Particularmente eu admiro histórias que possuam alguma riqueza narrativa e/ou produndidade literária. No entanto, eu detesto o culto exacerbado, e, muitas vezes, incoerente, à qualquer coisa tomada por complexa.
Pensando nisso, decidi escrever acerca de
Boogiepop Series, com enfoque maior em sua adaptação de 2019, mas fazendo algum comparativo ao seu primeiro anime adaptado.
Em linhas gerais, a história remete acerca de diversos acontecimentos estranhos, ora dada sua natureza misteriosa, ora sua natureza sobrenatural, que ocorrem em uma certa cidade. O surgimento de um estranho e chamativo feixe de luz no céu daquela cidade, o desaparecimento repentino de estudantes, uma nova droga, um assassino em série, além de uma suposta aparição sobrenatural, segundo os boatos populares, de um shinigami: um ceifador, um mensageiro da morte, envolvido em cada suposto assassinato. Somado a isso, uma jovem moça atuando como vigilante da justiça, tentando lutar contra os mistérios encobertos daquele lugar.
Em primeira vista, Boogiepop Series destila complexidade, que, por conseguinte, é confirmado em seus primeiros episódios, fora de ordem cronológica, e sua constante escrita não-linear.
Mas, ao contrário de outras obras deste seguimento, como Serial Experiments e Paranoia Agent, Boogiepop Series não atingiu tamanha popularidade quanto estes pilares do gênero. Ao meu ver, muito pelo culto errôneo ao complexo por partes de pessoas que, provavelmente, sequer entenderam a respeito de seus enredos.
Sem muitos spoilers que comprometam a experiência de quem ainda não assistiu, Boogiepop, seja em sua adaptação inicial (Phantom), seja em sua adaptação mais recente (Wa Warawanai), possui algo de muito apaixonante: o quanto ele instiga o ouvinte nos mínimos detalhes.
A história, em tantos momentos seguindo uma ordem não-linear, nos conta os acontecimentos a partir do ponto de vista de diferentes personagens. O fato de não se prender a um único protagonista nos da uma visão geral, longe de quaisquer viés filosófico-ideológico, sobre o funcionamento do mundo e da sociedade.
Boogiepop, que está mais para um observador que um shinigami, um assassino de pessoas que atingem o auge da sua beleza (como é descrito em sua lenda urbana). É uma aparição sobrenatural que se manifesta no corpo de Miyashita Touka para proteger o mundo dos Inimigos da Humanidade.

Uma dupla personalidade? Um desejo forte vindo de Touka em fazer algo por alguém? Um senso forte de impunidade? Não sabemos ao certo o que fez este ser sobrenatural escolher a jovem estudante.
Diferentemente do que se imagina, estes tais inimigos da humanidade não são somente outras aparições malignas, com sede de dominação mundial, ou movidos por um forte desejo de vingança, tal qual são em muitas obras clichês que abordam o sobrenatural. Os tais inimigos são todo e qualquer ser que, movidos por seus sentimentos ruins, tomam atitudes que causam malefícios a outrem, incluindo os seres humanos.
O elemento humano é quem realmente influência no aspecto sobrenatural. Assim como em Boogiepop Phantom, os sentimentos ganham forma física através de estranhos insetos, em Warawanai, no arco do Ghoul do medo, embora sendo a doutora sendo humana, vem a tornar-se um dos inimigos da humanidade dada suas atitudes cometidas.
O oposto disso também é válido, quando não-humanos podem ser considerados defensores e não inimigos da humanidade.
Primeiro o Espantalho que, embora tenha corroborado ativamente para a propagação da droga que levava os humanos a sua evolução, teve seu momento de redenção, através de Boogiepop. Nos mostrando que, ainda que submersos em tamanho remorso, mesmo em meio ao pensamento negativo quanto à mudança pessoal, se houver um desejo sincero, haverá esperança.

Bem como Echos, ainda que fosse uma aparição com potencial para ser um dos inimigos da humanidade, este vem a escolher defender os outros com o bem que recebeu.

"Por favor, lembre-se disso, Suema. Há uma diferença entre a saudade dos velhos tempos e ficar preso no passado. Da mesma forma que a cidade tem de mudar ao longo do tempo, é importante que as pessoas se movam para a frente com suas vidas. Eu sei que você entende.''
São nas palavras de Boogiepop que percebemos o caráter evidente da escolha pessoal.
Tanto no arco Panuru, como no Rei da Distorção, temos a figura central sendo os sentimentos pessoais. Um coração carregado de sentimentos reversos é capaz de causar distorção no exterior da pessoa. Por isso existem aqueles que, com sinceridade, tentam serem melhores para aqueles que estão em seu redor, muito embora, eles cometam decisões contrarias as que desejam. Essa a é a distorção causada por esses sentimentos.
"Se seus sentimentos ainda não são ouro, tenho certeza que nada mais neste mundo conseguirá brilhar".
De igual forma temos a influência dos sentimentos sendo abordados no arco de Panuru. Misuzu, embora sempre sendo positiva sobre a vida, carregava um fardo de mágoas e pesares em seu coração, sempre maquiando estes sentimentos em busca de uma falsa positividade, onde tudo no mundo venha aparentar ser belo.
Esta forma de ver a vida não poderia estar mais errada. Fechar os olhos e aceitar tudo como forma de superação é abominável. Deste modo, a pessoa esconde a dor e não se permite sentir o que é preciso. Quando não se coloca para fora os sofrimentos em algum momento esse sentimento irá explodir e o fará enlouquecer. Ou seja, este mundo maravilhoso de Panuru é uma ilusão. Uma distorção.

Isto é Boogiepop Series. Difícil, complexo. Mas não apenas isto... É uma viagem enigmática ao que é e ao que poderia ser a natureza humana. Uma história com enredo sério, abordando temas como pesares, invejas, ódio, suicídio.
O homem não é o lobo do próprio homem. O homem não é corrompido pela sociedade. Se isto vir a acontecer, e este homem vir a se perder, foi por sua escolha. Ele mesmo o corrompe.
E você? É aliado ou inimigo da sociedade? Aliado ou inimigo de si mesmo?
"Um mundo que não se pode sonhar ou pensar no futuro... Um mundo desses está errado. Mas, infelizmente, não sou eu quem vai lutar contra isso. Essa responsabilidade é de vocês".
Boogiepop.
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