
a review by Matheusmiranda96

a review by Matheusmiranda96
Antiutopia, cacotopia, distopia, sinônimos oriundos do grego antigo 'dystopos' (lugar difícil/ruim) que descrevem e/ou representam um lugar, época ou estado mentalmente concebido em que se vive diante do completo caos, seja social, ético, político, econômico.
Muito utilizada no âmbito literário, sua importância se dá pelo caráter autocrítico que possuem. Distopias despertam o ser humano para uma profunda reflexão sobre o modo pelo qual a sociedade caminha.
Com isto em mente, o clássico japonês Akira (1988) nos conta sobre um Japão que, após ser destruído por uma explosão, viu sua reconstrução acontecer diante de um cenário distópico cyberpunk.
No ano de 1988, o Japão é vítima de um desastre causado por uma misteriosa explosão que culminaria na Terceira Guerra Mundial. O filme nos leva a acompanhar o remanescente da sociedade nipônica, datada no ano de 2019, sob a égide de uma sociedade capitalista, democrática e brutalmente tecnológica, que reside na megalópole erguida a partir dos escombros da explosão: a Neo Tokyo.
Neo Tokyo é esta cidade que alcançara o suprassumo do avanço econômico e tecnológico. Porém, estava mergulhada em caos social. Disputa de gangues motoqueiras, atentados terroristas como forma de protestos contra as ações governamentais, seitas religiosas disseminando suas ideias, instituições políticas corruptas. Tudo isto culminara em uma civilização que colapsava à passos largos.
Em meio a este cenário a história nos remete ao personagem principal, Tetsuo, e seu melhor amigo, Kaneda. Ambos pertencentes a uma gangue de motoqueiros. Tetsuo acabaria por ser levado pelo exército para ser cobaia de experimentos científicos.
Estes experimentos secretos eram realizados em crianças espers para o aperfeiçoamento de seus poderes psíquicos visando encontrar o Padrão Akira, um fator de desenvolvimento tecnológico. Fator este que seria encontrado no protagonista Tetsuo.
O vigente texto visa comentar as principais ideias abordadas na animação. Por isto, abestenho-me de grandes spoilers ou cenas detalhadas.
Dentre tantas teorias pós-modernas encontradas na história, Akira, de forma bastante enfática, exemplifica bem o aceleracionismo de Deleuze.
Aceleracionismo é a teoria filosófica em os entes governamentais devem intensificar as ações e preceitos capitalistas, bem como determinados processos sócio-tecnológicos, de modo que, ao terem estes fatores ampliados, a deterioração da sociedade seria acelerada. À medida que estas mudanças sócio-tecnologicas são intensificadas pelo avanço do capitalismo, a sociedade experimenta um processo de degradação chamado desterritorialização.
De acordo com esta teoria de Deleuze-Guattari, desterritorialização é o processo pelo qual as relações sociais chamadas de 'território' sofrem algum tipo de alteração, ou até a própria destruição, a partir de algum fator externo.
Delleuze e Guattari compreendem o indivíduo social como um ser que sofre alterações a partir de conceitos da psique de Freud, como a líbido e a perversidade polimorfa. De acordo com esta ideia, o indivíduo possui uma forte tendência de sucumbir a estes fortes desejos ficando, assim, sujeitos a sofrerem alterações no que eles chamam de "psique materialista".
Deleuze compreende o capitalismo como o fator fundamental para acelerar este processo de alteração, a desterritorialização. Ele identifica o capitalismo como este movimento que eleva o indivíduo até os extremos de seus desejos imorais influenciando, assim, no ambiente social, tomando ações que alterem, segreguem e destruam a sociedade.
Para a teoria, é necessário "elevar aos extremos" uma vez que, atingido o ápice da desterritorialização em massa, com base nas tensões da psique, os indivíduos podem encontrar um novo processo de reterritorialização. Ou seja, uma nova relação social ordenada. Este processo é denomidado Anti Édipo.
Em Akira isto é bem observado, uma vez que as tensões sociais estão em seu ápice. Protestos extremistas chegando ao ponto de cometerem atentados terroristas constantes, disputas entre gangues que desejam manter seu poder de dominação territorial, conflitos armados entre uma população anti reformista e a força policial. Em meio a este cenário caótico e de degradação é que uma nova relação social surgiria.
Esta nova ordem surge em detrimento do avanço tecnológico.
A história nos leva a acompanhar uma nova raça de seres humanos com poderes psíquicos que alcançaram um novo estágio na escala evolutiva.
Crianças espers são tomadas por cobaias de experimentos de um governo que busca alcançar o ápice da evolução tecnológica.
Esta representação das ideias de Deleuze, como o conceito de corpos sem órgãos, é o que direciona o processo de evolução tecnológica para além do horizonte constritivo do capital como a nova forma de reterritorialização.
Akira foi uma criança esper que teve seus padrões de fator tecnológicos elevados para além do que poderia suportar. O garoto perde o controle de seus poderes e ocasiona a explosão que destrói o Japão no início da história.
Enquanto que Tetsuo surge, após este processo de destruição do território, como o novo ser capaz de ter seus padrões evolutivos alterados. De modo que o jovem viria a deixar de ser um mero humano e se tornar uma singularidade tecnológica transhumanista.
O show consegue representar de forma bastante fidedigna as ideias do aceleracionismo uma vez que o processo evolutivo é levado até o fim de suas instâncias.
A história termina com um Tetsuo se tornando a singularidade tecnológica, ou seja, um padrão padrão evolutivo desenfreado, que conseguiria reconstruir o universo, como uma espécie de reterritorialização das relações sociais.
A ilustre frase final "Eu sou Tetsuo" remete a figura deste novo ser que surge como um ponto único, singular. Como o máximo, o ápice da escala evolutiva.
A Obsolescência Programada do Aceleracionismo
Obsolescência programada é a decisão proposital por parte dos produtores de fabricar e vender produtos de consumo de modo que se tornem obsoletos forçando, assim, que o consumidor continue a comprar as novas gerações de determinado produto.
De igual modo, as muitas teorias filosóficas pós-modernas se baseiam na hipótese da obsolescência programada do ser humano. Ou seja, na ideia de que os avanços sócio-tecnológicos culminarão em uma necessária degradação moral, em virtude das paixões do indivíduo, para se obter uma nova ordem social.
Em contrapartida, o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, desenvolve sua ideia no que ele chamava de Logoterapia: uma abordagem que visa buscar um sentido por trás de todas as coisas.
Sua abordagem consiste em reflexões que ele teve ao ser vítima dos campos de concentrações nazistas.
Mesmo vivendo em meio ao caos e desespero que um campo de concentração proporcionava, Frankl imaginava que existisse a possibilidade de uma pessoa encontrar um sentido face aquele sofrimento.
Logo no início de seu cativeiro, enquanto tivera a oportunidade de fugir dos nazistas, Frankl se lembrava dos ensinamentos que recebeu sobre 'honrar pai e mãe'. Isto dava-lhe sentido à vida, uma vez que ele não sucumbia ao desespero. Estes ensinamentos foram uma força motriz para que ele pudesse cuidar de sua família e pessoas ali próximas.
Ao evitar cair em desespero ele evitava os diversos vícios da condição humana.
Esta ideia natural de ceder às paixões condicionadas pela psique humana encontrada em teorias pós-modernas não poderia estar mais errada.
O ser humano é dotado pela razão e é justamente a existência deste "logos" que o capacita encontrar um sentido nas virtudes e não sucumbir aos vícios de uma vida degradada.
Akira consegue abordar de forma perfeita temas tão complexos. Não à toa se tornou este símbolo.
Seja pelo enredo ou relevância história, Akira é indiscutivelmente uma obra-prima a ser contemplada.
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