Nodame Cantabile acompanha a história de dois estudantes de uma universidade de música clássica e o desenrolar de suas vidas após a graduação. Certo dia, Noda Megumi (ou Nodame) encontra na porta de sua casa um rapaz desmaiado pelo tanto que bebera e decide levá-lo até seu apartamento.
Após o ocorrido, o agora sóbrio Chiaki, desperta ao som de uma melodia tocada no piano, assustado pelo cenário incomum e estarrecedor que vira: o apartamento de nodame.
Talentoso, genial, rígido e arrogante. Chiaki Shinichi, um estudante e potencialíssimo musicista briga com seu professor, após um de seus ataques de soberba, sendo levado a trocar de mestre, passando a ter aulas com o pior professor da academia, conhecido pelos demais por formar alunos fracassados.
A troca de turma fez com que o protagonista tivesse de conviver com Nodame. Uma excêntrica, irreverente, desajeitada, mas não menos talentosa, aluna de piano.
Entre as indas e vindas, o enredo nos convida acompanhar os passos de Chiaki no mundo da música clássica, tendo de contar com sucessos e infortúnios, problemas e dramas pessoais, além das dificuldades provenientes de orquestras iniciantes.
Com o forte tom da música orquestral, pouco a pouco o show introduz o ouvinte aos dramas e motivações (ou a falta delas) dos personagens. De um Chiaki filho de renomados profissionais do ramo musical e que crescera sob rédeas de rigidez, o que moldaram sua personalidade, a Nodame, que exala e desperdiça talento pela falta de dedicação e interesse.
Por vezes humorada, outras vezes madura, o enredo desenvolve um romance entre os personagens principais, além de guiar o espectador pela carreira no Japão e mundo afora destes habilidosos musicistas, com uma contundente história que convida todos a conhecer o mundo da música erudita.
A Primeira Arte
A música é a forma de arte que consegue expressar a essência dos fenômenos que o homem percebe no mundo. Muitos filósofos chamaram isso de vontade.
A vontade seria o impulso para os fenômenos no mundo e a música uma das suas linguagens. Por isso, o efeito da música é tão poderoso e incisivo. Pois as outras formas de arte se referem apenas à sombra e a música à essência. Se a música tem esse poder de representar a essência das coisas, podemos usar as estruturas musicais como paralelos para entendermos a vida.
Nos tons mais graves de uma harmonia, encontramos uma correspondência à natureza inorgânica: a massa bruta do planeta. A massa bruta não é dotada de grandes movimentos, de brilho ou de velocidade. Ela serve de cama onde tudo repousa, origina-se e se desenvolve. Na música, geralmente o baixo não é voltado para a agilidade, não costuma realizar floreios e nem se movimenta em intervalos muito curtos.
Os tons intermediários representam os corpos ainda inconscientes mas que já se expressam de alguma forma, tais como o mundo vegetal e o animal. A voz intermediária da música, mesmo mais dinâmica que a anterior, ainda carece de um desenvolvimento conexo que, como uma linha, amarre o todo e lhe dê sentido.
Já os tons agudos que cantam a melodia, a voz principal, se assemelham a vida e as realizações forjadas pela reflexão do homem que, dotado da razão, lança continuamente seu olhar para frente e para trás. Com as suas inúmeras possibilidades percorre um caminho, acompanhado da reflexão, interligado com o todo.
A melodia conecta todos os significados do começo ao fim da música. Transitar rapidamente de uma vontade para a sua satisfação pode gerar alegria e bem estar. Assim também são as melodias rápidas que, sem grandes desvios, tornam se alegres. As músicas adequadas para a dança, por exemplo, são compostas por frases curtas e fáceis, como a expressão da felicidade comum.
Já as melodias lentas são como as satisfações demoradas, entremeadas por dissonâncias dolorosas. Retornando ao tom fundamental, muitos compassos além, tornam-se mais tristes, difíceis, como em uma jornada que passou por caminhos tortuosos, mas que ao final ganhou o sentido no todo, tornando a sua realização mais profunda e duradoura. As nuances entre as tonalidades menores e maiores parecem representar as passagens das angústias, no modo menor, para sua libertação, no modo maior.
A modulação de uma tonalidade fundamental para outra põe fim à anterior, assemelhando se à morte que aniquila o corpo, mas não elimina a vontade que permanece viva e se manifesta em outros indivíduos, mesmo que eles não tenham nenhuma ligação.
A quantidade inesgotável de melodias possíveis corresponde à imensa variedade de indivíduos e modos de viver no mundo. Por isso, a melodia canta, percorre por muitos caminhos, explora intervalos e tonalidades diferentes, estranhas e familiares. Tudo isso expressa o que a vontade quer. Sofrimento e alegria, ansiedade e dor, aventura e caos.
No entanto, esta melodia sempre repousa no seu tom fundamental, onde sempre esteve enraizada. Apesar de todas essas semelhanças a música não expressa os sentimentos individuais, mas o contexto universal que cria os seus ouvintes. A primeira arte representa a essência de todas as possíveis aspirações e disposições humanas: A alma interior delas. Essa é a linguagem mais universal que conhecemos. Ainda assim, a cada dia que passa, parece que nos esforçamos para abandoná-la cada vez mais.
"A música é um exercício oculto de metafísica, sem que o espírito saiba que está filosofando."
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