Uma garota que se transfere da grandiosa e agitada Tóquio para um pacato e simplório vilarejo no campo. Com o contraste que há entre mega edifícios na capital e as colinas e árvores em uma cidade afastafa de tudo, entre estações e cruzamentos superlotados e placas sinalizando a travessia de vacas pela estrada.
Esta é a vida de Houtaro, uma criança que passa por uma mudança brusca devido a transferência no local de trabalho de seu pai: da megalópole Tóquio para a campestre Asahigaoka.
Non Non Biyori aparenta ser somente mais um típico anime slice of life com garotas fofas fazendo coisas fofas, e talvez até seja mesmo. No entanto, existe uma beleza por trás do show.
Eu tenho um profundo apreço por shows slice of lifes. É relativamente fácil conquistar espectadores com shows de fantasia, repleto de superpoderes, com um vasto mundo de aventura, e todas estas coisas que permeiam o imaginário popular. Quem nunca sonhou com algo do tipo em algum momento da vida?
No entanto, há uma extrema dificuldade para se representar a grandeza por trás do dia a dia, em se fazer o cotidiano algo atrativo. E é justamente esta a beleza por trás de obras iyashikeis.
A dificuldade em se retratar a grandiosidade que o natural possui vai além do chamativo sobrenatural, do pirotécnico, do megalomaníaco, do fantástico.
Com o advento dos avanços tecnológicos e seus mais diversos e variados meios de entretenimento o ser humano perdeu a capacidade de contemplar a beleza da simplicidade.
Em tardes chuvosas, a preocupação com a qualidade do sinal do WiFi ou da TV à Cabo tomou o lugar dos momentos que outrora se apreciava as gotas caindo do céu, a terra sendo lavada, o cheiro da chuva, os sons da tempestade, o arco íris que se formava.
Os ruídos da cidade tomaram o lugar dos sons matinais. Estações sempre movimentadas, trens superlotados, a preocupação de se encontrar um local confortável para poder, então, colocar os fones de ouvidos e se distrair na viagem a caminho do trabalho roubaram a glória que a manhã possui.
Quando foi a última vez que levantamos cedo, sem preocupações, sem pressa, somente para ver o dia amanhecer? Para contemplar o cuidado dos raios de sol surgindo no momento certo para levantar o véu que separa dia e noite?
Ou o clima bucólico que é característico do entardecer, seguido de um por-de-sol que pinta as cidades com tons de vermelho.
Ou o misterioso aspecto gélido que as noites possuem, com o luar que clareia sem revelar mais que o necessário. Ou como aspecto noturno inspira os momentos reflexivos, nostálgicos, melancólicos, que a vida possui.
Non Non Biyori nos apresenta a história de quatro garotas vivendo em um pacato vilarejo, tão pacato ao ponto de possuir peculiaridades como a população humana ser menor que a quantidade de vacas ali existente, ou o fato de que so existem cinco alunos no único colégio da cidade, cada qual em uma série diferente.

"Mas como isto pode ser atrativo?" É algo comum a se perguntar.
A história nos leva a acompanhar o cotidiano destas garotas, desde brincadeiras e meios para se divertir em um local afastado das grandes tecnologias, bem como as relações construídas por elas e como isso as fazem crescer.
Quando assisti Non Non Biyori duas coisas despertaram em mim.
A primeira foi a nostalgia da minha infância. Consumir a obra com este viés trazia à tona muitas lembranças saudosas que há muito eu havia perdido.
Lembranças de coisas que as crianças de hoje não fazem mais. Brincadeiras que elas nem imaginam que um dia existiram. Lembranças de uma vida mais simplória, quando minha única preocupação era chegar ao colégio, ou as horas que eu gastaria na biblioteca.
Non Non Biyori despertou em alguns momentos essa espécie de reflexão sobre a inevitável passagem do tempo. Sobre o que me tornei e os caminhos que percorri até aqui.
A segunda forma na qual consumi a obra foi da perspectiva de um adulto, cheio de preocupações, responsabilidades e deveres. Sendo a principal responsabilidade, talvez, a de construir um mundo melhor para as crianças que estão experimentando a infância.
Como nos momentos em que Dagashiya, a vendedora da loja de doces, se viu nesta transição entre a adolescência e a vida adulta.
É válido ressaltar os momentos de interação da personagem com a Renge. Como um adulto que ainda assemelha a responsabilidade de conduzir o crescimento de uma criança, tendo o cuidado de ser um exemplo a ser seguido, inspirando boas ações que podem ser replicadas e corrigindo aquelas que não devem ser cometidas.

É bem comum que o espectador venha a consumir a obra de uma destas duas perspectivas.
O show nos arremete às paisagem naturais com um tom de verossimilhança ao da vida real. Os ótimos cenários despertam essa sinestesia que resulta em uma imersão um tanto quanto satisfatória.
Em diversos momentos faz-nos sentir na verdadeira Asahigaoka.
Ademais, o enredo não possui uma reflexão moral sobre a existência humana, nem um roteiro com mirabolantes reviravoltas.
O show tão somente nos mostra a beleza que existe nas pequenas coisas da vida. Nos aspectos que estão tão entrelaçados com a condição humana a ponto de se tornarem despercebidos.
Poucas séries conseguem retratar bem a inocência e a curiosidade da infância, bem como os momentos de descoberta do mundo a sua volta e a emoção que existe na simplicidade de tudo.
Seja pelo caráter nostálgico ou contemplativo, com uma narrativa leve e relaxante, o show nos convida a admirar as maravilhas que somente a simplicidade possui.
Nas palavras de um dos meus compositores favoritos sintetizo tudo:
"Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer
Eles vão aprender muito mais do que eu jamais vou saber
E eu penso comigo: Que mundo maravilhoso!"
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