O Menino e a Garça (2023) é mais uma produção fantástica do Estúdio Ghibli. Dirigido por Hayao Miyazaki (do qual expressou ser sua última produção), o filme acompanha uma trajetória similar e igualmente categórica como foram suas outras produções (O Castelo Animado, Princesa Mononoke, A Viagem de Chihiro, Meu Amigo Totoro...).
Situado na Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha Mahito, que tenta se estabelecer em uma nova cidade enquanto lida com o luto da perda de sua mãe. Em sua nova casa, Mahito é atraído por uma garça até uma torre que o leva á um mundo fantasioso, e lá ele passa por uma jornada onde ele reavalia sua relação com luto, família, mundo e responsabilidades.
Em questões de produção, senti que o filme trazia um aspecto diferente dos outros filmes de Miyazaki que até então admirava bastante; a consistência do traço. O traço dos filmes de Miyazaki é eficientemente constante. Digo eficientemente pois, apesar de serem design's "simples" eles ainda agregam e casam de maneira extraordinária com a construção de mundo e com o visual dos filmes, sendo simplórios na sua maneira de desenhar enquanto não abrem mão de articular de maneira bem feita as emoções dos personagens.
Em momentos de impacto, pode-se observar uma espécie de "quebra" desse padrão. Linhas mais grossas, mais finas; sombreamento á parte... As ocasiões em que se ocorre a mudança no traço não degradam de forma alguma o desenvolvimento e o visual do filme; pelo contrário. Pra mim, foi muito satisfatório ver como permitiram aos animadores colocarem mais de sua própria identidade dentro de um filme tão importante como o suposto último filme de Miyazaki; e eles o fizeram com maestria! Fluídez e sentimentos convertidos em linhas e curvas de uma coleção de desenhos fortes e sólidos aliados com a clássica trilha sonora orquestral das produções do estúdio Ghibli serviram bem tanto para enfatizar as cenas de tristeza, de raiva, e de humor, de forma que se pudesse sentir o impacto de cada momento.
E, apesar de ser um muito agradável longa-metragem, sinto que o mundo fantasioso presente no filme, apesar de tão bem construído como foram os anteriores orquestrados por Miyazaki, oferecia pouca (senão nenhuma) contextualização para com sua ideia, seu sentido e seu significado. Por um lado, isso dá ao direito ao espectador de obter sua própria interpretação acerca do filme, mas por outro, para aqueles que não estão previamente acostumados com a forma como os fatos são apresentados nos outros filmes de Miyazaki, podem sair bem confusos da sala de cinema.
Pra mim, O Menino e a Garça é sobre aceitar a imperfeição, a mudança - e seguir em frente apesar disso. Se trata sobre aceitar você mesmo e o mundo como você vive e você mesmo de forma coletiva; ambos com suas imperfeições, feiuras e defeitos.
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