> # My Little Monster é um shoujo coming-of-age que tem uma boa ideia, mas uma pobre execução. De modo geral, curti os personagens e grande parte do desenvolvimento das relações interpessoais e da própria relação deles consigo em determinados momentos. Porém, a absurdez do humor físico e a personalidade ultramaneirista das personagens é algo que não me agradou muito. Veja, entendo que um shoujo romcom slice of life precisa dessas idiossincrasias para solidificar o mundo e os personagens, além de dá-lhes trejeitos e personalidades únicas, mas aqui sinto que o anime foca estritamente nisso, enquanto o próprio enredo parece coadjuvante num todo. Nesse sentido, a personalidade extravagante e vagueza do passado de nosso protagonista masculino, Haru Yoshida, é compreensível, narrativamente falando, mas isso sacrifica qualquer possível flerte com desenvolvimento mais sólido da personagem em prol do "humor", e no final da temporada, por exemplo, sentimos uma espécie de incompletude da trama, sendo até mesmo anti-climático, e isso prejudica em demasia a relação principal da série.
Por sua vez, nossa protagonista feminina, Shizuku Mizutani, é um caso curioso. Ela funciona ao longo do enredo e é bem sólida no que tange à suas motivações, personalidade e psique — vide o fato dela assumir grande parte das tarefas domésticas e herdar a personalidade fria e combativa da mãe como modo de defesa —, porém, quando o anime tenta emplacar um triângulo amoroso com Yamaken ou quando limita-se às "gags" de Haru batendo nela sem querer receio que a personagem perde muita substância e vira meramente um símbolo unidimensional do que ela é: uma garota que teme se abrir à pessoa amada — ou qualquer pessoa — e quando é posta frente à alguém tão diametralmente oposto simplesmente desmonta essa máscara por não saber como lidar com o sentimento. Isso esvazia a personagem, mas, no todo, não deixa-a irritante, porém, deixa a trama morosa e engessada à esse enredo cíclico. Isso, deixa a obra frustrante, pois, não sentimos que houve evolução no personagem e, tampouco, no relacionamento, afinal, tanto Haru, quanto Mizutani, são as mesmas pessoas desde o início e isso é, no mínimo, frustrante.
Desse modo, parece que o autor foge do melodrama — que é a oposição moral que gira nas relações entre as personagens, e nesse caso na resistência de Mizutani e na insistência de Haru — o que parece uma tentativa de prolongar a trama e sobrecarregar o enredo com diversas linhas narrativas e arcos de personagens que não findam, assim, tornam-se irrelevantes no todo, mas comumente há um foco nesses elementos para não chegar nos finalmentes com nossos protagonistas, afinal, ter um interesse romântico proativo e passional como Haru é uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo que trabalhar o melodrama ao máximo, também faz com que o autor fique refém desses transeuntes no enredo para que a história prossiga. Assim, a obra tem muita coisa, mas desenvolve quase nada. No mais, gostei da trama de Natsume, assim como da personagem em si, ela é a que possivelmente melhor apresentou diferentes facetas ao longo da série, e também gostei do Sasayan, embora ele seja bem apagado.

Não há nada excepcional nas personagens para além daquilo que citei na minha crítica. Receio que cada um cumpra seu papel na narrativa de modo eficiente para o momento em específico. O que todos possuem, em geral, é esse aprisionamento à sua piada e ao seu traço de personalidade característico, o que ceifa o desenvolvimento das personagens e da trama, assim como não dá oportunidade de criar nuances que engrandeçam a abstração que tiramos do elenco. De modo geral, personagens simples não necessariamente são unidimensionais, alguns podem funcionar como símbolo e outros podem nos engajar em como lidam com diferentes situações, tudo depende da prosa e da técnica do autor, mas aqui, infelizmente estão presos à seus arquétipos. Individualmente, receio que gostei de Yamaken — mesmo achando sua trama desconexa —, assim como achei interessante a trama Yuuzan Yoshida, irmão de Haru, mesmo que ambos sejam meramente "elementos ocasionais" para gerar conflito, esse que nem se desenvolve devido aos problemas citados acima. No mais, nada tão impressionante.

A direção de Hiro Kaburagi é excelente, pois, captura com veemência cada reação das personagens de modo bem íntimo e frontal e, claro, mesmo que não haja uma visão inovadora nessa performance creio que ele se saiu muito bem ao lado da equipe de animação, pois, para uma obra de 12 anos atrás ainda percebe-se o esmero dos realizadores e a utilização da fluidez, assim como da estaticidade, nos planos é bem impressionante. O trabalho dos seiyuū também estão excelentes, seja Haruka Tomatsu como Mizutani, cuja performance vocal é bem incisiva e explosiva, quando necessário, seja Tatsuhisa Suzuki como Haru, que é bobo e com a voz arrastada quando está ao lado dos amigos e de Mizutani, mas que, em situação de estresse ou perigo, muda para uma rudeza no grave da voz que funciona mui bem e, assim como os demais atores de voz, possuem um trabalho fantástico. O áudio, tal como a trilha, é funcional e cria de modo efetivo toda a atmosfera de slice of life que o anime precisa, o que auxilia no prazer geral na calmaria e pacateza estética, gerando um conforto ao assistir.

Em sua totalidade é um bom romance e, apesar dos pesares, cativa-nos e nos investe a acompanhar mais. Uma pena que muito do enredo é vazio e carece de desenvolvimento, mas é uma obra boa num todo e mantém-se coerente ao longo da narrativa. Recomendo, mas com certa ressalva.
18 out of 28 users liked this review