As discussões do século XXI cada vez mais têm sido marcadas pela busca da inserção da tecnologia à vida humana. O clássico de 1995, Ghost in the shell, aborda esta discussão do ponto de vista filosófico utilizando-se, e muito, do hard fiction.
"GITS" é situado no ano de 2029, em um cenário distópico, cujo o avanço tecnologico pode ser visto por todos os lados. A humanidade alcançou a capacidade de fundir-se à tecnologia através de um sistema de redes neural, utilizando-se de implantes cibernéticos denominados "ghost", tornando, assim, dispensável mesmo até a utilização de membros orgânicos.
A existência humana e a conectividade virtual galgaram rumo ao ápice do seu pareamento. Pessoas costumeiramente conseguem conectar sua mente a softwares capazes de apropriar-se de suas memórias, dispensando, assim, seus corpos originais. O que os fazem ser "fantasmas" vivendo em "conchas" cibernéticas.

Dessa forma, o surgimento iminente de perigos através de crimes causados pelo controle neural é inevitável. A prática de cyberterroristas capazes de hackear a mente de pessoas comuns, através de seus devices "ghosts", adulterando, então, suas memórias, fez-se comum.
Em meio a esta espantosa ameaça, houve-se a necessidade do surgimento de uma força tarefa capaz de identificar e combater este tipo de crime virtual com consequências drásticas no mundo real. A Sessão 9, liderara por Kusanagi Motoko, trabalham, arduamente, no combate destes terrorista cibernéticos.
O longa metragem foi o ponto-chave para o surgimento do gênero cyberpunk na mídia audiovisual, ditando normas desde a construção de mundo, até mesmo a temática utilizada no enredo, influenciando clássicos hollywoodianos como Matrix.
No entanto, o objetivo desta análise é realizar uma tentativa de síntese dos questionamentos filosóficos abordados por Mamoru Oshii.
De início, GITS nos bombardeia com problemáticas acerca da individualidade e da existência com os pensamentos do vilão Puppet Master e as profundas dúvidas da Major Motoko.
Para começar, é questionado o que "ser" de fato significa. Se é necessário possuir uma "casca" orgânica para isto.

Motoko, que mal consegue se lembrar de suas memórias antigas, depois de seus constantes implantes tecnológicos, embarca em uma profunda busca da sua existência.
Cenas, como a do seu mergulho nas águas, revelam sua angústia por não mais "sentir-se existindo". A ausência de órgãos próprios tiraram de si sensações biológicas básicas, como a dor, e com elas, os instintos que competem ao ser humano.
Com isto em mente, nossa protagonista parte, muitas vezes, em busca de emoções, na tentativa de reafirmar sua humanidade.

O fato de mergulhar e não saber se poderá se aforgar ou não, causando assim a sensação de medo e desespero, culminando na aflição que desperta o instinto da sobrevivência é uma de suas muitas tentativas em reproduzir sua humanidade.
De forma antagônica às atitudes da Major, temos o Puppets Master, que "desistiu da sua humanidade", abandonando o próprio corpo, imergindo na rede, tornando-se um com a tecnologia.
Nisto vemos o transhumanismo em sua plenitude ideológica.

Para o vilão, sua humanidade é desnecessária frente a individualidade. Nem mesmo a concepção de outras pessoas a respeito de sua existência tem importância. Enquanto ele reconhece sua própria individualidade valida sua própria existência.
Identidade x Existência
Foram muitos os autores que abordaram esta problemática.
Como é o caso da hipótese do Homem do Pântano.
Suponha que um homem saia para passear em uma floresta próxima a um pântano, em um dia chuvoso, quando um relâmpago o atinge, desintegrando-o. Simultaneamente, um raio atinge o pântano e faz com que, coincidentemente, um aglomerado de moléculas se reorganize de modo que replique com exatidão o homem que foi desintegrado alguns momentos atrás. Este “Homem pântano” tem uma cópia exata do cérebro, memórias e padrões de comportamento do o homem que desapareceu. Quando este novo ser volta para casa passa a interagir como de costume com as pessoas próximas ao falecido.
Este ser que surgiu do pântano, embora exatamente igual, é a mesma pessoa que o sujeito desintegrado um dia foi?
Para Donald Davidson, filósofo e autor da hipótese, não. Ainda que fisicamente idênticos, e que ninguém note a diferença, eles não compartilham uma história pessoal e por isso não podem ser o mesmo. Mesmo que o homem pântano se lembre dos amigos do homem desintegrado, na realidade este nunca os viu antes, senão somente em memórias.
O homem pântano não teria capacidade de reconhecer qualquer coisa que não lhe fora conscientizado.
Vemos a necessidade da experiência real.
Identidade pessoal refere-se as condições das quais um ser necessita para que seja a mesma pessoa em momentos diferentes. A filosofia moderna da mente avalia um conjunto de condições necessárias para que a identidade de uma pessoa se mantenha ao longo do tempo.
Com isso, surgem novos questionamentos, como o problema mente-corpo.
A discussão mente-corpo diz respeito acerca da relação da mente e seus processos mentais com o corpo e o estado em que este se encontra.
Ainda sobre a filosofia da mente, o dualismo de propriedades defende que, apesar do mundo ser constituído por substâncias físicas, existem dois tipos de propriedades: física e mental.
Em outras palavras, é a ideia de que propriedades não-físicas, como desejos, emoções, crenças, valores, inerem nas propriedades físicas.
Com isso, entende-se que a mente, ainda que dependa do cérebro, vai além deste. De modo que os processos mentais, ainda que dependam do cérebro para sua ocorrência, trasncedem o seu funcionamento básico. Como é o caso da imaginação. Mesmo que a prática de imaginar dependa do cérebro o indivíduo consegue ir além e criar situações completamente diferentes da sua realidade observada.
Aristóteles compreende o fato da mente ir além do cérebro como a alma hielomórfica do ser humano. Uma forma de existência superveniente à substância física.
Eis, então, os perigos e a problemática do transhumanismo com sua fuga da realidade.
Oshii conduz ao longo do enredo, com diálogos reflexivos entre Motoko e o Puppet Master um questionamento sobre relação da individualidade com a existência.

Ghost in the shell não é a história que serve para "iluminar meus pensamentos". Existem muito do que eu discordo. Mas, com um tom bastante filosófico, levanta discussões que são bastante pertinentes para o ser humano.
Seja pelo seu enredo, animação ou trilha sonora, que são espetaculares, GITS fez-se uma expressão artística em formato de animação do mais alto nível.
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