Tente definir a ideia de "tempo" e de "momento". O período chamado "agora", quanto tempo pode durar? Quando ele pode mudar? Como podemos fazê-lo permanecer?
Pense em um período da sua vida de 10 anos atrás. Pense nas amizades que você possuia, as pessoas queridas que estavam em seu redor. Onde elas estão hoje?
Pense nos lugares em que você frequentava, as coisas que costumava fazer. Estes lugares e estas coisas ainda existem? A que distância, física e emocional, você está delas?
São estas reflexões que direcionam a ideia geral do que é Aria.
O nosso dia-a-dia, os lugares frequentados, as queridas companhias, a confortável rotina, são aspectos dados por nós como garantidos. São estas as particularidades que formam o nosso "agora".
No entanto, quando paramos para pensar, percebemos o quanto tudo mudou. Quantas coisas foram deixadas para trás, quantas pessoas que não vemos mais, quantos lugares deixaram de existir...
Esta é a inexplicável antitese da vida.
Quanto tempo dura até que o "agora" se torne "já foi"?
Se refletir sobre isto te causar uma certa "dor", uma sensação de "melancolia", é algo comum. Os japoneses chamam esta filosofia de Mono no Aware. Este é o pathos das coisas. A sensibilidade com o que é efêmero.
Todos os dias acontecem milhares de situações que aparentam ter nenhuma ordem e/ou conexão. O mundo aparenta estar emaranhado em um caos absoluto. Coisas que fogem de nosso controle, situações que contrariam nossas expectativas. Mas, será que, de fato, este caos não segue uma ordem maior? Algo até então inalcançável pelo nosso entendimento?
Heráclito, de Éfeso, acreditava existir uma ordem no mundo que nos rodeia. Uma lei universal não oculta aos nossos olhos, perceptível em cada ação do cotidiano.
Como o fato de não podermos mergulhar duas vezes no mesmo rio porque nem o rio nem nós permanecemos os mesmos. Todas as coisas fluem. Depressa, devagar, mas fluem.
Aria ocorre em um futuro no qual a exploração espacial se fez possível. A raça humana embarcou rumo à Marte a fim de colonizá-lo, chamando-o, assim, Neo Venezia.
Os pioneiros sofreram grandes dificuldades com o processo de oceanificação mas, o fruto do seu trabalho foi a criação de um paraíso natural. Neo Venezia tornou-se o principal destino turístico com seus passeios em gôndolas pelas cidades cercadas por água.
O cerne do enredo gira em torno do reminiscente passado em relação ao presente momento. Nos deixando esta reflexão sobre o tempo.
“Coisas misteriosas. Quando você é criança, tem certeza de que elas existem. Mas, quando menos espera, essa certeza se transforma no desejo de que elas existam. Porquê? Quando você deixou de acreditar nelas?”
Quando Akari diz tais palavras conseguimos perceber não somente a passagem inevitável do tempo como também todas as situações modificadas por ele. É o fluir da "correnteza da vida".
"Quando eu era criança acreditava que a Terra do Nunca era um lugar real. Mas, uma vez que cresci, entendi que era uma fantasia. Quando isso aconteceu?”
Em contrapartida, com extrema sabedoria, Alice nos remete a importantes reflexões que só são adquiridas através da maturidade.
Alice alerta as garotas levando-as a entenderem como seria triste viver uma vida em que se perde de vista a preciosidade do agora em detrimento de se ter em mente somente os divertidos momentos do "ontem".
Isto é o Mono no Aware. A gentil melancolia que se sente com o que é transitório.
“O tempo tem o costume de mudar as coisas. As vezes de forma gentil, as vezes de forma cruel”.
E há uma certa beleza neste sentimento. a perenidade da impermanência é o que gera preciosidade às nossas memórias.
As mudanças são inevitáveis e isso não quer dizer que não são bem vindas.
Voltando a Heráclito, o filósofo acreditava no combate sendo o pai de todas as coisas. As mudanças existem em decorrência da tensão de forças contrárias. Como o mel que é, ao mesmo tempo, doce e amargo.
É justamente esta tensão no centro de tudo que coloca todas as coisas em constante movimento. Esta é a ordem que só é alcançada através do caos. Como no andar, que é preciso um constante movimento que nos desequilibra e reequilibra para nos levar a algum lugar.
Aria nos convida a saborear cada experiência vivida, bem como viver o "agora" na mesma medida.
"Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam.
O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.
Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação que, se nada sobrevivesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existia o tempo presente. Não há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar: os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras. Existem, pois, esses três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras."
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