O filme é baseado em uma novel. Sim, não vou falar muitos detalhes sobre a história aqui na parte sem spoilers. Na verdade, não leia a sinopse do filme, porque ela pode estragar parte da graça do filme.
Penso que é um trabalho bem difícil falar sobre Perfect Blue sem dar spoilers, porque ele é um filme que precisa ser visto de mente completamente vazia, de forma pura. O que pode ser dito, sem spoilers, é que Perfect Blue é um filme dirigido de forma genial, conduzido com exelência por Satoshi Kon, perfeito em suas escolhas visuais e preciso em suas metáforas. A construção atmosférica do filme é perfeitamente bem encaixada nos poucos minutos que ele dura. Todo momento é usado em prol da contrição e da intenção do diretor.
Resumindo sem spoiler: Perfect Blue é um filme FEITO PARA ASSISTIR DURANTE À NOITE, de preferência em um horário avançado. É perfeitamente dirigido e produzido e deve ser assistido sem QUALQUER tipo de spoiler, e não leia a sinopse oficial.
Sim, agora começa a parte com Spoilers.

#💃🏻👯♀️Cena Inicial💃🏻👯♀️

Quando uma obra de ficção tem a ambição de criar um plot twist efetivo, ela precisa, pelo menos na esmagadora maioria das vezes, construir o plot twist gradualmente. Encher a história com "pistas", com momentos que irão reforçar esse plot twist quando você assistir novamente ao filme. A cena inicial de Perfect Blue é boa nesse quesito, além de fazer um excepcional trabalho de construir a sua crítica, a sua mensagem. Mima mostrando sua simplicidade, mostrando que no palco ela é uma profissional, um personagem, uma figura. Fora, ela é um ser humano comum, que anda de metrô, que vai ao mercado, etc. A cena inicial também já consegue demonstrar a forma na qual o filme trabalha as cores, principalmente o vermelho, nesse momento inicial. A alternância entre cenas de Mima no palco, mostrando sua faceta Idol e cenas dela simplesmente vivendo normalmente já consegue demonstrar como o filme iria seguir quando se trata de direção.
#🟦🟥Azul e Vermelho🟦🟥

O azul sempre teve esse lado, essa faceta deprimente atribuida. Como por exempo o gênero de música "Blues", como a sensacional música "Almost Blue". O vermelho é atribuido a vida, a felicidade. Em Perfect Blue, o filme inteiro se utiliza desse artifício, desse jogo com essas duas cores. O azul fala da forma deprimente de Mima, da forma que mostra a Mima fora do mundo que ela ama, fora da vida de Idol, se "pervertendo" para alcançar a fama. O vermelho demonstra o lado vibrante dela, o lado que é cheio de vida e feliz. A forma na qual Kon dirige esses momentos é sensacional, abusando das cores quando permitido, realmente fazendo um show visual. Ele vai da pequena referência a mais "óbvia" e gritante. Da roupa de Idol ser sempre vermelha, até o chão do elevador onde o roteirista morre também ser vermelho.

Existe apenas UM momento onde isso fica um pouco estranho, onde existe um possível abuso nessa atitude por parte da direção. Falo da perseguição final, onde existe um exagero no vermelho, algo que fica realmente fora de tom e estranho. Porém, pelo menos comigo, só consegui reparar nisso na segunda vez que vi o filme, quando já tinha essa questão das cores em mente. Outro argumento defensivo seria que isso foi uma atitude assertiva por parte da direção para demonstrar a completa loucura do momento. Talvez foi uma atitude exagerar nessas cores para realmente demonstrar a gritante atitude delas (as cores), mostrar o completo lado perturbado de Mima e como esse lado vermelho cativante dela (Mima) estava gritando pelo retorno de Mima.



#Sim, eu pago pau para uma boa direção.

Satoshi Kon é um dos melhores diretores de animação que temos no japão. Não quero fazer comparações com outros diretores, mas sinto que o Satoshi é o mais versátil deles, indo de um horror psicológico para uma comédia dramática (Tokyo Godfathers). Satoshi é mestre em analogias e construção de cena. Um mestre do subliminar, da mensagem nas entrelinhas.
Se eu fosse citar todos os momentos onde Satoshi dá uma aula de direção, essa análise ficaria gigantesca. Então vou citar poucas dessas muitas.
A cena do estupro foi quando o filme conseguiu capturar minha total atenção. A cena é desgraçada, um completo desconforto, uma catarse de sentimentos conflitantes. Um turbilhão de dúvidas, porque Mima quer ser famosa, quer crescer como uma artista, então ela "aceitou" passar por essa categoria de situação. Mas quanto custa essa fama? O que ela vai precisar perder para conquistar esse lugar?Li em um site, um pensamento muito interessante sobre essa cena (links no fim da análise). Antes da gravação da cena começar, Mima está no palco, se preparando para o momento, a câmera repousa no lado direito do rosto de Mima. Podemos ver a completa expressão de apreensão, o medo dos acontecimentos futuros, a tensão sobre o que vai acontecer. Quando a cena começa, a câmera repousa no lado esquerdo e demonstra que Mima está no personagem. Sorrindo, vivendo toda a intensidade da cena, entregue a todo aquele cenário de perversão e destruição da imagem que antes ela tinha. Sensacional.
Antes da gravação, Mima está apreensiva, envolvida de duvidas.
Quando a cena começa, Mima se entrega completamente ao personagem, a perverção da escalada ao sucesso.
Outra cena de EXTREMO poder, é a cena que Rumi mata o fotógrafo que fez o ensaio sensual com Mima. A cena é carregada de poder, carregada de fúria, de sentimentos. A forma na qual a trilha sonora evolui de uma escolha confortável e óbvia, para um perturbador arranjo espiral é extremamente precisa. A decisão visual dos flashs expositivos das fotos sensuais de Mima fazem um assustador trabalho de intensificação dos sentimentos e de construção de tensão e intenção. As fotos que piscam na tela são as mais expositivas das mais expositivas, dando total ênfase na completa perversão da carreira de Mima. O fato de vermos Mima cometendo o crime, em vez de Rumi, foi uma perfeita decisão da direção. Em algumas outras ocasiões, talvez outro diretor iria escolher esconder o rosto de assassino, em uma tentativa de manter o mistério. Em Perfect Blue, Kon decide nos enganar, decide colocar Mima ali, talvez como uma forma de demonstrar que Rumi estava agindo "em nome" de Mima.


A forma na qual essa ost desfila por um campo espiral e um confuso arranjo de vozes e sons é sensacional. Uma perfeita fusão entre intenção e composição.

Direção Não Expositiva é um fator FUNDAMENTAL em um filme do gênero de Perfect Blue. Não subestimar a inteligência do público, não responder todas as perguntas, não explicar aquilo que não precisa ser explicado. Kon constrói uma perturbadora montanha-russa de apenas subidas. A forma na qual o filme vai construindo e aumentando a tensão e as dúvidas, aumentando o completo sentimento perdição. Eu lembro de estar completamento perturbado enquanto assistia ao filme, a cada cena onde a realidade se questionava, onde os acontecimentos da vida de Mima se tornavam parte da novela na qual ela trabalhava. Acredito que o estopim dessa crescente seja o momento onde "Mima" assassina o stalker e quando a luz acende, ela está diante das câmeras e uma plateia está aplaudindo. Finalizando o ciclo dos acontecimentos dela se tornando roteiro, o ciclo da perda de privacidade que o stalker criava em volta dela.

#O Final Inconclusivo

Quando eu falo sobre direção pouco expositiva, falo sobre o final de Perfect Blue. Existe sim uma "CONCLUSÃO", mas é óbvio que o mistério ainda continua, a dúvida permanece, e a "resposta" traz uma gigantesca sensação de "talvez". Novamente falando sobre a análise que li no site listado, ela fala sobre a questão do carro de Mima. Por fora, o carro é vermelho, e por dentro, azul. Penso que isso pode ser uma alusão a que, por fora, Mima voltou a ser a Mima Idol, a Mima gritante, feliz, vermelha, viva. Mas por dentro, ainda é "azul", é a Mima perturbada, cheia de dúvidas, triste.

#Conclusão

Na minha humilde opinião, Perfec Blue é o melhor longa-metragem de animação já criado. É um excepcional show de direção, produção, trilha sonora, etc. Satoshi Kon, um diretor iniciante na época, conseguiu demonstrar todo o seu potencial de forma majestosa, impecável. A escalada gradual de tensão do filme é poderosa narrativamente, a forma na quela o filme se distorce e desdobra para passar sua mensagem, sensacional. Suas metáforas são poderosas, suas críticas são atuais, seus questionamentos são importantes. Acredito que uma das mínimas reclamações que eu tenho, é em relação ao exagero do uso do vermelho em alguns momentos, principalmente no final. PORÉM, eu apenas percebi esse detalhe na SEGUNDA vez assistindo ao filme, então, isso não é um fator que prejudica o filme de forma definitiva.
Sempre penso que as animações norte-americanas e até mesmo de alguns lugares da Europa tem muito o que "aprender" com as japonesas. Não em uma questão de "qualidade", mas de "intenção". Os japoneses, desde sempre, veem que existe sim, a possibilidade de se trabalhar histórias poderosas, adultas e pesadas em formato de animação. Nós vemos que quando o ocidente tenta fazer animações "adultas", na sua gigantesca maioria, são comédias ácidas com rasas piadas repetitivas. Reconheço sim, que a Pixar faz um trabalho interessante nesse quesito, porém, penso que existe uma saturação na fórmula utilizada pelo estúdio. Enfim, paciência.

Link da análise citada na minha análise. Recomendo a leitura, é realmente muito boa.
https://medium.com/@a4parede/perfect-blue-1997-e-a-confus%C3%A3o-vermelha-47822b73941450 out of 52 users liked this review