Uma das coisas mais interessantes de quando comecei a ver os filmes do estúdio Ghibli foi sobre como esses filmes não apenas eram bem animados e bem dirigidos, mas também sobre o fato deles conseguirem trabalhar histórias e temáticas marcantes por gerações, por exemplo: A Viagem de Chihiro, Ponyo, Porco Rosso, Totoro, Sussurros do Coração, até mesmo os mais recentes Vidas ao Vento e Kaguya-hime são excepcionalmente bem trabalhados e conseguem cativar por meio da “Magia do Ghibli”.
No meio de todos esses filmes, charmosos pela sua animação e cativantes pela sua própria narrativa, temos o Castelo Animado, um filme que, certamente, está entre os mais adorados do Ghibli até hoje, e que também é maravilhosamente bem produzido e dirigido, mas que, na minha opinião, é um filme estranho? O principal motivo pelo qual eu cito todos esses filmes anteriormente se dá pelo modelo narrativo presente neles: Temos uma narrativa centrada na história de um ou mais personagens em uma trajetória centrada, com um começo, meio e fim bem delimitados de forma coesa. A grande questão é que eu não acho que a narrativa seja tão bem construída nesse filme, mas, antes disso, vamos rever um pouco sobre a história do longa.
Howl no Ugoku Shiro, Howl’s Moving Castle ou até mesmo o Castelo Animado, em português, fala sobre a história de Sophie, uma jovem adolescente que acabou sendo amaldiçoada por uma Bruxa e acaba recorrendo a Howl, um outro feiticeiro poderosíssimo para que este consiga reverter essa sua maldição.
Com relação a essa premissa, o filme acaba adentrando em diversas temáticas ao longo de sua duração. Primeiro, temos a introdução dos personagens, com a Sophie, existe a revelação de um complexo de “beleza” da personagem, a mesma não se acha bonita e nem se valoriza o suficiente, porque… sim. Além disso, temos o Howl, um protagonista que se encontra no exato mesmo dilema, em que o mesmo tem um “ataque emocional” por causa da cor do cabelo dele, com o mesmo falando: “Qual o sentido na vida se você não é bonito?” Porém, esse aspecto do personagem é superficialmente elaborado, a partir do momento em que não há construção dos motivos que levaram ele a pensar assim, dos motivos que fizeram ele ficar assim e agir desse modo, ou seja: Temos um personagem em que se deseja abordar uma temática, mas que a obra não é convincente o suficiente para criar esse contexto. E pior ainda, esse contexto é analogamente similar a da Sophie e os dois tem esses exatos mesmos problemas, que é: Os dois são personagens igualmente bonitos. Se o character design dos dois evidenciasse esses elementos de “feiura” neles, até seria compreensível, mas não, os dois são tão bonitos quanto quaisquer outros personagens do Ghibli de outros filmes, evidenciando ainda mais esse questionamento.
Segundamente, temos o segundo ponto temático da obra, que é a ideia introduzida de que: “As guerras são idiotas”. No meio do filme, é apresentado um contexto de uma iminente guerra entre duas nações europeias militarmente desenvolvidas e que usam a magia a seu dispor para se enfrentar. Isso é, literalmente, tudo que sabemos, se em Nausicaa e em Princesa Mononoke nós sabemos todos os detalhes e contextos que levaram ao cenário de guerra presenciado pelos personagens, aqui esse contexto é tão superficial quanto uma folha de papel, pior ainda se analisarmos a personagem da rainha de um dos reinos em guerra, que conhece o Howl mas tudo fica só na expositividade e na mensagem barata e mal desenvolvida do longa, afinal, ninguém sabe o porque da guerra, como ela começou e, agora, porque ela terminou, ela existe e só.
OBS: Pior ainda é que o Miyazaki, aparentemente, falou em entrevistas que o filme é inspirado na GUERRA DO GOLFO E NO 11 de SETEMBRO. Como não tenho confirmação desses fatos eu vou só deixar aqui que eu escutei, mas como o diretor tem muito desses dialógos estranhos, vou deixar no ar
Terceiro e último ponto que acho interessante citar é sobre o relacionamento dos personagens, que, no geral, é uma consequência da própria falta de construção narrativa da Sophie e do Howl. Os protagonistas, ao longo do filme, desenvolvem um interesse romântico mútuo, em que ambos se importam pessoalmente e romanticamente, mas, ainda sim, continuamos sem conhecer direito esses personagens, seus sentimentos e, sobretudo, o motivo que os levam a serem da forma com que são, vemos apenas a carcaça que os compõe e os tornam, se em Sussurros do Coração descobrimos todas as nuances que levam a Shizuku a se menosprezar, a se sentir deprimida e a gostar do Seiji, aqui não temos nenhum desses elementos e é aqui que sinto a falta deles na formação de uma conexão verdadeiras entre personagens e o espectador.
No geral, a forma e o “como” do Ghibli ajudam e conectam o expectador com a trama muito mais do que a própria narrativa do filme. Talvez eu esteja julgando muito, mas me decepcionei bastante com a “estranheza” da obra: Traz muitos tópicos, mas não sabe desenvolver muitos deles de forma tão coesa assim