A história acompanha Rei Kiriyama, um jovem de 17 anos que recentemente começou a viver sozinho, financiado pelo seu salário como um jogador profissional de shogi, uma versão japonesa equivalente ao xadrez. Apesar de sua aparente independência, ele ainda demonstra estar em um processo de amadurecimento emocional e seus traumas o assombram constantemente em sua vida diária. Seu relacionamento com sua família adotiva é conturbado, além de ter grandes dificuldades para interagir com seus colegas do ensino médio, o que lhe privou desde cedo de um ambiente escolar proveitoso. Enquanto isso, sua carreira entrou em uma preocupante queda, principalmente devido às pesadas expectativas colocadas sobre ele, sendo a quinta pessoa no país a se tornar um profissional da área enquanto ainda estava no ginásio. Tudo isso o coloca num momento extremamente delicado aonde ele se vê completamente perdido em sua vida, acompanhado de seus traumas e problemas de ansiedade.
Antes de tudo, é importante avisar que essa review contém alguns pequenos spoilers de determinados pontos de Sangatsu no Lion. Tenho certeza que nenhum deles irá comprometer sua experiência, mas já deixo avisado para quem não quiser receber nenhuma informação adicional. Por sua conta em risco, prossigamos com a análise.

Slice of Life é um gênero um tanto quanto curioso na base da sua concepção. Por um lado, acompanhar momentos específicos da vida de algum grupo seleto de personagens pode parecer uma experiência bastante interessante, mas até que ponto isso pode cativar alguém a se engajar e ir atrás dessa obra? O que define de fato qual é o linear de interesse do público entre dar ou não uma chance a algo dentro desse gênero? Tendo isso em mente, muitos autores precisam se arriscar em suas propostas, apostando em temáticas e estilos de narrativas completamente únicas que possam cativar o público para sua obra. Por sua vez, Sangatsu no Lion traz consigo uma premissa um tanto quanto dúbia, ao tratar de um esporte pouco conhecido para o ocidente conhecido como shogi, servindo como plano de fundo para desenvolver seu protagonista numa jornada introspectiva na busca de trazer de volta as cores para a sua vida. A obra é focada no Kiriyama Rei e em seus complexos dramas que acabou adquirindo ao longo de sua vida. Devido a um conjunto de experiências negativas, problemas familiares e expectativas enormes colocadas em seus ombros, ele acabou escolhendo o afastamento social, privando-se de ter uma vida com mais contato direto com outras pessoas. No entanto, por já ser um jogador profissional no shogi mesmo que ainda muito jovem, ele se vê obrigado a ter um mínimo de interação com os jogadores que enfrenta, sendo obrigado a estabelecer uma conexão com cada um deles durante as partidas. Definitivamente, não é sobre o shogi que a obra está interessada em abordar, mas sim nas relações interpessoais dos seus jogadores, e como parte dessa ideia central, abordar como o Kiriyama acabou tão preocupado com o modo que ele acaba afetando outras pessoas ao seu redor, que não se permitiu relacionar com elas e acabou completamente solitário na sua vida. E é só ao perceber o quanto isso acaba afetando não só a si mesmo, como também a todos que tentam se relacionar com ele, que o Kiriyama se vê obrigado a embarcar em sua jornada pessoal de amadurecimento e reparação de um emocional destroçado.
A utilização do shogi é uma escolha perfeita para esse cenário. Desenvolver um personagem com dificuldades de interação social através de um jogo em que se faz necessário estabelecer uma conexão com seu adversário traz uma dinâmica essencial a série, onde conseguimos observar como o Kiriyama se sente em relação ao próximo e como suas emoções determinam as suas ações dentro de cada partida. Contudo, utilizar um jogo como esse pode parecer problemático, visto que esse é um esporte um tanto quanto desconhecido para o público ocidental, sendo quase impossível uma compreensão básica de suas regras em tão pouco tempo. Ainda sim, mesmo que você não entenda absolutamente nada de shogi, esse não é um requisito necessário para extrair a experiência máxima dessa obra. Sangatsu no Lion não é um anime sobre o shogi, focando muito mais os seus esforços numa jornada introspectiva sobre a psique do Kiriyama, suas dificuldades de criar relações e seus problemas com ansiedade. É sobre entender e apreciar uma jornada de reparação de um emocional abalado ao longo de inúmeras experiências negativas, questões claras de amadurecimento e a busca pela compreensão dos sentimentos do seu semelhante. O shogi em si pouco importa. Mesmo que por alguns minutos até exista uma tentativa de ensinar os movimentos básicos, juntamente de algumas estratégicas utilizadas, não é necessário buscar um maior entendimento do jogo para aproveitar a obra. Entender os movimentos e escolhas tomadas não é extrair tudo que Sangatsu no Lion tem a oferecer, sendo muito mais relevante compreender o que está sendo dito sobre ambos os jogadores durante cada partida. Nesse sentido, não existem jogos fúteis, pois cada um retrata o reflexo da situação atual do Kiriyama e dos outros personagens envolvidos naquela partida. O peso emocional carregado por cada um, as dificuldades que estão passando no momento e até mesmo problemas de saúde são utilizados como motivação para cada personagem ir o mais longe que sua dedicação e empenho o puder levar. Tudo isso é utilizado para potencializar e dar razões o suficiente para você simpatizar e validar as trajetórias e ambições de cada personagem, além de ter muito mais importância em tela se comparado ao shogi. Não se trata apenas de criar e executar a melhor estratégia, e sim do quanto cada personagem está disposto a sacrificar pelo esporte que ama.
Mesmo assim, por mais que o shogi não seja o foco da obra, é um meio pelo qual a obra se utiliza em prol da narrativa, visando desenvolver e alimentar suas ideias centrais. É dentro dele que o Kiriyama encontra um modo de viver e se sustentar sem precisar depender de mais ninguém para isso, podendo assim se isolar de todos a sua volta. Por ainda sofrer com os traumas referentes a sua família adotiva, ele acaba usando o shogi como uma forma de sustento, podendo se privar de outras relações para que assim, não tenha que passar novamente por todas essas situações negativas que enfrentou ao longo de sua vida. Entretanto, mesmo que ele veja o shogi apenas como uma válvula de escape para seus problemas sociais, uma enorme expectativa o cerca dentro dele, e ter esse peso todo colocado em seus ombros desde cedo acabou culminando em diversas situações que o deixaram inseguro, resultando em uma sequência nada satisfatória de maus resultados. Com isso lhe afetando constantemente e questionando o valor do shogi em sua vida, Kiriyama se vê obrigado a continuar se esforçando ao máximo para atingir seus objetivos pessoais. Devido a todo esse contexto delicado, existe um lado com uma importância relativamente densa graças a essa visão determinada do Kiriyama, sendo a forma como a série trata do peso das vitórias e derrotas que ele enfrenta ao longo de sua jornada profissional. Entender como o resultado pode afetar alguém é uma faceta muito explorada aqui, onde acompanhamos momentos em que o Kiriyama se vê obrigado a presenciar as possíveis consequências de cada resultado, proporcionando momentos de maior compreensão dos personagens que estão a sua volta, mas que também conseguem demonstrar com uma maior clareza a percepção do Kiriyama em relação ao próximo. Entender que do outro lado do tabuleiro também existe uma pessoa com seus ideais, sonhos e valores inalienáveis acaba tirando praticamente a força esse seu lado mais autocentrado, obtido após o seu afastamento intencional das pessoas ao seu redor. Essas inúmeras vitórias e derrotas que o personagem carrega sempre tem um impacto que acaba caindo fortemente na mente do Kiriyama. O quanto lhe afetava "destruir" as ambições dos outros? Por que ele devia se importar tanto com tudo isso? E qual é o motivo de shogi sempre ter que ser tudo ou nada para ele? Essas são perguntas que o personagem faz durante toda a temporada, sempre se indagando e tentando entender a razão de precisar aguentar toda essa carga emocional sozinho.
Pode ser um pouco difícil compreender o quão abalado o protagonista está numa primeira análise, mas é preciso dar a real importância a todos os eventos que levaram ele até esse estado atual. A questão é que o Kiriyama sofre uma pressão enorme desde cedo. Ele é um jovem garoto que carrega toda a expectativa do shogi moderno em seus ombros quando nem sequer pediu para isso acontecer. Por ter conseguido se tornar num profissional ainda no ginásio, acabou ganhando bastante atenção para si e para seu potencial dentro do esporte. Afinal, apenas outros 4 jogadores conseguiram esse feito antes dele, e todos se tornaram mestres, o que gerou automaticamente uma enorme expectativa para que ele manter essa tradição e se torna o próximo mestre do shogi. Contudo, a vida do Kiriyama tem sido um verdadeiro caos ao longo de todo esse tempo. Perdeu sua família num acidente, sente-se culpado pela ruptura gerada na família que o adotou, e para piorar tudo isso, ainda sofre com problemas de ansiedade e depressão que o fizeram se afastar ainda mais dos outros. Qualquer jovem da idade dele e com esse fardo inevitavelmente teria problemas psicológicos e não conseguiria organizar seus pensamentos de forma coerente e racional. E é nisso que grande parte de Sangatsu no Lion se foca verdadeiramente, em transmitir com clareza todos os lados emocionais de seu protagonista e trabalhar em cima de uma análise cuidadosa de sua psique. Para atingir esse feito e representar esses pensamentos para o público, a obra utiliza inúmeras metáforas textuais e visuais para expressar os sentimentos e emoções do Kiriyama, que acabam evidenciando o seu estado mental naquele momento. Seus pensamentos são expressos através de inúmeros monólogos, que bailam conforme os sentimentos em seu interior, indo desde comentários singelos, mas repletos de nuances sobre as situações que está enfrentando, como também a constatações mais sérias, que deixam cada vez mais claro o quão abalado seu psicológico está e o quanto seus traumas ainda o afetam. O Kiriyama não é um daqueles personagens extremamente complexos, e compreender os demônios que o cercam não é uma tarefa tão complicada, mas as flutuações em seu estado emocional são constantes, o que acaba proporcionando inúmeras mudanças no personagem e em seu status quo ao longo da série.
Para acompanhar essas mudanças recorrentes em seu estado emocional, a animação está sempre se adaptando conforme a mente do personagem, o que a princípio proporciona representações visuais belíssimas, mas que estão preocupadas principalmente em exaltar os sentimentos do Kiriyama e o modo como ele enxerga as coisas ao seu redor. Graças a todo esse espetáculo visual, torna-se quase que interativo a tarefa de compreender pelo que o protagonista está passando, dado que seus pensamentos estão literalmente estampados na tela de uma forma tão clara quanto a água. Essas mudanças ocorrem de diversas formas diferentes, seja com uma simples mudança de tons e cores, onde fazem inúmeros contrastes na paleta de cores utilizada nos mais diversos estados mentais que o Kiriyama está passando, como também quando todo o estilo da animação muda só para representar com ainda mais intensidade as emoções que deseja transmitir, utilizando artes mais bruscas ou menos caprichadas, ressaltando momentos onde o personagem foi tomado por uma confusão ou ansiedade profunda. Um dos exemplos mais visíveis é quando o Kiriyama está sozinho e cheio de pensamentos, onde a arte exerce um tom escuro e sombrio para ressaltar sua solidão e desorganização de seus pensamentos, mas quando está com pessoas que se importa bastante, a arte fica mais viva e colorida, indicando o conforto e carinho proporcionado por essas pessoas. Essa precisão ao alternar entre esses estilos se deve muito ao excelente trabalho de direção realizado pelo Akiyuki Shinbo e do valoroso esforço na qualidade da animação entregue pelo estúdio Shaft. Quando juntos, esses dois já mostraram em diversas obras que conseguem ampliar as qualidades daquilo que se propõem a trabalhar, sendo Sangatsu no Lion mais um exemplo gigantesco da determinação de ambos. Transformar um slice of life, tido com alguma razão como um gênero exaustivo e pouco engajante, numa experiência pura de entretenimento é uma das provas mais relevantes do quão bem cuidado esse anime foi. São doses gigantescas de carinho em cada quadro, sem poupar esforços para transmitir e aproximar o público, gerando talvez um dos pináculos mais influentes e de maior valor dentro desse gênero, graças a toda essa fidelidade ao representar as cargas emocionais presentes na obra original.
Visando sustentar e ampliar ainda mais essa carga emocional, Sangatsu no Lion conta com um grupo de personagens extremamente valoroso. Cada um deles serve como um ótimo contraste a vida do Kiriyama, servindo para demonstrar as mais variadas situações que ele teve de passar, mas sobre uma percepção completamente diferente. Logo de cara, temos as irmãs Kawamoto, um dos principais elementos na recuperação do Kiriyama. Por ter passado por uma situação traumática e acreditar ter sido o causador de uma ruptura na família que o adotou, ele acaba se afastando de tudo e todos para evitar que isso se repetisse. No entanto, essa nova família o acolhe como parte deles e é essencial ao desenvolvimento do Kiriyama, uma vez que seu antigo conflito familiar sempre o privou de ter uma boa e saudável experiência com sua família adotiva, algo que é finalmente alcançado quando ele conhece às três e passa a frequentar sua casa ao longo da história. Já seu rival, Nikaido Harunobu, é o responsável por empurrar o Kiriyama dentro do esporte que estão inseridos. Quebrando a barreira do rival clichê de shounen, ele se mostra muito mais amigável e interessado na evolução do seu rival como parte de um benefício para ambos. Sua influência é extremamente positivamente ao Kiriyama dentro, mas também fora do shogi, servindo muitas vezes como um amigo verdadeiro que não tem medo de dizer que você está seguindo o caminho errado. Alguns outros personagens têm funções periódicas, como o seu professor da escola, que volta e meia tenta ajudar e dá os melhores conselhos que alguém poderia receber, ou seu pai e irmã adotivos, que servem sempre aos propósitos narrativos e alimentam ainda mais a trama sobre o trauma familiar que passou. Contudo, um dos mais importantes na segunda parte dessa temporada sem dúvidas é o Shimada Kai. Sua participação é fundamental para demonstrar ao Kiriyama o quão tempestuoso é o lado mais profissional do shogi, alertando para que ele se prepare pelo que pode vir pela frente e mostrando tudo que ele terá que enfrentar num futuro próximo. Todos esses personagens e muitos outros que não pude citar estão a completa disposição do personagem central, mas não são vazios ou descartados pela obra. Cada um deles tem suas ambições e desejos que os fazem lutar suas próprias batalhas, sendo elementos completamente críveis e relacionáveis dentro dessa longa jornada de amadurecimento social do Kiriyama.
Sangatsu no Lion representa muito mais do que o barulho surpreendentemente satisfatório das peças de shogi sendo colocadas no tabuleiro. É sobre uma jornada introspectiva de um ser humano falho, com seus triunfos e fracassos, mas que está em busca da reparação de seu emocional que foi completamente abalado ao longo de sua vida. Essa é uma das obras mais relacionáveis que já vi em muito tempo, trazendo uma série de conflitos e dificuldades que todos nós já enfrentamos em algum momento de nossa jornada, e o modo como esses sentimentos são transmitidos em tela, bailando e se adaptando precisamente aos sentimentos e emoções do Kiriyama, tudo isso consegue criar momentos de pura apreciação, capazes de deixar qualquer um encantado com tamanha qualidade textual e visual em suas metáforas. Essa é uma história tocante sobre conexões humanas e o quanto isso tem a oferecer, sejam coisas boas ou não. Afinal, é sobre isso que relações humanas são, sobre os sentimentos e ambições de ambos, e cabe a cada um decidir se vale a pena ou não se conectar com a pessoa do outro lado desse tabuleiro de shogi.
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