Ginga Eiyuu Densetsu, comumente chamado por Legends of the Galatic Heroes (LOGH), arremete a um futuro fictício que nos mostra uma galáxia dividida por uma guerra secular entre duas nações: um aristocrático e absolutista Império Galáctico e uma democrática Aliança de Planetas Livres.
A série protagoniza o embate dos ideais de nações governadas por um sistema político radicalmente diferente do outro.
A obra de Yoshiki Tanaka conta uma história epopéica sintetizando a realidade. A série nos mostra, através de várias situações retratadas, como as decisões tomadas pelos governantes interferem diretamente no funcionamento da sociedade, inspirando ideais onde grupos de pessoas se unem para lutar por sua soberania.
LOGH aborda a diferença sociológica destes dois sistemas opostos.
Mais do que apenas espaçonaves explodindo umas as outros, o que vemos são estrategistas planejando seus movimentos para alcançar o êxito dentro de suas ações. O enredo descreve como cada lado lida com as consequências da destruição e a reestruturação de uma sociedade atingida pela guerra.
Ginga Eiyuu pondera as virtudes e defeitos desses sistemas com profundidade e imparcialidade. Em outras palavras, o anime é uma reflexão dos regimes abordando todas as ramificações possíveis, em todos os contextos imagináveis: militar, político, religioso, filosófico, social... Não se inclinando, pesadamente, para um lado ou para o outro; ambos têm seus prós e contras quando vistos objetivamente.
É aquela velha questão sobre o que é melhor: uma monarquia ou democracia? Uma boa monarquia geralmente é melhor do que uma boa democracia, mas uma monarquia ruim é pior do que uma democracia ruim.
Certamente que o absolutismo pode ser extremamente prejudicial para um povo quando se é governado por um déspota, mas é inegável que ela pode trazer mudanças com mais facilidade do que outros sistemas.
Já a democracia pode dar poder ao povo, mas se este só escolhe governantes corruptos, egoístas e incapazes, que vantagem trouxe possuir esse poder? Reflexões do tipo são levantadas ao longo da história sem termos a necessidade de resposta: é algo para cada um considerar.
Aqui surge o primeiro paralelo com a nossa realidade.
Para os primeiros teóricos, e também fundadores, a cerca do pensamento político da sociedade existem três formas de governo onde cada uma divide-se em boa ou má: o governo realizado por uma única pessoa, o que é realizado por alguns e o que é governado pela maioria.
Após a morte de Sócrates, as reflexões sobre o modo de governar foram intensificadas, sobretudo por Platão em sua coleção de livros entitulada A República.
Para o grego, quando uma única pessoa governa pelo bem de todos temos uma monarquia; quando este monarca governa para si surge a tirania. Já o governo de um grupo de pessoas em prol da sociedade geral é chamada aristocracia, quando esta é governada pelo interesse do próprio grupo observamos a oligarquia. No entanto, o governo realizado por todos em favor de todos é chamado de politéia e o governo da maioria que delibera sobre seus interesses pessoas é por ele chamado de democracia.
Para o filósofo, dentre os governos bons a democracia é a pior. Contudo, entre os governos ruins ela é o menos prejudicial para a sociedade.
Em contrapartida, o historiador grego Políbio, responsável por observar distintos impérios da antiguidade, identifica uma sétima forma de governar, entitulada Governo Misto. Esta forma utiliza-se dos 3 sistemas de Platão unindo-os em um só: o Rei (monarquia) é delimitado pelo Povo (democracia) que por fim é controlado pelo Senado (aristocracia). O antigo império romano foi um dos exemplos práticos das ideias de Políbio.
É evidente que estes sistemas possuem suas falhas uma vez que as pessoas responsáveis pelas decisões tendem aos vícios da humanidade, como a sede pelo poder.
O cerne de Galatic Heroes gira em torno destes desvios de virtudes dos governantes.
Reinhard e Weng Li representam bem estes sucessos e falhas. Enquanto o imperador galático desponta como um gênio militar que levaria o império à soberania, este está fadado a cometer eventuais erros.
Platão enxergava na figura do rei-filósofo, aquele que mais possuía o conhecimento, o que conseguira atingir o mundo das ideias justamente pelo seu comprometimento com o saber, a pessoa mais capacitada para governar a nação.
No entanto, quando este monarca desviava-se do caminho do conhecimento e cedia ao vicioso desejo de ter mais poder encontrava, então, sua perdição. Orgulho e vaidade são um dos vícios que culminaram Reinhard a cometer erros que lhe foram por sofrimento, seu e do seu povo.
Da mesma forma é visto em Weng Li. Yang era igualmente genial, de natureza pacifista, odiava a guerra e por isto conquistara a confiança de todos ao seu redor. No entanto, a ideia de pessoas serem seguidas pela população em geral, como é observado através dos grandes estadistas democráticos, tem seus riscos.
Yang Weng li representa bem a exploração da ideia de que as pessoas são mais propícias a seguirem outras pessoas do que ideais ou ideologias.
"Os humanos não lutam por princípios ou filosofia. Eles lutam pela pessoa que incorpora seus princípios e filosofia. Eles não lutam por revoluções, eles lutam pelo revolucionário."
Com isto surge o mal da democracia moderna. Entes poderosos que, utilizando-se de podres narrativas, tomam atitudes tirânicas, rasgando sua própria Constituição, para perseguir seus adversários políticos por uma "suposta defesa da democracia".
Tantos são os exemplos do mundo moderno de como a ideia de "em defesa da democracia" é perigosa. Em "defesa da democracia" juízes, ministros, presidentes, perseguem seus adversários, cerciam liberdades, criam presos políticos, aplicam sanções, censuram, e até mesmo iniciam guerras.
Como pode uma coisa supostamente boa, que supostamente pertence a todos e que, supostamente representa o poder de todos, culmina em menos liberdade e malefícios à sociedade geral?!
A realidade é que os governantes da modernidade utilizam-se do discurso da ideia de democracia para atribuir seus próprios interesses.
Políbio caracteriza a constituição de uma nação como boa ou má levando em consideração o uso da força, militar e jurídica, que foi necessária para impor a forma de governo. Para ele, esta negativa forma de governo da maioria é chamada oclocracia: o governo que é feito para controlar as massas.
LOGH é criticado por parecer um anime falante e maçante mas é exatamente o contrário. A emoção e o drama desta saga estão além de qualquer outra história adaptada para animes. Quando um personagens morre existe a sensação de perda palpável, como quando se perde alguém importante do convívio pessoal.
Até personagens coadjuvantes são importantes. Cada um é bastante memorável, totalmente desenvolvidos, mesmo sendo secundários ou terciários. Por se tratar de uma série longa significa que todos eles terão a chance de se desenvolver tão bem quanto as duas figuras principais.
Ao contrário do que se imagina, o anime não glorifica nem torna a ideia de guerra "legal". Também não aponta pessoas sofridas pela devastação com o velho idealismo de histórias juvenis retratadas pela máxima de Herói x Vilão ou Opressor x Oprimido.
Obviamente que estes não são os únicos temas abordados ao longo da história, o que os tornam difíceis de serem todos citados por se tratarem de 110 episódios. Existem ainda abordagens de temas como o Culto da Terra que é uma exploração do fanatismo religioso e do terrorismo como ferramenta política e o Phezzan que é uma analogia das consequências de um globalismo exacerbado nas ideias de liberdade, como na faceta de uma lógica de venda e lucro maior que a importancia de pessoas.
O Phezzan representa com bastante êxito o mal do globalismo, com suas decisões mundiais cada vez mais centralizadas e o avanço econômico e tecnologico em detrimento dos bons valores e costumes. Representa bem como a pauta global, ainda que busque uma riqueza financeira, causa a doença cultural da sociedade.
Com uma riquíssima ficção científica, Ginga Eiyuu Densetsu ressalta com bastante clareza a ideia de que o sistema político importa menos do que as pessoas que o comandam.
Lideres corruptos e egocêntricos sempre serão um problema. Não importando se falamos de uma monarquia ou de uma democracia.
Um monarca capacitado e comprometido com seu povo pode trazer bonança e prosperidade, mas um tirano só trará a opressão.
Se um povo engajado de poder elege líderes competentes, um povo alienado só poderá escolher qual será o próximo político a lhe roubar.
Ginga Eiyuu transita facilmente entre a utopia e a distopia. A História está longe de ver a política como algo desgarrado da sociedade, como uma esfera além das capacidade humanas, que opera por si própria. As pessoas estão no centro. São as pessoas que fazem a política. Quer por meio da sua atuação, quer por meio dos seus líderes.
Por estes e outros tantos motivos, em minha opinião, esta é a maior obra de animes de todos os tempos. Uma verdadeira obra de arte.
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