

É indiscutível que a história da humanidade é marcada por monstruosidades. Desde o começo a nossa jornada na terra é acompanhada pela destruição, nossos antepassados mataram uns aos outros por terras e mataram as terras por dinheiro. Os mais pobres e fracos perdendo suas culturas e identidades pelos mais ricos e fortes. Culturas que genocidam outras. Sempre foi assim e nunca vai mudar: projeto, experimento, ação, reação e consequência. Mas nós jamais seremos capazes de aguentar as nossas consequências.
Um elemento muito comum na nossa vida é o nome, e ele é muito frisado no decorrer do anime. No começo de 2019 uma gata foi abandonada na rua e ela invadiu a minha casa, e acabamos a adotando, eu lembro na época de pensar em vários nomes que ela poderia ter mas o antigo dono dela já tinha dado um nome pra ela: Marie. E como eu poderia trocar? Mesmo não gostando do nome e mesmo não gostando do seu antigo dono, eu não poderia fazer nada afinal é o nome dela. Eu sei que é bobo mas é tão agonizante pra mim o fato de você existir, ter um nome, e as pessoas não te chamarem por ele. Ela é a Marie, e é um bom nome.
Eu mesma nunca tive problema com o meu nome, mas não o uso na internet, me acostumei a usar um apelido que não remete em nada o nome que meus pais escolheram, e que ninguém da "vida real" jamais me chamaria assim. Um apelido neutro que não remete nada a mim, mas que agora eu não consigo me desvincular dele (não que eu queira, eu gosto). E eu o uso desde quando era criança, lembro exatamente do que eu senti quando começaram a me chamar por ele. Estavam falando comigo, mas era por um outro nome. Ninguém me conhecia, ninguém poderia negar que aquele não era meu nome. Era como se não fosse eu.
No anime, existe uma situação em que os personagens esqueciam os seus próprios nomes. Sem uma identidade é muito fácil ser um "monstro", afinal sem um nome não somos ninguém. Minha avó tem alzheimer num estágio avançado, ela já esqueceu o seu próprio nome, a doença arrancou o seu nome de sua memória. No anime isso consegue ser um pouco mais cruel, os humanos arrancam o nome dos outros. Exija e lute pelo seu nome. Ele é muito importante, é ele que te mantém vivo, é ele quem prova a sua existência.
O monstro sem nome estava errado em ter exigido ter um nome também? Ou não ter um nome é o que fazia dele especial? O monstro do leste aceitou a sua condição, o monstro do oeste não.
É interessante de se pensar também que, apesar da minha vó não lembrar nem seu próprio nome, ela jamais se esqueceu de sentir emoções. Ela fica brava, ela fica feliz, ela fica triste, ela chora e ela da risada.
Monster também traz fortes reflexões sobre o sentido da vida e a inevitabilidade da morte. Nos mostra as várias maneiras de encarar essa jornada que somos obrigados a ter (a de viver e a de morrer). A morte carrega consigo esse óbvio mistério, mas o nascimento é e será pra sempre uma grande ambiguidade, afinal, analisando de uma maneira mais fria, não tem regras nenhuma, uma vez que a natureza e a biologia nós colocou na terra de forma totalmente aleatória. Parabéns você ganhou uma corrida em que o prêmio é esperar pela morte.
E pensando em nascimento, seria possível alguém nascer mal? Ou ate mesmo bom? Seria uma criança um papel em branco? Ou melhor, um espelho de sua própria criação e convivência? É certo demonizar uma criança por reagir as monstruosidades que a vida lhe "presenteou"?
Nós humanos temos essa mania mesmo, demonizar outros humanos, arrancar deles os seus nomes e torcer pela sua morte.
Monstros nunca vão deixar de existir se não aceitarmos e darmos nome a nossa própria natureza monstruosa.
“Não siga apenas ordens! Vocês são homens, não máquinas! Em seus corações, você sabe o que é certo, a resposta está lá, esperando por você. Vocês são corajosos o suficiente para olhar para dentro de si mesmos?” – Wolfgang Grimmer
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