
a review by Matheusmiranda96

a review by Matheusmiranda96
O ser humano nasceu para fazer planos. Desde pequeno, quando começam os primeiros momentos em que descobrimos o mundo, quando surgem as primeiras profissões idealizadas, à idade adulta, quando planejamos famílias, casamentos, e tudo o mais.
De fato! O ser humano tem este grande costume fazer planos. Planejamos nossas férias e as viagens que desejamos, planejamos a faculdade que queremos, planejamos nossos encontros com amigos. Planejamos, até mesmo, o dia de amanhã quando deitamos para dormir. Há quem planeje questões ainda mais sérias, como algumas gestantes que planejam o dia de seus partos, local, horário, dentre outras condições. E é exatamente por possuir esta capacidade de criar planos detalhadamente que a sociedade evoluiu para como a conhecemos hoje.
Mas, e quando os planos fracassam?
Sakura Quest nos conta a história de Koharu Yoshino, uma jovem moça, recém formada em sua faculdade, que saiu de sua interiorana cidade natal para tentar a sorte na imensa Tóquio, mas, viu tudo ser em vão quando sequer conseguia ingressar no mercado de trabalho.
Após uma sequência de constantes rejeições, Yoshino, em uma medida quase desesperada, evitando o iminente retorno à casa de seus pais, aceita um trabalho temporário na longínqua Manoyama.
Quase como uma mirabolante obra do acaso, Yoshino descobre que, não apenas Manoyama era uma cidadezinha, longe de tudo o que aparentaria ser minimamente evoluído, como este trabalho temporário não seria tão rápido assim, visto que nossa protagonista deveria residir por um ano para trabalhar no departamento de turismo.
Graça a um erro da agência de empregos, Yoshino seria, então, coroada Rainha do Reino Chupacabra, uma designação dada ao Departamento de Turismo de Manoyama e trabalharia para revitalizar a cidade que beirava ao esquecimento, muito por causa do envelhecimento populacional da região.
A história segue, então, os passos dados pela protagonista na pequena cidade agora que a única coisa que lhe restava era estar ali.
Como seres planejadores, a humanidade preza por ter o controle de tudo. Mas, de forma bastante enfática e, as vezes, um tanto cruel, perdemos o controle de nossas próprias vidas.
Sakura Quest retrata a história de Yoshino e outras quatro moças que se encontravam nesta situação. Jovens mulheres cheias de sonhos e ambições mas que viviam em meio à frustração por experimentarem o fracasso de tudo aquilo que desejavam.
Como já mencionado, Yoshino, que crescera em uma cidade do interior, rejeitara tudo aquilo que aquele modo de vida representava e ansiava pelo cotidiano agitado que um morador da cidade grande possui, trabalhando em grandes organizações, dentro de seus importantes escritórios.
No entanto, a dura realidade que enfrentara era a da rejeição. Primeiro a rejeição das grandes organizações, visto que, como ela, milhares de outros jovens recém formados também almejavam uma oportunidade no mundo corporativo.
Se em sua pequena cidade natal ela se destacava, em uma megalópole seria apenas mais uma no meio de uma imensa multidão de outros jovens disputando escassas e seletas vagas de emprego. Mas, o que resta quando seu único e maior plano de vida falha?
Paradoxalmente, a história nos apresenta Kouzuki Sanae. Nascida e criada em Tóquio, Sanae representava o oposto de Yoshino, uma mulher já estabelecida profissionalmente mas que experimentava por momentos de estagnação e insatisfação com o modelo de vida que sempre teve. Sanae deixa a cidade grande e parte para Manoyama fugindo das dificuldades que a vida adulta proporciona.
Dentre as três garotas restantes do elenco principal, Midorikawa Maki também merece algum destaque. Crescida em Manoyama, Maki logo desenvolveu interesse por atuação e sonhava com a competitiva carreira do show business. Contudo, não somente fracassando, a jovem viu sua aprendiz ocupar seu lugar e despontar rumo ao estrelato.
Embora possua um tom bastante humorado, o show nos apresenta estas constantes incertezas que são experimentadas na transição da juventude para a vida adulta.
Todos os anos muitos são os jovens que enfrentam isto. A sonhada vida adulta nem sempre é tão glamourosa quanto antes aparentava ser.
Este período de transição representa um momento de bastantes aflições. A sonhada liberdade da "vida adulta" chega travestida de incertezas quando, pela primeira vez, o jovem experimenta as frustrações, obrigações e responsabilidades que antes não possuira.
Da sonhada independência ao amargurante desemprego, da estabilidade profissional ao marasmo social. A sufocante maioridade costuma causar este cáustico choque de realidade.
O que fazer quando todos os planos fracassam? O que nos resta quando descobrimos que tudo aquilo pelo qual planejamos e trabalhamos, dedicando tempo, sangue, esforço e suor na verdade não são aquilo que imaginávamos? O que nos resta quando perdemos o controle de nossas vidas?
O necessário Ponto de Inflexão
No campo dos cálculos diferenciais, ponto de inflexão representa o instante exato em que uma função muda radicalmente. Troca-se o sinal, muda-se a curvatura. O que era negativo torna-se positivo, e vice e versa.
O mesmo é aplicável a nós. Em um mundo repleto de incertezas, inevitavelmente encontraremos o fracasso. Planos são apenas isso, planos, previsões. Eles não representam a realidade, tão somente o desejo de algo idealizado.
A vida não para, o tempo não retrocede, não importa o quanto desejemos por isto. Não existem botões de restart. Quando os planos falham, quando fracassamos, quando perdemos de vista tudo aquilo porque ansiávamos, o que nos resta é encontrar nosso ponto de inflexão. Trocam-se os sinais, mudam-se as curvaturas.
É necessário torcarmos os sinais de nossas vidas.
De forma bastante alegórica o enredo nos mostra como as garotas reconstroem suas vidas à medida que a cidade é revitalizada. São nas vazias ruas de Manoyama que elas encontram os valores capazes de preencher seus vazios. É na cidade que ninguém desejava que elas encontram um local ao qual pertencerem. Não na cidade física, nas ruas ou edifícios. E sim na população ali presente.
De apenas mais uma no meio da multidão buscando o sonho que tanto ansiavam, a extremamente necessárias em um local que ninguém queria.
O grupo de protagonistas soube encontrar no acaso a oportunidade de mudança. E, assim, souberam reordenar a si mesmas.
É necessário estar atento as oportunidades que a vida nos proporciona, ainda que elas venham disfarçadas com coisas que não desejamos.
Sakura Quest não é perfeito. Mas ainda assim consegue ser marcante por ter estas características que são facilmente encontradas em nosso dia a dia. É uma obra que carrego um profundo carinho, muito por ter vindo em um período de dificuldades que vivi.
Voltando a Yoshino, após 25 episódios é bastante nítido a mudança brutal que a jovem teve. Nossa Rainha conseguiu encontrar nas adversidades um novo caminho para seguir, e aquilo que parecia o fim tornou-se um novo começo.
Assim é a vida. Falhamos, fracassamos, nos perdemos. Não importa o quanto planejemos, a vida continuará sendo repleta de incertezas. E só existe algo capaz de vencer a incerteza: o tempo.
O tempo é como um rio. As vezes ele é lento, mas a sua margem tudo transforma. O tempo constrói tudo, tijolo por tijolo. Resta-nos aprender a seguir seu curso.
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