Muito me foi pedido, por pessoas próximas a mim, que escrevesse sobre Lain. Contudo, persistentemente resistia pelo fato do anime conter algumas falhas. Portanto, tomei a liberdade de escrever atentando-me apenas aos símbolos apresentados e, a ideia central, do que a história do anime em si.
Serial Experiments Lain, usualmente abreviado para SEL, ou Lain, trata-se de um anime cyberpunk de 1998 produzido por Ryutaro Nakamura (direção), Chiaki Konaka (roteiro), Yasuyuki Ueda (produtor) e Yoshitoshi Abe (design).
O show arremete à Iwakura Lain, uma garota tímida, ingênua, com uma total falta de interesse em aparatos tecnológicos mas que vive, como toda obra situada em cenários cyberpunks, em uma sociedade submersa nesses tais avanços tecnológicos. A história inicia com o suicídio de uma colega de classe de Lain e o surgimento de supostos emails misteriosos enviados por esta garota, após sua morte, à diversos outros alunos de sua classe.
Ao chegar em casa, e embebecida pela curiosidade, após ouvir o boato dos supostos emails, Lain decide averiguar em seu antes ignorado Navi (device tecnológico de última geração) se também era uma dos destinatários.
Após ler o intrigante conteúdo do email, Lain tem-se por ainda mais confusa. Chisa, a garota que se suicidara, dizia que não morreu. Antes, havia abandonado seu corpo físico e partira para um estranho local, denominado Wired, onde havia encontrado deus.
Segue-se, a partir de então, uma série de experimentos, ocasionados por estranhos acontecimentos, que farão Lain questionar sua verdadeira existência, o que é ou não real, bem como a existência concreta da barreira que separa Wired e realidade.
SEL é um dos típicos animes que ganharam status pela fama de confusão mental causada por seu enredo, tais quais o são Neon Genesis Evangelion, Mawaru Peguindrum, Paranoia Agent. No entanto, SEL possui uma particularidade em relação às obras citadas.
Ao contrário da maioria destas obras "mindfucks", que começam relativamente "normais" e progridem rumo à estranheza, Serial Experiments já começa mergulhando nas bizarrices.
Os primeiros cinco episódios servem para construção de mundo do anime, apresentando as personagens principais, como Lain, seus familiares e amigas próximas, bem como figuras emblemáticas, tais quais são o grupo dos Knights.
Sem muitos spoilers, tenho por objetivo discorrer acerca dos principais símbolos apresentados neste show.
O show possui fama de profético quanto à influência da tecnologia e da internet na vida cotidiana. Misturando algumas hipóteses científicas e teorias filosóficas, o enredo levanta as possíveis relações que a internet teria com o futuro da humanidade.
Abordagens como a do conhecido Bug do Milênio estão frequentemente ali inseridas.
O existencialismo e o gnosticismo são figuras bastante presentes na simbologia do show.
O fato de serem apresentadas 3 Lains ao longo do show apontam tais questionamentos. Qual a verdadeira Lain? Qual a primeira a surgir? Qual se sobrepõe? A Lain que existe no mundo real, a Lain existente na Wired mas que é capaz de espalhar boatos afetando pessoas no mundo real, a Evil Lain que é vista somente por pessoas sob efeito alucinógeno no Cyberia?

De acordo com Kierkegaard, principal expoente dentre as teorias existencialistas, a essência é posterior a existência. Para ele, o indivíduo deve abster-se das abstrações e ater-se à praticidade do que é palpável. Além de investigar a subjetividade humana a partir da angústia do indivíduo diante da vida.
Esta subjetividade dando margem à diferentes ideias culmina em diferentes realidades experienciadas pelo indivíduo. Como é o caso do questionamento sobre qual Lain é a verdadeira, visto que cada uma experimenta sua própria realidade, a partir de suas próprias escolhas.
No show, dissociação entre o real e o virtual é dado por respostas. No entanto, esta mesma dissociação ganha formas quando real e virtual coexistem entre si.
Um exemplo desta coexistência são as sombras coloridas apresentadas ao longo dos episódios. Elas representam a existência da wired no mundo real, sendo observada apenas pelas sombras.

Ainda sobre a experiência observada no anime, Yasuyuki Ueda comentou, em entrevista para a Otakon, quando perguntado sobre as fumaças que saiam pelos dedos de Lain:
"Se você quer saber sobre o significado, a fumaça saindo é uma realidade observada por ela, mas para todos ao seu redor elas não podem ser vistas, não é parte da realidade deles. Então nesse sentido, todo mundo tem a sua própria realidade que outras pessoas não podem ver, é meio que uma brincadeira entre realidades para cada indivíduo".

Ao mesmo passo esta dissociação entre real e virtual, representado na figura da Wired, trás à tona esta visão gnóstica. Sendo esta mesma Wired a representação o Mundo Pleromal de SEL.
A Problemática da dissociação da realidade
Na atualidade, existe uma grande confusão causada em virtude da separação dos mundos real e virtual. Não dando-se por satisfeito, os avanços tecnológicos intensificaram a fuga da realidade em busca de experiências emuladas no ambiente virtual.
É comum encontrar pessoas que vivem vidas diferentes, simulando diferentes tipos de personalidades para se adequar às comunidade que frequenta.
Em muitos casos, são pessoas populares pelas conquistas adquiridas como players de jogos, influenciadores de mídias digitais, mas que jamais experimentaram do mundo real.
São pessoas que conhecem como a palma da própria mão o mapa de uma fase em algum game mas desconhecem a cidade em que vive. Pessoas conhecidas por muitos no ambiente online, mas que não conseguem manter uma conversa com alguém durante uma refeição.

Para Aristóteles, existe apenas um mundo: o real. O mundo vivenciado por todos. Para o filósofo, o ato de contemplar os fundamentos do mundo real é o que leva o indivíduo à prática de filosofar. Por isto, somente a experiência vivenciada pela realidade é capaz de compreender os questionamentos condicionados à existência humana.
As experiências vivenciadas pelos indivíduos não são dissociadas da realidade, tampouco condicionadas à experiências relativizadas pelo subjetivismo pessoal. Não se pode separar o real do inteligível, tampouco ignorá-lo, como na filosofia existencialista.
Todo leitor, ao ler um livro, tem totais capacidades de compreender qualquer acontecimento da história, bem como as motivações de cada personagem, mesmo sem ter vivenciado situação semelhantes. Estas experiências cognitivas sensíveis surgem da interação com os fundamentos inteligíveis presentes no mundo real.
Portanto, Serial Experiments Lain surge como um clássico de vanguarda mas que teve sua relevância tão somente pelo período em que foi criado. A crise gerada pela grande depressão dos milleniuns, as incertezas do novo século, a mítica da nova tecnologia, foram fatores que ajudaram a popularizar Serial Experiments, muito antes de clássicos como Matrix. Como um grande zeitgeist, Lain tenta se manter vivo pelo grande esforço dos seus fãs.
No entanto, diferente de obras como Ghost In The Shell, SEL não teve a intenção de ser o que se tornou. O roteiro não foi premeditado, as falhas existentes comprovam isto. Contudo, o show não tem, e provavelmente nunca teve, a intenção de apontar uma grande história. Serial Experiments, na verdade, foi o verdadeiro experimento. Os próprios Abe e Ueda já disseram que não tiveram grandes intenções com o anime, antes queriam observar as reações de cada telespectador.
Odiado por uns, amado por outros. O fato é que Serial Experiments Lain é o verdadeiro experimento em forma de anime, uma figura do expressionismo pós moderno.
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