Depois de algum tempo postergando decidi escrever sobre esta história que é uma das minhas favoritas dentre todos os animes que já assisti. Talvez se tivesse escrito minutos após o anime terminar esta review tivesse mais visibilidade. Contudo, o foco não é esse. Venho tão somente ressaltar a beleza por trás de Fruits Basket.
A dificuldade em escrever sobre a obra se dá justamente em escolher palavras que sejam suficientes para expressar o que se sente através desta história que ajudou a formar o caráter de muitos, inclusive o meu.
Fruits Basket, ou simplesmente Furuba, conta a história de Honda Tohru, uma jovem estudante que, depois de perder seus pais se vê sem casa, família, esperança ou qualquer expectativa, passando a morar em uma tenda próximo a um terreno isolado. Após descobrir que o terreno faz parte da propriedade da Família Souma, uma família rica e tradicional, possuidora de muitos segredos, Tohru é convidada a morar na casa dos Souma sendo envolvida, assim, na vida e nos mistérios desta família.
O segredo da Família Souma envolvem uma antiga lenda do horóscopo chinês. O Imperador Jade, que é conhecido como o deus do zodíaco, decidiu fazer um banquete para mostrar sua benevolência. Após ter seu convite recusado pelos humanos o imperador convidou animais em seu lugar e, movidos por enorme gratidão, ambos decidiram fazer a promessa de que estariam juntos para todo o sempre, dando origem, assim, aos espíritos dos animais do zodíaco.
A Família Souma foi escolhida para compartilhar este vínculo, sendo possuídos pelos espíritos dos animais, tão somente para manterem a perpetuidade da promessa. Souma Akito, líder da família, acredita ter uma ligação especial com os outros membros do zodíaco e fará de tudo para manter esta ligação, ainda que para isto tenha que oprimi-los, delimitar suas liberdades, impor medo, punições, ou mesmo recorrer a violência.
Toda essa questão sobrenatural é apenas uma alegoria usada pela autora para desenvolver sua ideia principal, que é a de pessoas superando seus traumas.
Fruits Basket mostra histórias de pessoas que foram vítimas todo tipo de abusos daqueles que mais deveriam lhes proteger: a família
O zodíaco em si representa um espécie de destino. Cada animal representa um "tipo" de pessoa com características peculiares, uma espécie de predestinação imposta desde o nascimento.
A utilização da maldição do zodíaco é uma forma da autora dizer que, através da mudança e crescimento dos personagens, que também podemos conseguir o mesmo. Ainda que isso signifique lutar contra a ideia de predestinação.
O enredo gira em torno da inteligência emocional. Furuba nos apresenta pequenas histórias de diferentes personagens carregadas de situações traumáticas que parecem impossíveis de lidar.
Em Furuba podemos conhecer, por exemplo, Momiji, um ingênuo rapaz que teve memórias de si apagadas da mente de sua própria mãe; conhecemos Hanajima que é constantemente excluída das rodas de amizades por preconceito chegando a sofrer todos os tipos de agressões físicas enquanto ainda criança; Kyo que viu sua própria mãe cometer suicídio e passou a ser tratado por todos do círculo familiar como o culpado por tal ato, sendo considerado como um monstro a ser odiado.

Tente por um momento se imaginar em alguma dessas situações.
Aliás, este é um dos motivos pelo qual Fruits Basket é uma das melhores histórias da indústria. A capacidade de atribuir verossimilhança a cada personagem é impressionante. Constantemente nos enxergamos em algum dos personagens por conta das situações tratadas serem semelhantes a nossa história pessoal.

O núcleo de personagens em Furuba é um dos melhores. Cada um tem o seu momento e importância para a história.
Souma Akito, com sua personalidade completamente perturbada, é sem dúvidas um dos destaques. Dificilmente você não odiará Akito.
Mas isto nos faz entender como pessoas que machucam os outros são as que mais precisam de ajuda.

Akito machuca, agride, fere, na tentativa de esconder o medo da própria solidão. E, mesmo que seja através de tortura psicológica, tenta preencher seu vazio com uma "relação especial", ainda que de forma superficial.
Quantas vezes não fizemos, em algum momento, algo semelhante? Quantas vezes não nos sujeitamos a toda sorte de situações humilhantes apenas para fugir da vã realidade de uma vida vazia? Relacionamentos abusivos, falsas amizades, vícios em geral...
Akito representa bem essa autossabotagem que em algum momento fomos vítimas para simular uma falsa felicidade.
Felizmente, para todo momento de tristeza existe um momento de encontro com Honda Tohru.
Tohru é o típico personagem "cabeça de vento". Em muitos momentos ingênua, em outros simplesmente inocente. Mas não se engane, Tohru não é somente um personagem caricato qualquer, ela representa a gentileza que é capaz de nos libertar do ciclo vicioso de sofrimento. Ela é o recado da autora para sociedade de que a benevolência é capaz de libertar o indivíduo do cativeiro traumático.
Tohru decide libertar os Soumas da maldição após conhecer cada um deles. Ela foi a primeira capaz de amar aquelas pessoas.
Pessoas problemáticas, sufocadas por tanto ódio e rejeição, submersas em constante trevas, conhecendo somente o preconceito, carregando o peso de um destino amaldiçoado, que odiavam o dia do próprio nascimento, puderam ver um resquício de luz no fim do túnel ao receberem amor.
A importância de Tohru para a história é imensurável.

Inteligência emocional é a capacidade de compreender e administrar emoções, tanto nossas quanto de pessoas ao redor. Parte do princípio de conhecer e compreender as emoções para então administrar suas reações.
A vivência familiar que Tohru recebeu durante a infância foi fundamental para que a nossa personagem principal desenvolvesse uma base eficaz de inteligência emocional.
No entanto, todo ser humano necessita ser salvo. Não seria diferente com a nossa amável Tohru.
Desde o início da série Tohru mostrava seus sinais de esgotamento. Pudera! Quem suportaria perder os pais e se ver tendo que morar em uma barraca, só, conciliando trabalho e escola para sua sobrevivência?

Ao mesmo tempo que Tohru resgata cada personagens ela também é salva por eles. Recebe amor e suporte das suas melhores amigas, confiança e proteção de Yuki e dos outros Soumas, além da sua relação com Kyo. Ela recebeu de kyo, talvez, o mais importante: um motivo para seguir em frente.

É evidente que o desejo de libertar os zodíacos da maldição não se dá por pura e simples gentileza. No fundo, o desejo de Tohru era, tão somente, libertar Kyo, o seu amado.

Mas quem disse que um pouco de egoísmo é algo ruim?!

Para uma história que aborda bastante sobre todos os tipos de amor não poderia faltar o amor romântico.
A série constrói muito bem seus casais, e mesmo que não seja esse o foco, Fruits Basket tem o melhor romance da indústria de animações nipônicas.
Um dos momentos chaves da história é justamente a redenção de Akito. Este momento retrata uma das coisas mais lindas e mais importantes que o ser humano pode presenciar ao longo da história: o perdão.

O perdão é a representação máxima de amor. No perdão encontramos não somente o amor pelo próximo como também o amor próprio. É necessário força e determinação para perdoar, além de ser uma atitude de inteligência.
O perdão é a chave para a liberdade.
Quando Tohru perdoa Akito ela conseguiu libertar não somente a antagonista. Tohru libertou a si própria bem como os outros Soumas. Ela os libertou de muito mais que uma maldição, Tohru os libertou do passado, do presente e deu a eles a possibilidade de escreverem o próprio futuro.

A história aborda muito bem o aspecto da autonomia de escolhas, nos fazendo entender que somos os únicos responsáveis por nossa vida e decidimos como vivê-la.

Outros pontos que valem ser ressaltados são a animação, que é belíssima, com ótimos cenários, juntamente com a parte sonora.
A OST de Furuba é magnífica! Seja pela trilha sonora usada nas cenas, que causam bastante impacto, seja por suas Openings, Endings e Insert Song's.
Cada uma das músicas de Furuba é melhor que a outra e retratam bem o envolvimento dos personagens em suas letras.
Falar de Fruits Basket é relembrar de momentos bastante difíceis que vivi em algum momento mas que consegui vencer. Por isso, essa é uma das histórias que mais amo.

Resta apenas alegria, tristeza e saudade de uma das obras mais marcantes que pude conhecer.
O adeus nos deixa solitários, porém nos abre novos começos. Nada dura para sempre. As despedidas virão, quer queiramos ou não.
Por tudo, Arigato, Sayonara, Furuba!

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