
Tudo o que é construído do cenário de Jujutsu Kaisen, desde seu prólogo e até sua primeira temporada se encontram aqui, onde no meio de resoluções de diversas coisas ainda tem um espaço pra construir relações, e trazer dilemas interessantes dentro da obra como um todo. A segunda temporada de Jujutsu Kaisen é tomada por inúmeras melhorias, seja no aspecto da tão aclamada porradinha pros shounen-enjoyers, mas principalmente dentro de sua narrativa tanto pra dentro da psiquê dos personagens, onde na primeira parte - o tal do Arco do Gojo, é inteiramente baseado nisso, ou seja na maneira mais externa da ideia, levando o conceito de consequências pra dentro do próprio mundo que Jujutsu Kaisen introduz. A sua segunda temporada é maior em escolpo, e de certa forma melhor em identidade - Gege Akutami entende o que de fato Jujutsu Kaisen quer fazer.
A maneira como essa segunda temporada é estruturada é de certa forma um tanto curiosa, já que ela tem um arco inteiro de 5 episódios focado em narrativa e principalmente desenvolvimento de personagem, e na outra metade o que Jujutsu Kaisen consegue fazer de bom só que ainda melhor. Hidden Inventory/Premature Death é o melhor início que uma temporada de Jujutsu Kaisen poderia ter, ponto. Aqui toda aquelas lutas sem parar, batalhas desenfreadas são postas de lado em detrimento a um outro tipo de narrativa, e até de direção dentro dos "quês" técnicos do estúdio MAPPA. As coisas nessa primeira parte são o oposto do que foi introduzido em sua temporada anterior: seu pacing é mais lento, seu foco sai dos desenvolvimentos por meio das lutas, e entra nos desenvolvimentos por meio dos personagens, e o peso dado a muitas coisas aqui, principalmente sobre "O que é ser um feiticeiro Jujutsu" dentro desse cenário tão seco e cru que o anime tanto fala, mas tão pouco desenvolve sobre toma conta aqui. A história entre essa amizade de Satoru Gojo e Suguru Geto é tomada por levezas e brutalidades, trazendo inúmeros dilemas além de interessantes e um desenvolvimento que mesmo mais curto do que deveria, ainda traz provavelmente o melhor momento de narrativa da obra em um todo.

O final dessa história é provavelmente o momento mais forte de Jujutsu Kaisen, onde entre filosofias e ideais, o que realmente impacta é o conhecimento de que no final daquilo, as coisas nunca mais seriam a mesma seja a médio ou a longo prazo. A amizade nunca voltaria, e todo o sentimento de que aquele verão vivenciado por momentos felizes e sentimentos tão genuínos, foram arruinadas pelo o infortúnio que são os ossos de ofício de ser um feiticeiro jujutsu. O maior impacto não foi ter sido o fim daquilo, e sim que isso nunca mais voltaria a acontecer para todos, e isso é o que mais marca em nós como público, e também em toda a relação quebrada entre Satoru Gojo e Suguru Geto. "Hidden Inventory/Premature Death" mostra que nem os melhores momentos duram pra sempre, e o que vem logo após isso realça que depois daquilo, o "Incidente de Shibuya" seria um ponto o qual nunca mais traria esses momentos de volta, e que o desespero tomaria conta do mundo de Jujutsu Kaisen.

E então nesse sentimento um tanto quanto pessimista que embarcamos a esse arco de apenas uma noite, porém com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo que é o "Incidente de Shibuya". Aqui, Jujutsu Kaisen volta ao habitual padrão de shounen, porém agora com o maior arco até então do tipo dentro da história, e também o mais maduro no que se diz a respeito de entender o que a suas lutinhas, porradas e coisas do tipo do gênero querem falar pra dentro de seu próprio mundo, e principalmente pra quem está embarcando junto aos personagens nisso. É interessante ver Shibuya em como ele é estruturado dentro de sua narrativa, principalmente levando em consideração ele como uma resolução de um plano que, pelo menos desde o início da série, é informado e dito entre os personagens ocasionalmente em alguns momentos. Shibuya demora para vir, mas quando de fato vem é algo estrondoso e que simplesmente nunca para, e que se tem algum momento de respiro é logo abafado por momentos ansiosos em lutas interruptas, ou em tensões por conta das consequências dessas lutas as pessoas ao redor dela. No final das contas, o interessante do "Incidente de Shibuya" não é suas lutas grandiosas, momentos épicos e cenas inesperadas mas sim o que traz o pós disso tudo, não só para apenas os protagonistas dessa história, mas também para o cenário que Jujutsu Kaisen traz pra dentro desse Japão feito no mangá.
As lutas aqui de certa forma criam uma narrativa, talvez um tanto quanto baseada apenas pelo hype delas mesmas enquanto elas acontecem, porém logo após delas algo de interessante ocorre com a maioria dessas lutas, que é a questão das consequências mostradas por conta dessas mesmas lutas. É fácil de fazer o público se engajar com lutas em escolpos gigantes, com meteoros voando dos céus, criaturas quase imortais sempre voltando mais fortes, ou até em uma liberação de uma caixa de pandora repleta de maldições. Sim, isso é facilmente engajante a quem vê, o momento é épico, a animação é cheia de "sakugas" e coisas bacanas como coreografia e coisas do gênero, porém no momento que esse momento acaba o quem vem depois, em grande maioria não importa. Mesmo tendo um escolpo gigante, é normal ao público não pensar nas possíveis consequências de embates assim, afinal de contas isso não é algo que é tocado dentro do âmago de seus protagonistas, e não é aprofundado de uma maneira muito além do que acontece depois. Isso pode ocorrer em muitas obras do mesmo gênero, mas não da maneira que Jujutsu Kaisen trata o "Incidente de Shibuya" e sua reverberação mesmo após o término do arco.

A maneira que Jujutsu Kaisen trata as consequências dos embates no "Incidente de Shibuya" é interessante, principalmente levando em consideração o protagonismo de Yuji Itadori na história, e toda sua construção dentro dessas duas temporadas. Itadori cria esse complexo o qual ele não sabe se realmente valeu a pena salvá-lo, mas que ia aproveitar essa oportunidade para salvar o máximo de pessoas possíveis, o que traz um idealismo otimista nada convidativo pra uma temporada que olha para tais ideais, e bota personagens para duvidar se realmente este tipo de pensamento é correto ou se vale a pena. Da maneira o qual a temporada é estruturada, seria normal pensar que "Hidden Inventory/Premature Death" não afetaria a narrativa do "Incidente de Shibuya", porém o contrário ocorre e praticamente todas as conversas, dilemas e lutas morais ocorrem aqui, e todas elas caem em cima de Itadori, que até então é posto a prova a todo momento pra se entender como feiticeiro jujutsu, e acima disso, o seu propósito dentro daquele mundo repleto de maldições e feiticeiros. E esse teste de fogo o qual Itadori é posto durante toda a temporada, é reforçada pela a figura monstruosa que é Ryomen Sukuna, que nessa temporada tem um peso dentro da narrativa como nunca mais antes teve, fazendo o protagonista sentir das mais inúmeras coisas, e fazendo todo e qualquer tipo de destruição interno e externo dentro da história. Não seria exagero tratar Sukuna como essa calamidade dentro de Shibuya, onde com apenas com o que ele fez, consegue trazer mudanças gigantes dentro de Jujutsu Kaisen como um todo. Uma lembrança que mesmo com as inúmeras maldições, Ryomen Sukuna é uma força imparável que pode mudar o protagonista dessa história, mas também o mundo em sua volta.
No final daquela noite, o que importou do "Incidente de Shibuya" foi suas consequências, e como isso afetou não só a história pessoal de cada um dos personagens, mas também como a história nacional dentro do Japão de Jujutsu Kaisen. O último episódio dessa temporada é interessante em tocar nisso, mesmo com todo o momento épico mostrado com a resolução de Shibuya, o episódio toma foco das consequências daquilo tudo nas pessoas, e na sociedade japonesa no geral. Isso é algo curioso, principalmente pra dentro do gênero de shounen, que na maioria das vezes não tem muito interesse em mostrar como as ações, consequências e coisas do tipo nesses grandes arcos reverberam dentro de seus cenários. A maneira o qual Jujutsu Kaisen trata sobre Shibuya nesse episódio, mesmo que curto, ainda é interessante remetendo um pouco de obras como Shin Godzilla de Hideaki Anno, retratando o que é de fato o pior desses momentos terríveis que são o que ocorre logo após eles, e como isso afeta as pessoas a redor desses momentos. Jujutsu Kaisen trata o "Incidente de Shibuya" como algo nada épico, e vai pra um lado trágico pra todos os envolvidos, fazendo essa tragédia afetar até aqueles que não estavam envolvidos, fazendo esse sentimento trágico ainda mais forte dentro não só do arco, mas sim de sua temporada em um geral.

Porém largando a mão em questões narrativas, temáticas e coisas que abrangem mais esse lado, também vale a pena tratar sobre a questão técnica dessa segunda temporada de Jujutsu Kaisen, que para mim foi a melhor que teve até agora. Deixando de lado todas as questões polêmicas do estúdio MAPPA, é necessário dizer o quanto que os profissionais envolvidos nesse projeto são incríveis, e conseguiram entregar algo muito refrescante e até inovador dentro da própria obra. A primeira parte dessa temporada, o qual retrata "Hidden Inventory/Premature Death" em questão técnica, é a coisa mais bem produzida de todo o anime, seja por sua escolha artística um tanto quanto acertada pro tom daquele arco, ou principalmente por sua direção um tanto quanto cinematográfica que serviu como uma luva dentro da narrativa. Essa primeira parte é criativa ao extremo, fazendo cenas com diversos ângulos diferentes tentando emular enquadramentos mais de cinema, ou até por seu ritmo um tanto menos frenético que permite momentos mais espaçados na animação, o que traz um dinamismo que era necessário pra um arco tão dinâmico quanto esse.
E o "Incidente de Shibuya" é dispensável de qualquer elogio, porque o que é feito pra criar uma ação desenfreada que é pedida dentro do arco é feito com as lutas, onde que por meio de suas animações insanas de lutas, vidram qualquer um que pegam pra ver elas. Em questão de direção, a equipe também é inventiva com algumas lutas, principalmente com as que envolvem Sukuna, que conseguem criar um dinamismo diferente utilizando o aspect ratio de uma maneira criativa, conseguindo trazer o mais puro sentimento de ação para quem vê. A produção dessa segunda temporada bota tudo o que a primeira mostrou em outro patamar, fazendo momentos super criativos em direção, animação e principalmente quanto a como criar essa narrativa que, mesmo se baseando em porradas por porradas, ainda traz o impacto disso por meio de sua animação e o impacto delas pra história, servindo muito bem nessa temporada como um todo.

E falando dessa segunda temporada como um todo, Jujutsu Kaisen finalmente se encontra como obra, e entende sua identidade sabendo o que quer dizer e mostrar ao público. Aqui, é onde a série encontra um amadurecimento muito forte em si, suas narrativas, e principalmente em como é construído os seus personagens. "Hidden Inventory/Premature Death" foi a prova viva disso, onde mesmo tendo poucos episódios conseguiu criar o tom certo não só a essa segunda temporada, como imagino para Jujutsu Kaisen a frente dessa adaptação. As temáticas envolvendo injustiças, juventude roubadas e coisas do gênero são fortes aqui, e digo isso pra ambos os arcos que compõem essa temporada, e falando sinceramente ela poderia ser mais frequente em ambos também. Essa segunda temporada tem um mal, que é a de infelizmente ser objetivo demais, e não dar tempo a construir uma narrativa um quanto mais impactante em suas temáticas, principalmente no que se diz a respeito de "Hidden Inventory/Premature Death". Bem, esse arco é ótimo por si só, mas sinto que se tivesse um pouco mais de episódios, e um pouco mais de desenvolvimento de toda aquela narrativa aí sim seria perfeito! O objetivismo em Shibuya serve, mas não acho que encaixa muito bem a um momento tão diferente no todo que Jujutsu Kaisen tem... Porém, mesmo com esse ponto, a segunda temporada de Jujutsu Kaisen é além de competente: É fora de série. Mesmo com a segunda parte, que é a de Shibuya ter me interessado menos do que o arco anterior, é doideira pensar que o que seria menos interessante ainda é ridiculamente bom, e que de alguma maneira ainda tocaria nos assuntos tratados no arco anterior. A segunda temporada de Jujutsu Kaisen entra ainda mais na cabeça de seus protagonistas, fazendo eles questionarem seus próprios ideais, dilemas e até a maneira que eles próprios se vêem dentro do mundo nesse jogo de maldições contra feiticeiros. E com tudo isso entregado da maneira mais ridiculamente bem feita possível, é impossível não gostar dessa segunda temporada de Jujutsu Kaisen!
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