

obra-prima
substantivo feminino
- A mais linda obra de um artista, de um escritor, de uma época; obra-mestra.
- Obra de grande perfeição, notável em determinado gênero.
Essas são palavras que descrevem perfeitamente Vagabond.
As histórias que dizem respeito ao lendário ronin (samurai sem mestre) Miyamoto Musashi foram adaptadas em várias formas de mídia. Dentre elas, a mais famosa é o romance Musashi de Eiji Yoshikawa, que serviu como base para a obra de Takehiko Inoue. Porém, sem tirar o mérito dessas obras, Vagabond é a que mais se destaca. O mangá, como as obras mencionadas anteriormente, acompanha a história do ronin Miyamoto Musashi, uma figura emblemática do período Edo que conseguiu o status de "maior samurai de todos os tempos." Dito isso, existem muitos fatores que colocam Vagabond a frente de seus semelhantes e justificam sua ousada classificação como "obra-prima" utilizada nesta resenha.
Dentre esses fatores, o mais visível é a arte. A arte da obra se destaca por ser, em sua maioria, feita à pincel. Takehiko Inoue tem um estilo inigualável. O mangá mescla cenários e personagens realistas com elementos culturais e religiosos do período magistralmente. Cada página é impactante de sua maneira e os grandes momentos só são realçados pelos desenhos impecáveis que constituem essas cenas. Vagabond depende bastante de elementos verbais, como diálogos entre os personagens, mas seu impacto é amplificado pelos desenhos do mangaká, que muitas vezes opta por mostrar ao invés de descrever, tornando essa uma leitura fluida.
No que diz respeito à história, pode-se dizer que é uma das histórias mais realistas dentro do meio dos mangás. O Musashi luta contra as pessoas erradas, perde batalhas, se humilha diante de grandes samurais e chega no fundo do poço várias vezes; isso, juntamente com a persistência, faz com que Musashi cresça como samurai e, sobretudo, como pessoa. Esse crescimento é o foco principal do mangá. Existem poucos personagens tão humanizados como Miyamoto Musashi - em seu sofrimento, em sua luta e, principalmente, em seu crescimento, que ocorre de uma forma deliciosamente orgânica. O leitor consegue visualizar cada etapa do desenvolvimento do protagonista e simpatizar com tudo que ele passa, podendo, de certa forma, ver um pouco de si nele, e percebendo que Musashi é tão humano quanto nós. Por mais que Miyamoto Musashi tenha sido uma pessoa que existiu na vida real, sabemos pouco sobre ele, o que faz com que possamos interpretá-lo de formas diferentes. A figura de Musashi é interpretada com tamanha humanidade em Vagabond que é possível até imaginar que o Musashi real foi semelhante.
Essa representação humanizada não é exclusiva ao protagonista, visto que todos os personagens da obra são desenvolvidos com a mesma atenção. O principal exemplo disso é Sasaki Kojiro. Sem dar spoilers, Vagabond acompanha a história de Kojiro desde quando ele era recém-nascido (diferente do protagonista, que só teve partes de sua infância mostradas ao decorrer da história), criando uma das histórias mais emocionantes do mangá. Outros personagens, com destaque para Honiden Matahachi e os oponentes de Musashi em suas batalhas, também recebem tratamento semelhante. Além de acompanhar o desenvolvimento de Musashi, o leitor segue um elenco inteiro em constante desenvolvimento ao decorrer da obra.
Diante de tudo que foi dito sobre a arte impecável feita a pincel, a história emocionante, que não tem medo de inovar com cada arco que passa, e o elenco que pode ser ousadamente considerado o mais bem desenvolvido já feito em um mangá, pode-se fazer o argumento que Vagabond de Takehiko Inoue é uma verdadeira obra-prima. Essa é uma das leituras mais impactantes e transformadoras que o meio dos mangás proporciona e é recomendada para qualquer um que tenha vontade e tempo para dar uma chance a ela. É certo que a maioria das pessoas que o façam irão apreciar essa rendição da história de vida do maior samurai de todos os tempos; cuja maior falha é o fato de que a obra ainda está inacabada.
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