IntroduçãoPrimeiramente, para que essa análise se faça valer, é importante constatar que é apenas uma interpretação sobre os fatos, uma possível leitura que se pode tirar da obra. Vamos lá.
Uma breve sinopse: Natsuo Fuji é um garoto nerd colegial que é apaixonado na sua professora, Hina Tachibana. Certo dia ele é convidado para uma social com pessoas que ele não conhece. Como um bom nerd que ele é, ele fica deslocado do pessoal e sai da sala. Ele encontra com Rui Tachibana e ela oferece a proposta de transarem na casa dela. Ele aceita. Depois disso, o pai dele diz que vai se casar de novo. Após chegar na nova casa, Natsuo descobre que as suas novas meia-irmãs são Hina (quem ele gosta) e Rui (a desconhecida que tirou sua virgindade). A história se desenvolve a partir daí.
Eu precisava retomar a sinopse mesmo que seja redundante, pois é nela que conseguimos encontrar alguns elementos fundamentais para a leitura que eu cheguei. Logo de começo, Natsuo já é descrito como um garoto que não é popular com as garotas, isso é muito importante que fique claro aqui. O fato dele não conseguir se enturmar na social, bem como seus amigos, em especial Fumiya Kurimoto, são todos nerds virjões ressentidos. Além disso, mais pra frente na história, Natsuo chega a comentar com Hina sobre como ele não se vestia nada bem e não era nem um pouco maneiro de óculos. É por isso que ele passa a usar lentes de contato e um novo corte de cabelo. Outra coisa que ressalta muito nessa sinopse é o fato de logo no início a obra já ser marcada de alguns fetiches, inicialmente focado principalmente na figura da professora. Também existe uma suspensão de descrença enorme para que se leve a acreditar que uma garota bonita como a Rui ofereceria ao Natsuo um desconhecido, um estranho, um qualquer e que repito, não se dá bem com garotas, a ir em sua casa transar. E por fim, curiosamente essas três pessoas, Natsuo, Hina e Rui, que inicialmente não pareciam ter relação nenhuma, vão morar juntos.
Esse início não parece meio... conveniente demais? Eu sei. É um mangá, não só isso mas um mangá ecchi e harém. Mas eu preciso dar um alerta, existe uma preocupação muito grande da autora em fazer os eventos desencadeados na obra parecerem naturais e orgânicos. Ainda que de uma forma muito questionável, ela se esforça para tentar criar causa e consequência que sejam plausíveis. Essa preocupação da autora que vemos mais pra frente simplesmente não parece corresponder com essa decisão preguiçosa do início. "Ah, mas vai ver era porque ela era mais amadora no início." Bom, eu considero isso bobagem porque ela já tinha serializado um mangá de 16 volumes antes. Então, eu proponho aqui que você que esteja lendo isso pense da seguinte forma: E se tudo que aconteceu, tudo mesmo, tudo desde o primeiro capítulo foi uma criação da mente deturpada de um garoto chamado Natsuo Fuji?
ArgumentosI) Muito bom com as mulheresComo fica claro na introdução, Natsuo não possui nenhuma experiência com mulheres. Ainda assim, ele conseguiu a proeza de fazer a Rui, Hina, Momo e Serizawa se apaixonarem por ele. Fora todas as outras garotas que não se apaixonam, mas ficam encantadas e veem nele um ótimo amigo. Como que ele passou do maior virjão para o maior pegador de todos? Existe um outro detalhe também, ainda bem estranho. Todas as mulheres que gostam do protagonista são reconhecidas e exaltadas por sua beleza. Existem muitos paineis ao longo do mangá onde podemos ver outras garotas se comparando com a Momo, Rui e Hina por exemplo. Elas na obra são vistas como ideal de beleza estético, não só para o Natsuo, mas como para todos a sua volta. Enquanto isso, as garotas que não têm interesse nele, elas ou não possuem o corpo de modelo ou possuem algum traço de personalidade que é considerado negativo. Nesse caso eu vou exemplificar, pois é bizarro.
Miu Ashihara - tem corpo de criança.
Misaki Ogura - usuária de droga, traficante e rosto queimado.
Nene Kuzuoka - dorme com qualquer um.
Kasumi Hazaki - se prostituiu.II) Todos os outros homens não prestamBom, não são exatamente todos. Mas com exceção de Kiriya-sensei, todos os outros homens possuem algo de ruim neles. Aqui é muito sutil e o importante é que alguns deles até são gentis, mas não são o bastante quando comparados com o Natsuo. Eles só funcionam como uma garantia para as personagens femininas e a própria narrativa de que o Natsuo é insubstituível. No sentido literal da coisa. Ao longo de todo o mangá, o Natsuo tá constantemente beijando outras meninas e em dúvida do que realmente sente por cada uma delas. Mas da perspectiva delas, não há dúvida hora alguma. Depois que a Hina se apaixona por ele, não existe mais espaço na vida dela para mais nenhum homem. Ela até tenta em alguns momentos encontrar outra pessoa, mas este homem nunca é o bastante. A Rui por sua vez chega no quase lá com o Alex e o cozinheiro, mas nunca por ela realmente sentir algo por eles. Enquanto que a Rui fica o mangá inteiro com medo do Natsuo trair ela, não existe essa preocupação ou mesmo medo por parte dele, pois o sentimento que ela tem por ele é inabalável. A Serizawa é outra que sempre soube que não teria chances com ele, mas continua avidamente tentando roubá-lo. Tanto que Rui e Serizawa terminam o mangá sozinhas (spoiler). Elas realmente escolheram a solidão que entrar num relacionamento com outro homem. A única que conseguiu seguir em frente foi a Momo, que começou a namorar o kouhai depois de ter tomado um fora. Porém é importante notar que o sentimento que ela tinha pelo Natsuo era muito superficial, ela só se apaixonou porque ele agiu literalmente como um ser humano normal. E mesmo quando ela começa a namorar, é na tentativa de encontrar alguém como o Natsuo. Não existe homem que se compare ao Natsuo na obra. O Natsuo pode até ter suas falhas, mas elas por sua vez não são grandes quanto a dos outros personagens. Alguns exemplos:
Shuu Hagiwara - traiu a família, enganou a Hina.
Masaki Kobayashi - caricatura gay, ex yakuza.
Alex J. Matsukawa - muito imaturo.
Kengo Tanabe - stalker, manipulador, assassino, psicopata.
Jou Mikimoto - péssimo pai e péssimo marido.
Shigemitsu Togen - desleixado, sem higiene e com maus hábitos de saúde.
Fumiya Kurimoto - amigo virgem que não pega ninguémComo dito anteriormente, o Kiriya-sensei é um exemplo a parte. Pois ele é sempre representado sem mácula alguma. Ele inclusive é mais "perfeito" que o próprio Natsuo. Porém é importante ressaltar que é o autor You Hasukawa (Kiriya-sensei) que faz o Natsuo se apaixonar pela literatura e querer virar um escritor. Durante o arco da escola, é o Kiriya-sensei quem ensina as primeiras lições para o Natsuo do que deve ou não deve se fazer numa história. O Natsuo escreve histórias toda semana para que ele leia e avalie. Ele literalmente apresenta o Natsuo ao seu editor. Simbolicamente representado que é o Kiriya-sensei quem dá o empurrãozinho para que ele vire de fato um autor. Ou seja, não sei se estou me fazendo claro, mas a verdade é que o Kiriya-sensei é um ideal, um objetivo, alguém a ser alcançado. O Natsuo compartilha várias e várias semelhanças com o Kiriya-sensei. A mais óbvia é a profissão, mas mais do que isso, ambos se envolveram em relações de professor-aluno. Tá dando pra entender? O Kiriya-sensei é tudo que o Natsuo quer ser, ele não tem e nem poderia ter algum defeito, pois isso significaria que o Natsuo também o precisaria ter. E ele como um narcisista completo, não pode permitir que isso aconteça.

III) Natsuo é um grande contador de mentirasEsse talvez é o argumento mais importante. Talvez a característica mais marcante sobre o personagem Natsuo Fuji é o fato dele ser apaixonado em histórias. É estabelecido desde o início que ele quer virar um autor de romances para que consiga tocar os outros assim como foi tocado. A questão aqui é que todas as histórias são mentira. Digo, em algum grau elas sempre são uma mentira. Um escritor em ultima instância é um contador de mentiras. Qualquer ficção ainda que muito relacionável com nossas vidas, todas elas são falsas. Não são eventos reais. Tudo é inventado pela cabeça do escritor.
O caso do Natsuo é ainda mais curioso, porque a sua primeira história a ganhar prêmio foi uma em que ele fez self-insert. É como se ele só tivesse sido reconhecido após se projetar na obra em que estava escrevendo. E não para por aí, depois desse grande momento, ele fica um período sem escrever histórias boas e só volta a fazer sucesso quando, adivinha? Sim, ele escreve outra obra fazendo self-insert. A verdade é que todas as obras de sucesso dele são oriundas da projeção de si mesmo no centro de uma história fictícia que ele mesmo criou. Porém para complicar as coisas, quando ele tem um bloqueio criativo, qual profissão ele escolhe para seguir em diante? De todas as profissões existentes, ele escolheu logo a de ator. Em que você finge ser alguém que não é. Finge ser um personagem, que volto a dizer, é ficcional e portanto uma mentira. Esse momento na obra é até mais escrachado e fácil de visualizar, pois em determinado momento ele é cobrado sobre a atuação ruim. E a forma como ele encontrou para conseguir resolver esse impasse foi "começar a pensar como ele", ou seja, ele novamente se projetou no personagem para conseguir personificá-lo.

IV) O Mangá de Domestic na Kanojo NÃO FAZ O MENOR SENTIDOEu sei que se trata de uma obra do gênero ecchi, então nada mais comum que ter muito peito na tela, muita cena provocante. O problema é que Domekano tem isso... até demais! Apesar da narrativa ser sobre jovens amadurecendo e lidando com problemas da vida real, o mangá é recheado de cenas cômicas envolvendo cenas ecchi. Essa quebra de tom não faria sentido para uma autora que leva o seu drama tão a sério. O que há de tão inédito em Domestic na Kanojo é que o seu ecchi não é algo simplesmente para aliviar a tensão e não deixar que caia para algo pedante. O nudismo aqui é tão reutilizado que ele se torna um elemento ordinário e comum. É algo tão normalizado nas páginas, que os personagens não reagem mais daquela forma clássica de sentir vergonha e querer fechar o olho. Não. O ecchi é tão superusado que as personagens perdem o pudor completamente e se esvaziam de qualquer regra social sobre isso. São cenas e mais cenas de garotas se despindo, com o Natsuo presente ou não. E o que fica parecendo é que essa decisão se torna muito forçada. Muitas vezes existem situações onde não faz sentido o dispositivo do ecchi ser acionado, mas ele é usado mesmo assim.
Como já dito na introdução, a autora Kei Sasuga se importa com a coesão em sua narrativa. Ainda assim, quando se trata de ecchi, não importa como, ela sempre arranja um jeito de inserir. Mesmo que para isso ela quebre as regras do universo que ela mesmo estabeleceu. Eu vou mostrar alguns exemplos abaixo, mas a indagação que eu quero fazer é a seguinte: faz algum sentido a autora se preocupar com o realismo e os detalhes para com o seu drama, mas propositalmente pesar a mão no ecchi em diversos momentos?
Nota: o Moderador do Anilist retirou as imagens ilustrativas dos exemplos abaixo, então deixarei o capítulo e a página de referência para quem quiser ver na íntegra.
a) Rui andando pelada pela casa e Natsuo acaba encostando em seu peito (sem querer).
volume 11 - capítulo 104 - página 13.
a) Momo ficando pelada na sala de aula porque sim.
volume 12 - capítulo 114 - página 4.
b) Mao caindo com a bunda na cabeça do Natsuo.
volume 17 - capítulo 160 - página 14.
c) Serizawa semi nua se escondendo na cama debaixo das cobertas enquanto Natsuo e Rui conversam. (Como se ninguém fosse ver ela ali).
volume 21 - capítulo 195 - página 8.
d) Hina dormindo e seu roupão magicamente abre... mas só na parte dos peitos, o resto fica normal.
volume 22 - capítulo 205 - página 6.
E tem muitas outras cenas, se você leu Domestic na Kanojo você sabe que a obra é recheada de cenas ecchi que não tem sentido nenhum. Para uma obra que preza pela seriedade, drama e subjetivismo, essas cenas de ecchi são de muito mau gosto.
Pulando agora para uma cena específica, dessa vez sem ecchi mas igualmente sem sentido. Temos a cena da facada. Essa cena da facada eu tive que ler, reler, ler de novo e ainda não entendi como ela aconteceu. Ela simplesmente não faz sentido.
e) Hina é perseguida pelo stalker na rua
volume 20 - capítulo 184 - página 17 e 18.


O corpo do Natsuo está inclinado para a esquerda, significando que ele veio da direita de Hina e do stalker. A partir dessa informação, conseguimos concluir algumas coisas:
1) Natsuo não pode ter vindo da frente da Hina, pois ele correu para a esquerda assim como ela. (E ela teria visto ele de longe)
2) Natsuo não veio de dentro de alguma loja, pois vimos ele correr na calçada.
3) Natsuo não pode ter vindo do outro lado da rua, pois ele pulou da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita.
4) Conclui-se que ele só pode ter vindo de trás do stalker.
Porém se isso for verdade, temos alguns problemas. O primeiro: por que ele simplesmente não pulou no cara ou tentou fazer algo pelas costas dele? Segundo: como exatamente o Natsuo alcançou a Hina antes do stalker, se o stalker tava a poucos metros de distância e o Natsuo estava sabe-se lá onde?
Considerações FinaisAgora é a parte onde tudo isso vai se encaixar. Como exatamente um virjão virou o maior comedor? Por que todos os homens tirando o Natsuo não prestam? Por que tem tanta cena sem sentido? Como o Natsuo salvou a Hina da facada?
A resposta: nada disso aconteceu.
Natsuo Fuji é um adolescente reprimido e frustrado. Ele não conheceu a Rui naquele dia. A festa não estava legal e ele decidiu fantasiar sobre como seria bom se uma garota caísse do céu e abrisse as pernas para ele. Assim como todo adolescente, ele tem fetiches. E a personificação desse fetiche é a Hina. Como se espera de um fetiche, o sentimento que ele tem pela Hina é irracional, ele não conhecia absolutamente nada dela em sua época de escola, mas ainda assim era apaixonado por ela. Isso tudo vindo de um cara denso, que lê livros e está constantemente tentando entender as emoções humanas. A única explicação para ele gostar da Hina é o próprio fetiche que ele alimentou durante os anos que ele foi um estudante colegial. Isso porque ele nunca foi popular com as garotas, sempre foi o nerd, existe uma espécie de refúgio na figura da professora enquanto autoridade imparcial da sala.
Ele é completamente esquizofrênico. Por isso projeta seus fetiches não só na Hina como na Momo também. Mas se na Hina ele sente segurança, conforto e carinho. Quanto a Momo ele traz apenas o que há de pior. A Momo é a personificação da garota popular de uma escola, mas ela é uma pessoa visivelmente desequilibrada, burra, com má reputação, que sai com qualquer um. Quando o Natsuo começa a conversar com ela, ele percebe que ela é frágil, dependente de aprovação masculina, carente e depressiva. E vale dizer que todas esses problemas que aconteceram com ela decorreram de relações com OUTROS HOMENS. Daí que então cabe ao Natsuo a posição de salvador, "aquele que irá salvá-la". Percebe como isso tudo é doentio e narcisista? E é claro que pela sua frustração pelas experiências que ele nunca teve, ele se vinga descontando tudo na Momo. Na cena que pra mim é a de mais repugnante na obra: o Natsuo rejeitando a Momo nua e deixando ela sozinha no escuro enquanto corre para ver Rui.
As outras personagens do mangá, além de não possuírem cenas ecchi próprias, elas são desenhadas da forma menos sexy possível. É quase como se as únicas mulheres que pudessem ser bonitas são aquelas com quem ele se relaciona ou tem interesse. E o motivo de não terem homens decentes na obra não é porque a autora é misândrica ou não sabe fazer personagens masculinos é porque o Natsuo não pode se sentir ameaçado por outros rivais. É por isso que todas as mulheres que gostam dele, não gostam de mais ninguém. O Natsuo precisa ser imbatível e suas heroínas precisam ser as mais belas do elenco.
O mangá é abarrotado de ecchi porque ele se passa na cabeça de um adolescente do ensino médio. A sensualidade é banalizada porque um adolescente nessa idade SÓ PENSA EM PUTARIA. Não é como se as cenas tenham de fato acontecido, mas o Natsuo em plena a sua curiosidade pelo sexo e pelo corpo feminino, acaba criando as cenas mais absurdas para que essa sua vontade se realize.
E a cena da facada é facilmente justificada por um Deus Ex Machina. No caso o Natsuo sendo o próprio Deus. Como tudo se passa na cabeça dele, até mesmo coisas que saiam do controle podem ser resolvidas com um simples pensamento. Dessa forma, mesmo que não houvesse como ele salvar a Hina da facada, ele simplesmente teletransportou e salvou o dia. Como tudo precisa ser sobre ele, cabe ao Natsuo se tornar um herói e salvar a Hina.
Mas afinal, como ele pode ter criado tudo isso na mente dele? Fácil, ele é um grande contador de mentiras. Ele é tão bom nisso que consegue fantasiar sobre uma vida que ele nunca teve. Para satisfazer seus próprios caprichos, ele criou uma história onde ele é o herói, onde todos os conflitos o envolve, todas as garotas ou são apaixonadas ou veem nele o ideal de homem. Ele aceitou para si esse papel de protagonista da peça. E o motivo de por que dele ser escritor que faz self-insert nas obras é porque isso é na verdade um processo metalinguístico. Na verdade, é o self-insert do self-insert. A última página da obra é literalmente ele terminando de escrever seu magnum opum, "Domestic Girlfriend". O que a autora tá querendo dizer é que a maior história que ele contou é a própria história do mangá.

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