Nessa altura da minha amarga vida eu não estava esperando que fosse acabar me envolvendo tanto com um mangá levinho desses como me envolvi com Alice-san Chi no Iroribata. É facilmente o tipo de coisa que eu leria em uma tacada só ou em no máximo dois dias e esqueceria de sua existência e de tudo que aconteceu na história menos de um mês depois, mas acabei demorando mais que isso porque o mangá ainda estava em lançamento, então, por mais ou menos um ano fui me flagrando indo verificar quase todo mês se saía um capítulo novo, o que ajudou a sedimentar bastante o mangá na minha cabeça. Não sei bem explicar. Na verdade, acho que sei, sim.
Alice-san Chi no Iroribata (ou By The Hearth At Alice-san's Home) é um mangá que conta a história de Alice Minase, uma mulher jovem adulta que, após a morte de sua avó decide sair de Tokyo e voltar ao interior do Japão para morar na casa que morava dez anos antes. Lá, ela reencontra um adolescente que era seu amiguinho de infância e a partir daí um clima começa a rolar. De volta a sua terra de infância, Alice vai se reconectando com o seu passado e reaquecendo seu coração e suas memórias cozinhando todo tipo de receitas em seu famoso irori*, em uma confortável e sonolenta casa no interior.
É um típico representante de mangá iyashikei e, tendo estreado exatamente no meio de um caos mundial chamado pandemia de COVID, é possível compreender o apelo que existe. Ver duas pessoas vivendo calma e até despreocupadamente uma vida pacífica e bucólica, com pouca ou quase nenhuma interferência do mundo de fora tem de fato suas vantagens e esse mangá é excelente nesse aspecto. A arte delicada, mas também firme dá um tom muito gostoso de limpeza e calmaria. Ao longo da minha leitura fui percebendo que é o tipo ideal de coisa para se ler depois de um bom banho e antes de deitar para dormir, é realmente um mangá propício ao sono e, estando na época que estávamos, acho que acabou fazendo ainda mais efeito em mim. Quando comecei a ler já era 2022, a quarentena já praticamente não existia mais, mas os seus efeitos psicológicos nas pessoas ainda existia de alguma forma e eu sinto que foi uma conexão muito bem vinda que eu tive com esse mangá.
Mas acabou que eu fui realmente surpreendido por ter uma pequena história de romance ali no meio. Eu acabei atraído pelo mangá por conta de imagens da linda arte do Bunta Kinami e não li muito sobre o que se tratava o mangá, eu fui mais conquistado pela vibe dele, sabe? Até porque é isso que o mangá tem, vibe. Mas como praticamente toda história, Alice-san (como irei chamar o mangá a partir de agora) acabou tendo uma espécie de condução através da vida dos personagens e tudo isso é centrado no relacionamento da Alice com o Harumi que começa a se desenvolver. Começa pelo Harumi que constantemente vai visitá-la, tanto por ser amigo de infância dela e querer se ajudar a se reestabelecer na cidade como também por consideração à avó dela que morreu e, sabe como é, cidade do interior, todos se conhecem, então uma morte significa muito pra todo mundo. O Harumi vai gradativamente percebendo o quanto a Alice está gostosa e o conforto das memórias, da casa e o clima agradável com aquela mulher tão bonita vão conquistando o moleque que vai gradativamente se apaixonando e fazendo o mesmo com ela. O grande limitador da relação dos dois é a diferença de idade. O Harumi tem em torno de 16 anos enquanto a Alice parece estar na faixa dos 25 (nunca fica muito claro a idade dela), o que torna um relacionamento inviável por ter um menor de idade na jogada. Mas mesmo sendo errado e talvez escapando por pouco do aliciamento, os dois continuam desafiando o sentimento, o tesão e a razão para poderem se sentir afagados pelo conforto da vida na casa.
Eu não sou muito fã de romance, nunca foi o tipo de história que me atraía e até hoje acho que continua assim, mas eu hoje estou mais aberto a ler coisas mais variadas e por isso acabei entrando na relação deles dois porque ele acaba rolando de forma até que bem madura e confortável com a situação. A relação deles é pacífica e eles aceitam e entendem a situação um do outro de forma bem tranquila, apesar de parecer mais difícil para o Harumi, até por ser mais novo. E também pela energia gravitacional que existe em volta da Alice.
A coisa que acabou sendo mais interessante de observar nesse mangá é que ele tem uma vertente sexual muito sutil envolvendo tudo. Apesar de não ser promíscuo, não ficar forçando cenas com grandes decotes e pantyshots, o mangá tenta o tempo inteiro evidenciar o quanto a Alice é sensual. Eu sinto que, apesar de ser uma mulher com 25 anos, ela vai ganhando todas as características visuais de uma MILF, com aquelas roupas caseiras confortáveis, a delicadeza de cozinhar pra muita gente e a constante preocupação com o bem estar dos outros e isso vai se intensificando ao ponto de incomodar porque o cara que tá apaixonado por ela é um moleque de 16 anos e a história fica dando uma fugida do tesão que o Harumi está sentindo por ela. Tem no máximo umas três cenas que o Harumi dá uma olhada pra bunda dela. Claro que a questão dele ser menor de idade era um empecilho mais delicado em tratar o tema só que existem dezenas de abordagens melhor que simplesmente evitar o tema. E se você vai mostrar duas pessoas que claramente querem transar e sabe que não pode, não dá pra você só sugerir que esse é um assunto acertado sem palavras entre os dois. Eu não sei parece que o mangá acabou escolhendo o jeito mais covarde de resolver esse problema, fingindo que ele não existia.
Mas apesar de tudo é um mangá delicioso de ler e mesmo aqui escrevendo sobre me sinto ainda relaxado de pensar sobre a história e toda a sensação refrescante que ela transmitia. Ver um capítulo novo era como sentir uma curta brisa gelada entrando pela janela de um cômodo abafado e fedorento que é a vida. Apesar do conforto no mangá ser o calor do irori, não tem como fazer essa analogia morando no Brasil então o grande ponto de acalento desse mangá é que ele refresca o ambiente, em vez de aquecer.
*Irori é uma lareira tradicional japonesa quadrada que é imbutida no chão da casa e aberta, geralmente equipado com uma espécie de gancho no teto que se usa para cozinhar e aquecer a casa. Tradicionalmente era o principal cômodo da casa pois o irori também servia de iluminação noturna e para secagem de roupas, além de queimar ervas para afastar insetos ao longo do dia.
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