
Como seria de se esperar, KanoKari nem bem terminou sua segunda temporada e já tem mais uma sequência anunciada. Essa é uma obra que acho que possui alguns pontos muito positivos. Infelizmente, existe também um gigantesco ponto negativo, que tem nome e sobrenome, e que você certamente já sabe do que eu estou falando, considerando que o nome dele está escrito no título desse texto. Por causa desse problema em particular, KanoKari se torna uma história difícil de se acompanhar. Não tenho certeza se irei continuar na próxima temporada, portanto, vou escrever tudo que quero agora.
Nota: A score atribuída ao final dessa review não é a mesma nota que dei ao anime. O Anilist obriga que um número seja adicionado ao fim dos textos, como se os argumentos não fossem o suficiente, então escolhi um valor intermediário. Você está plenamente livre para concordar, discordar, dar upvote ou dawnvote, mas, por favor, faça isso baseado nas minhas palavras e não em um número que não significa nada. Números não são adjetivos, não são argumentos, não carregam o valor de uma obra. Just listening to the song.

Deixando de lado esse meme da desconstrução, eu acho que a parte principal da trama de Kanojo, Okarishimasu tem, de fato, uma ideia ligada à reversão de expectativas. Isso parte do pressuposto idealizado em sua sinopse sobre "a garota perfeita saindo com um perdedor". Ambas as ilusões, da garota ideal e do perdedor, vem diretamente da percepção gerada pela narração em primeira pessoa. E então, de certa forma, o desenvolvimento de personagem da Chizuru parte dessa base, da idealização que a narração do Kazuya gera nele mesmo e nos telespectadores. De que Chizuru é uma mulher perfeita no mundo do anime, uma Yamato Nadeshiko na cultura japonesa, ou uma waifu na cultura otaku. Essa pré-caracterização da Chizuru é o que realmente quebra... melhor dizendo: Essa pré-caracterização da Chizuru é o que aperfeiçoa a expectativa. Conforme o Kazuya vai adentrando na vida íntima da Chizuru, vamos descobrindo que ela está longe da perfeição. A Chizuru é significativamente insegura, se entristece fácil, se sente solitária e tem dificuldade em continuar seguindo em frente quando as coisas não saem como ela desejou. Nesse ponto, não temos mais uma pré-caracterização ou uma falsa ilusão de uma mulher sem defeitos. O que existe é apenas a Chizuru como ela é. E assim, o fato dela ser uma namorada de aluguel e ser uma aspirante a atriz, se interligam com toda sua personalidade mais profunda. A sua personalidade que a mantem forte em frente as adversidades, mesmo que, na verdade, ela se entristeça facilmente e queira chorar. A sua personalidade de ser independente, mesmo que ela tenha tendência a se sentir solitária. A sua personalidade que nunca desiste, embora ela queira desistir. O caráter da Chizuru é feito de qualidades, defeitos e atuações. Mesmo o que pode ser uma mentira dela, não tem problema nessa ilusão. Porque a máscara da Chizuru, nesse ponto da obra, já caiu. Ela deixou de ser uma mulher perfeita, uma Yamato Nadeshiko e uma waifu. Ela é bem mais que isso. A Chizuru é uma pessoa extraordinária, o que a caracteriza como uma personagem incrível, muito além das expectativas superficiais de uma waifu. Isso em si, já é uma reversão de expectativa.
Desde sempre eu me sinto atraído por obras que abordam o tema do luto. E parte disso vem do fato de que amo quando as características de um personagem são passadas através da perspectiva de outrem. Eu adoro a subjetividade que existe nesse tipo de caracterização. Pois, a forma que se entende um pessoa, nunca é o que essa mesma pessoa é naquilo que a metafísica define como "essência"; a característica imutável que denota a natureza de um ser. Essa percepção inexata combinado com as possibilidades que o arco de desenvolvimento do personagem em questão pode gerar, é algo extremamente significativo. KanoKari tenta usar esse fato e confrontar a expectativa com a realidade. Ao mesmo tempo em que o Kazuya percebe que a Chizuru não é perfeita, ele acaba por entender que a vida dele é muito mais confortável do que ele antes imaginava. Uma ideia muito boa. Ou assim seria, se não fosse...

A narração em primeira pessoa é o tipo mais poderoso pra se aplicar em uma narrativa. Ao acompanharmos algo pela perspectiva de um personagem e ouvir até o mais proibido de seus pensamentos, isso torna o espectador como confidente dele. Criar um personagem cheio de problemas em uma trama com esse tipo de narrativa é algo complicado. O ideal seria que a índole desse personagem estivesse além do bem e do mau. Basicamente, é o tipo de recurso que nas mãos de um bom escritor torna-se algo incrível. O que não faltam são bons exemplos de animes e mangás com narração em primeira pessoa. Infelizmente, pra KanoKari isso se torna um problema irremediável. Se eu simplesmente dissesse que o Kazuya é um personagem chato e irritante, seria fácil alguém me contradizer indo até minha lista de obras assistidas e encontrando algum anime harém que gosto e que também é protagonizado por alguém apático e de personalidade sem graça como o Kazuya. Se o problema fosse apenas ele ser um protagonista mal escrito, isso seria facilmente remediável pela personalidade encantadora da Chizuru. O maior problema e que torna KanoKari difícil de se assistir, é a narração em primeira pessoa do Kazuya. Ao invés disso me aproximar dele, enquanto expectador, acaba gerando apenas repulsa. O Kazuya não é só chato, ele é insuportável. Todas as coisas que deveriam ser pontos positivos, ele torna negativo. Por exemplo, existe a reversão dele perceber que os problemas dele são realmente simplórios, e que a Chizuru enfrenta coisas mais difíceis de coração aberto. Ao invés disso quebrar seu tropo de "perdedor", Kazuya apenas se torna mais e mais underdog. Ele narra que se sente um lixo porque a vida dele é boa. Ele narra que se sente um lixo porque a vida da Chizuru é mais difícil que a dele. Isso não gera empatia, gera apenas irritação por toda essa redundância. Mesmo a parte que idealiza a Chizuru como uma mulher perfeita e depois a remonta como uma mulher que apenas está dando tudo de si, não é realmente sobre ela. Além do underdog, ele também é dono de um gigantesco egocentrismo. Toda a perspectiva gerada pela narração em primeira pessoa do Kazuya para os demais personagens, ao fim de tudo, é sempre sobre ele mesmo e sobre o grande lixo que ele ressalta ser em todos os episódios. Todo esse anime é sobre o Kazuya, e não sobre a Chizuru. Além de tudo, todos os monólogos dele são mal escritos, talvez na tentativa de o tornar real. O Kazuya é um grande buraco negro que sempre se coloca no centro da trama, engolindo todas as melhores características da obra.
Como isso é uma review, suponho que eu deveria escrever sobre coisas técnicas e sobre os demais personagens. Não vou fazer isso. Preferi focar apenas no que existe de melhor (a Chizuru) e de pior (o Kazuya) em KanoKari. Esses são realmente os dois pontos que acho que fazem KanoKari merecer uma chance e não merecer uma chance, simultaneamente. Agora mesmo, apesar do protagonista ser insuportável, ainda me pego pensando que talvez eu deva assistir mais uma temporada só por causa da Chizuru. O episódio 12, que é focado em contar o passado dela, foi incrível.
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