
a review by Matheusmiranda96

a review by Matheusmiranda96
Yotsuba to!, a série de mangás escrita e desenhada por Kiyohiko Azuma, nos mostra o cotidiano de uma ainda muito jovem Yotsuba. Uma garotinha hiperativa, curiosa, meiga, e um tanto inconsequente, como toda criança de 5 anos que encara na mudança de cidade o início de uma aventura.
Adotada por um jovem adulto chamado Koiwai Yousuke, a garota e o pai chegam a sua nova vizinhança e, de imediato, brindam o leitor com as mais irreverentes situações.
O mangá é contado em ordem quase que inteiramente episódica, onde cada capítulo representa um dia da vida da menina. Neles podemos presenciar as peripécias vividas pela protagonista, bem como as relações criadas com os outros personagens a medida que nos são apresentados.
Uma interpretação simplória e errônea que muitos possuem, seja ao ler a sinopse, seja ao ler os primeiros capítulos, é que se trata, tão somente, de uma história com situações alegres e fofinhas vividas por uma garotinha fofinha. Como a maioria das histórias Moe são, inclusive o outro mangá do autor.
De fato existe muitas situações cômicas, divertidas e simpáticas. No entanto, a obra aponta para algo além.
Os dias vividos pela menina, representados por cada capítulo, não nos apresentam meras aventuras, pequenas e desconexas, ou histórias fantasiosas. Existe um sentimento de fidelidade em cada situação, prendendo o leitor a realidade e mostrando que cada atitude tem sua consequência.
Em um mundo cada vez mais imerso numa busca desenfreada por autosatisfação, com uma sociedade entregue ao cinismo, egoísmo e a falta do mínino de valores norteadores, torna-se enfático que a história seja contada pela perspectiva de uma criança.
Aliás, a história de Azuma evoca muito bem esta sensação de imersão. Muitas vezes o leitor pega-se questionando alguns fatos curiosos, por exemplo, sobre como a menina possui pouco conhecimento, ou quase nada, sobre as coisas mais básicas da vida comum.
Escadas-rolantes, elevadores, câmeras de seguranças em lojas, colégios, tudo passa a ser uma descoberta. O mangá constantemente convida-nos a esquecermos do que já sabemos para redescobrirmos o mundo a partir da Yotsuba.
Yotsuba To! não apresenta um enredo poético, com dramas profundos e questionamentos filosóficos. Muito pelo contrário, a simplicidade do mangá nos convida a refletir sobre algo que há muito fora perdido: a beleza no dia-a-dia.
O ser humano, com sua pressa exarcebada, impaciências e aflições, perdeu a capacidade de presenciar as coisas mais belas. Os gregos antigos chamavam isto de Apeirokalia: uma condição humana, tratado por eles como uma doença, adquirida através de uma vida sem possuir nenhuma experiência com as coisas boas e belas.
É comum que as artes sejam cada vez mais tratadas como relativas, apontando para conceitos desconstruidos e grotescos. A arquitetura abandonou o senso estético e adotou padrões genéricos. As cidades perderam suas conexões com a natureza, sendo invadidas por mais e mais prédios, ruas concretadas, portas e janelas gradeadas.
Aliás, a busca pelo grotesco vigora como a lei da vez. No cinema, na música, nas expressões artísticas, tal qual a pintura, as danças e esculturas, na literatura. Tudo clama por características grotescas e anomálicas. Não importando se são boas, se representam verdades. A ordem é chamar atenção.
Quanto mais chamativo algo for, melhor. Roupas assimétricas, com estampas e formas anormais, móveis possuindo aspectos não naturais, casas que mais parecem prisões. Este êxtase constante tem confundido as percepções sobre o que realmente é belo.
Aristoteles acreditava que as coisas mostradas para as crianças influenciava, diferentemente, a sua capacidade de aprendizagem e de conduta na sociedade. Por isso, o filósofo exortava para que não se revelassem, às crianças, as más condutas dos deuses porquanto isto as condicionariam a experienciar o mundo através dos aspectos maus, distantes da beleza.
Por isso, ao viver uma vida bombardeada pelo grotesto, distante do belo e do bom, o ser humano tem se encontrado neste constante estado de confusão. A humanidade, sempre em busca de um sentido na vida, imersa no relativismo, não encontra uma saída.
Uma vida no automático. Assim o homem olha mas não enxerga o mundo a sua volta. Acorda, toma um café, junta a mochila nas suas costas e vai trabalhar. Uma corrida em loop rumo ao progresso, sem tempo para refletir sobre o motivo de correr tanto. Em uma pista circular o homem é, diariamente, induzido a viver um ritmo que não é natural.
Um turbilhão de informações desconexas pouco a pouco o tira do eixo, ficando, assim, menos sensível, mais bruto, e até desatento para o que realmente importa. Nosso jeito de agir, pensar e perceber o mundo foi condicionado de maneira intencional. Distante das experiências belas da vida, o homem tem se encontrado doente, sufocado por tanto relativismo, pelo grotesto. Como quem adormece esperando a morte por carregar no corpo uma doença, a apeirokalia.
É justamente nisto que reside o valor de Yotsubato!, com uma narrativa simples, apontando para este algo maior que sempre esteve presente. No acordar, no alvorecer, no educar uma criança, na natureza e nas coisas que ela compõe, no trato para com o próximo, na contemplação das coisas anteriores a todos nós que nos remete ao excelsior presente em cada um: a beleza.
A beleza é imensamente importante na vida e no mundo porque ela realça tudo. Ela realça, não só o mundo à nossa volta, mas a nós também.
A beleza é uma das coisas que fazem a vida valer a pena. Ela enriquece a vida
"Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora, a te procurar! Eu, disforme, me atirava à beleza das formas que criaste. Estavas comigo, e eu não estava em ti. Retinham-me longe de ti aquilo que nem existiria se não existisse em ti. Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume, respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti."
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