
a review by salemsuru

a review by salemsuru
A infância é uma das fases mais importantes de uma pessoa, de lá irá começar fases de transições, mudanças, e seja elas fáceis de lidar ou não, é necessário se impor a elas e ter agência pra não estagnar em um ponto, sendo só mais uma pessoa a deriva de tudo sem nenhuma identidade. Curiosamente eu vi "Spirited Away" pela primeira vez nessa época, eu provavelmente deveria ter mais ou menos a idade da Chihiro no filme, e mesmo com toda a fantasia incrível que o filme traz pra olhos de uma criança, não foi algo que me fisgou tanto, no máximo me marcou de uma maneira negativa, levando em consideração que eu tinha pavor da cena dos pais virando porcos. E de uma maneira não intencional, vi esse filme três vezes: Na minha infância, adolescência e agora na maior idade. Três vezes e três experiências completamente diferentes, com agora entendendo o do porque esse filme é tão especial.
Se o Studio Ghibli traz visuais incríveis, com seu estilo artístico charmoso no ponto com character designs marcantes, Miyazaki traz uma unicidade na direção e escrita que faz juz ao renome do estúdio. Com um projeto que estorou em níveis astronômicos, "Spirited Away" mostra um Miyazaki com uma cabeça mais pro lúdico e até onírico, trazendo uma fantasia marcante viajando entre o fantasioso e o folclórico do Japão, fazendo visuais, cenários e tudo o que o Studio Ghibli consegue fazer enchendo os olhos de quem vê. Esse filme sendo uma das animações mais importantes do século, consegue mostrar que fez por onde, trazendo uma jornada narrativa, temática, visual e todas as outras coisas que esse filme consegue fazer bem de maneira magistral, vidrando qualquer um em sua riqueza textual e em seu charme único.
A direção de Hayao Miyazaki aqui chega em uma crescente sem parar, conseguindo entregar até nas cenas mais "simples" sentimentos que nem os melhores textos poderiam entregar. Em caminhadas dentro de um jardim de flores, em uma viagem de trem, e até em uma observação da noite, tudo aqui demonstra e fala muita coisa sem precisar ter nenhum diálogo, o vazio trazido por Miyazaki em muitas cenas é um dos maiores exemplos disso, conseguindo demonstrar uma contemplarão do "nada", o filme consegue demonstrar um simbolismo fortíssimo dentro de suas cenas, mostrando um storytelling rico envolto aos sentimentos de uma maneira que poucos diretores e roteiristas conseguem fazer. E isso se complementa muito bem dentro de sua trilha, feita de maneira sensível no ponto certo por Joe Hisashi, que aqui faz uma das trilhas mais memoráveis do Studio Ghibli, que mesmo sendo poucas, com o tema principal tocando na maioria das vezes, consegue trazer uma composição diferente toda vez que o tema toca, trazendo a sensibilidade necessária dentro da música pra cada cena.
Em uma parte a qual eu ignorei quando criança, não entendi quando adolescente, e consegui compreender melhor agora, a história, narrativa e os temas de "Spirited Away" são coisas que mesmo sendo simples, conseguem tocar de uma maneira sensível e delicada que poucos filmes conseguem. Amadurecer é um negócio difícil, e vendo a Chihiro passar o que ela passa durante o filme, negando as mudanças que a vida dela está tomando, e querendo empacar no passado por não gostar do agora, é algo que eu consigo me relacionar mais hoje em dia. Viver no passado é cômodo, pensar que as coisas eram melhores antes, e agora que tudo tá mudando é terrível e te deixa em um desespero gigante, tendo medo das mudanças e a viagem que é até lá. Ver esse filme, e acompanhar a Chihiro nessa jornada fantasiosa que ela passa me lembrou de muita coisa, fazendo com que eu ficasse mais sensível vendo ao filme. Toda a vertigem de ver um lugar novo e ficar com medo de encarar ele, o sentimento de que você não é mais você, todos os problemas de amadurecimento e identidade de que Chihiro passam é algo relacionável, é uma coisa que todas as pessoas passam, principalmente no momento de ir pegar um trem só de ida, e de não olhar pra trás pra algo que já se foi, só contemplado a viagem que tá sendo até o ponto final dessa jornada.
Além disso, "Spirited Away" me lembra infância em outros quesitos, além dos problemas de amadurecimento e identidade, não sabendo mais quem você é mais, e não se encontrando direito no seu a redor, toda a ideia da Chihiro passar o que ela passou, e após isso só ir pra frente me lembrou algo simples mas que me pegou de certa forma. As viagens a qual você faz na infância sempre é estimulado bem mais nos olhos de uma criança, tudo é muito mágico, a comida, os lugares, e acima de tudo as amizades que são as melhores possíveis naquele momento, onde mesmo que você passe por aquilo em um curto espaço de tempo, você aproveita na maior intensidade possível. Ver a Chihiro conhecendo pessoas únicas, indo pra lugares mágicos e experienciando essa fantasia me remeteu a isso, os breves momentos de passeios e viagens em lugares, onde quando criança são as coisas mais oníricas possível, e que mesmo no final da viagem termine do mesmo jeito, voltando pra casa nunca mais vendo tudo aquilo de novo, uma marca daquele momento fica, e "Spirited Away" me fez voltar pra esses momentos infantis, que eu tenho certeza que foi uma das melhores coisas possíveis na minha visão na época.
Acima de todo o primor técnico que "Spirited Away" tem, a coisa que mais me tocou vendo esse filme foi essa lembrança constante da infância, me vendo como a Chihiro o tempo inteiro enquanto o longa se desenrolava, com minha cabeça lembrando desses momentos infantis os quais eu tive. E assistindo esse filme pela terceira vez, me fez perceber que só agora ele foi algo que me marcou bastante, me acompanhando por fases completamente distintas da minha vida, mas que de certa forma conversam com o que o filme fala de certa forma, fazendo eu gostar ainda mais dele. O que esse filme me fez ter é algo que poucos conseguem, e agora tendo experienciado ela de maneiras bem diferentes, eu consigo valorizar muito mais a viagem que ele traz.
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