
a review by Matheusmiranda96

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Ergo Proxy, o anime de ficção científica que fora aclamado ao posto de clássico de vanguarda, acontece em um futuro distópico onde a Terra foi atingida por uma catástrofe climática que culminou ao planeta condições inviáveis para a existência da vida de modo que a espécie humana viu-se obrigada a viver em pequenas redomas, cada qual funcionando como uma cidade independente.
Estes pequenos domos tinham por responsabilidade simular a sociedade humana em condições similares à anterior. Contando com o auxílio das máquinas, cada cidadão do domo possui um AutoReiv, uma espécie de droide autômato, para realizar, desde atividades mais básicas, como afaveres domésticos, a exercer funções essenciais, como as de locomoção e segurança pública.
A história acompanha Re-l Mayer, uma agente policial responsável por investigar uma série de assassinatos supostamente relacionados ao surgimento de um novo vírus que atingia os autômatos (cogito vírus). Ao contrarir o vírus, estes droides antropomórficos desenvolviam uma espécie de consciência individual que resultava em rebeliões contra seus senhores.
À medida que avança na investigação, Re-l deparou-se com a presença de uma criatura humanóide, de aparência bizarra, horrenda, temerária, e que possuía habilidades sobrehumanas, a qual ficaria conhecida como Proxy. O enredo nos leva à jornada de Re-l, que ficara fascinada por estas criaturas, para descobrir o que são estes Proxys e sua relação com a devastação planetária.
Esta resenha visa comentar os principais símbolos contidos no enredo. Por isto, haverão pequenos spoilers. Tenha-se por avisado.
O cerne de Ergo Proxy gira em torno de uma reflexão sobre a criação de vida sintética para a sobrevivência da espécie e a individualidade que cada ser possui, bem como a sua razão de existência.
O decorrer do episódios nos revela o grande plano da raça humana, denominado Projeto Proxy, para a restauração do planeta após o cataclismo que consistia na criação de 300 criaturas biologicamente modificadas, os Proxys, para se adequarem às altas taxas de metano presentes na Terra. Estas criaturas tinham por responsabilidade criar uma nova raça humana que viveria contida em cidades abobadadas para restaurarem o Terra enquanto os humanos originais refugiavam-se em outro planeta.
Esta nova raça de humanos sintéticos criada a partir das células dos Proxys possuía uma série de limitações, como a incapacidade reprodução, por isto contavam com o auxílio dos Autoreivs, ciborgues autômatos de cunho pessoal.
O plano consistia no armazenamento de informações detalhadas acerca do mapeamento genético nestes Proxys para a restauração das condições biológicas aceitáveis. Uma vez que esta restauração acontecesse iniciava-se a segunda fase, chamada de Pulsar do Despertar. Uma vez que as taxas de metano diminuíssem, os raios solares pudessem penetrar a atmosfera terrestre e a vida pudesse prosperar, os humanos originais retornariam ao planeta e reinariam sobre a nova raça. Quanto aos Proxys, deixariam de existir por não terem mecanismos de proteção contra os raios solares.
Com isto em mente o enredo segue às tentativas de reflexão acerca da razão de existir.
Raison d'entre, ou razão de viver, remete à ideia de que todo ser humano nasce com um objetivo pré-estabelecido, com um plano ou um ou uma razão que guiarão suas motivações para cada passo dado em sua vida.
A filosofia existencialista surge em detrimento deste pensamento. O relativismo e a instigação de um mundo dualista implica nos questionamentos desta "raison".
René Descartes considerava o pensamento como a única verdade absoluta e este pensamento só era alcançado mediante o questionamento de todas as coisas que existem. "Por que estamos aqui?", "qual o sentido de existir?", indagações como estas permeiam a filosofia existencialista.
Inspirado nos questionamentos do filósofo francês, Kierkgaard, o principal expoente do pensamento existencialista, enxergava na humanidade uma busca desenfreada por um propósito de ser. Esta busca incessante por um sentido na vida sempre resultaria em questões sem respostas claras, o que culminava em uma vida angustiante.
Ergo Proxy nos bombardeia com tais questionamentos. Enquanto a nova raça humana, geneticamente perfeita, caminhava rumo aos mesmos erros dos humanos originais, os Proxys, seres imperfeitos, caminhavam para o seu destino pré-estabelecido.
Nascer sabendo que seu único sentido era dar a vida por uma raça decadente e ainda trabalhar arduamente para criar condições propícias para esta raça era o raison d'entre de cada Proxy. Questionar qual o sentido disto causou o declínio destas criaturas.
Muitos dos Proxys consideravam absurdo este plano original e se voltaram contra os próprios humanos. Outros Proxys decidiram entregar-se à angústia de sua existência e observaram passivamente a nova decadência da raça humana até o fim de seus Domos. Ao passo que outros sucumbiram à loucura por não suportarem viver com tamanha aflição.
O mesmo pode ser observado com os AutoReivs. O Cogito Virus, inspirado no "cogito ergo sum" da filosofia cartesiana, ponderava o surgimento do "eu". A partir do momento em que os droids contraiam o virus do "cogito", e conquistavam a própria capacidade de pensamento, inevitavelmente se voltavam contra esta ideia subserviente de possuir uma razão de viver.
Se pensa, logo existe. Se existe, logo duvida. Esta busca angustiante pela dúvida quebra os paradigmas da existência. Este é o mal do "cogito virus".
Mas se não existe uma razão clara para se viver então por que existir? Se não há sentido algum, por que haveria vida?
Diante desta busca absurda por um sentido inexistente, a filosofia existencialista aponta um possível caminho: o suicídio. Kierkegaard rejeita esta ideia como sendo a mais viável e orienta a viver nesta constante angústia até se encontrar um novo sentido de viver.
O final do anime reflete bem este pensamento. Quando Proxy One, o primeiro a ser criado, descobre o plano dos humanos, este questiona sua razão de viver, cria Ergo Proxy para por um fim à raça humana, ao próprio Proxy One e partir rumo ao suicídio. No entanto, Vincent Law rejeita esta ideia como sendo a única solução e prefere ficar na Terra com Re-L até encontrar um novo motivo para sua existência, uma vez que não tem mais serventia para os humanos.
Mas como sobreviver até encontrar uma nova razão de existir? Como encontrar respostas se ela não existir?
O existencialismo enxerga a Existência sendo anterior a Essência. De modo que o ser humano é quem molda a própria existência, por meio do pensamento, criando seus próprios valores que determinarão o sentido de sua vida. E este é o grande erro de Descartes, Kierkegaard e todos os outros que seguem esta linha filosófica.
Para Aristóteles, Forma é tudo aquilo que faz um ente ser o que ele é. É a forma que diferenfia uma árvore de hma cadeira, ainda que estas tenham a mesma substância física (madeira).
Uma árvore é o que é por possuir seu formato: Raízes, tronco, galhos, folhas, frutos. E o ser humano as reconhece por conhecer sua forma.
Ainda que falte algum destes elementos (como as folhas), qualquer um ainda conseguiria reconhecer aquele ser como sendo uma árvore.
Tudo o que existe é delimitado por sua Forma (Essência) e, por consequência, adquire uma substância (Existência).
A substância não define o que ela é. A madeira não escolhe ser árvore, mesa ou cadeira. Ela precisa de uma forma para decidir isto de forma perfeita e apraz. Assim o é a existência humana.
O Hilemorfismo de Aristóteles é a união essencial da substância com a sua forma.
É justamente porque o ente possui determinada forma (essência) que ele é constituído por elementos que determinam a sua perfeita existência.
A essência é imaterial e por isto ela determina a existência. Um triângulo pode ser pequeno, grande, azul, vermelho, isósceles, escaleno, equilátero. Mas, independente da forma que ele exista, a sua essência é imutável: um polígono com três lados.
É justamente a essência quem assegura a unidade do ser. Ou seja, sua identidade. Matéria impura, bruta, sozinha, é informe. Antes, ela precisa de uma forma para que a torne compreensível.
Se algo existe, tem forma.
Por isto, é necessário que o ser humano abrace a essência para então encontrar a razão da existência.
Se a dúvida molda uma busca angustiante na filosofia existencialista, para Aristóteles a virtude forma é a forma perfeita que guiará o ser humano.
Ergo Proxy, o clássico moderno, levanta estes questionamentos importantes, ainda que aponte as respostas incorretas.
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