> # Para nós, humanos, o drama da morte e o peso da memória perpassa nossa espécie antes mesmo de nos entendermos como sociedade. Através da herança, passamos nossos conhecimentos adiante através de nossos descendentes e, assim, evoluímos como ser até agora, nos diferenciando dos demais animais, que repetem os mesmos passos de seus ascendentes e ocasionalmente supera-os meramente por instinto. Desse modo, há um fascínio da humanidade em superar seu estado natural, ou seja, superar a própria morte. Porém, será que a imortalidade é realmente um dom à ser conquistado? Afinal, as experiências que temos aqui só possuem valor porque um dia acabarão e seu lugar estará meramente no subconsciente de poucas pessoas e, daquelas mais influentes, entrarão nos anais da história apenas como símbolos. E esse é o drama de Frieren.
Na trama, a aventura do grupo de heróis acabou, e eles derrotaram o Rei Demônio, mas para Frieren, uma elfa quase imortal, a vida continua de forma desafiadora. Cada um dos antigos companheiros segue seu caminho em busca de uma vida tranquila, mas Frieren testemunha a passagem do tempo de uma perspectiva única e após a morte de um estimado companheiro, ela confronta seus sentimentos de perda e arrependimento por não ter estabelecido laços mais profundos com seus companheiros já falecidos. Então, ela toma para si Fern, uma jovem aprendiz humana, como protegida e, juntas, embarcam em uma jornada repleta de magia, revisitando os lugares do passado. Enquanto coleciona magias e conhecimentos, Frieren entrará a jornada de compreensão mais profunda sobre a vida, a mortalidade e o significado de suas experiências ao lado dos heróis que ela amou e agora honra através de suas memórias e ensinamentos.
O prólogo já conquista o espectador de primeira. O fato do início do anime ser o fim da jornada dos Heróis contra o Rei Demônio — tropo narrativo já conhecido por aqueles que consomem animes de fantasia ou Isekais — além de fundamentar a mensagem da preservação da memória e da continuidade de legado que a obra prega, é uma subversão de expectativa mui bem quista para mim. Nossa protagonista, constantemente retratada como uma figura distante e de poucas palavras, possui nuances tênues e quase tão inexpressivas quanto à personagem, mas com um peso narrativo mui forte e sólido para a obra. A imortalidade como maldição não é algo "novo no front", nem mesmo a exploração de dilemas da imortalidade élfica — vide as obras de J.R.R. Tolkien —, porém, como sempre digo, não é necessário inovar para fazer algo verdadeiramente bom, pois, trabalhar em seus limites e respeitar o espaço diegético com que se trabalha é algo tão louvável e artístico quanto revolucionar um gênero inteiro. Nesse sentido, a nova jornada de Frieren em busca de reencontrar Himmel toma um novo significado. Se ela não pôde aproveitar, ou cultivar, memórias com seus parceiros por focar no destino final, agora ela dedica-se ao máximo para entender os humanos, afinal, como ela mesmo fala, a próxima Era é deles. Assim, acompanhamos Fern e Stark, assim como várias outras personagens que vemos ora ou outra no caminho, mas, nunca se apressando ou cortando-os narrativa para seguir rumo ao Além, mas sim aproveitando cada percalço da jornada. Tudo isso melhora quando o próprio anime é um Slice of Life Iyashikei (癒し系), ou seja, não somente aproveitamos o momento na narrativa, como na estética e no ritmo.
Nesse aspecto, Sousou no Frieren é uma obra agridoce, pois cada episódio lembra a passagem de tempo usada como referência para a trama, não deixando que esqueçamos dessa tese em momento algum. Em contrapartida, o ritmo relaxante do Iyashikei abordando o cotidiano leve e casual, seja ajudando um cavaleiro velho ou limpando uma estátua para um senhor idoso, gera o contraste que torna a obra tão dolorosamente íntima e dedicada à mensagem. Porém, apesar dos méritos, a obra carrega consigo certos vícios do gênero que a faz perder sua identidade única. Com o intuito de "apimentar" o enredo, a obra emula sequências de ação extravagantes e épicas em demasia, muitas vezes, esquecendo-se do que faz a história brilhar de verdade. Algumas, como a do Stark contra o Dragão Vermelho, possuem um sentido coeso no desenvolvimento da personagem até o ponto de ruptura — aonde ele descobre que, na verdade, era muito forte —, mas outras, embora belas e empolgantes, destoam do resto e parecem meramente coladas na narrativa como uma espécie de "fanservice" aos aficionados por ação de fantasia, como, por exemplo, todo o arco de Aura e do enfrentamento de Fern e Stark contra Lügner e Linie. Não que sejam ruins ou desnecessários — até porque definir o que é necessário ou não de uma obra é papel do autor, não do crítico —, mas soa-me deslocado de todo o resto e, principalmente, da tese principal do anime. Há, é claro, uma construção no subtexto de que o potencial humano de superar os demônios será tamanho que sua Era, em breve, chegará — temor levantado principalmente pela personagem de Serie —, mas foi colocado tão precocemente na obra que verdadeiramente deixou-me confuso.

Possivelmente o ponto mais alto da obra. Cada personagem não somente tem sua relevância e sua própria problemática, mas também são interessantes e carismáticos, fazendo-nos comprar sua presença na trama e aproveitá-la na medida que, assim como Frieren, guardamos as memórias de sua passagem na história. Falando de cada um individualmente; nossa elfa com problemas de socialização dispensa apresentações. Acho que, na contemporaneidade, não há protagonista de anime que melhor explicita e toma para si a tese da obra que ela. O mais interessante, porém, mesmo com uma falta de emoções aparentes ela conduz a narrativa de uma maneira bem eficiente. Porém, receio que em determinados momentos sua personalidade torna-se débil demais para que possamos investir em sua jornada, por sorte, a obra também tem um elenco secundário que nunca a deixa cair no marasmo. Fern, por sua vez, é alguém que tenta emular a persona de sua mestre, mesmo que seja bem emocionalmente instável e com um espírito bem mais jovial. Ela é a quem inflama a maioria dos pequenos confrontos que ocorro na relação do grupo principal e, particularmente, gostei da personagem e principalmente como muito de Heiter vive nela já que, ao que tudo indica, ela será uma peça fundamental na fundação de uma nova era da magia já que tão nova é tão hábil quanto magos antigos e mais experientes; talvez minha única reclamação seja que a piada recorrente de sua chateação com Stark ou Frieren perca a graça em pouco tempo e, em certo ponto, sua birra, embora justificável pela idade, chateia. Stark é um excelente alívio cômico, aliás, ele é bem mais do que isso, mesmo que seja sua função primária. Muito de sua relação com seu potencial, juntamente ao seu passado com Eisen e sua família, é mui bem explorada e emocionante, assim como ele é carismático e um excelente amortecedor de tensões entre as moças. O princípio de romance que a obra flerta quase que o tempo inteiro entre Stark e Fern parecia, a priori, uma mera piada, mas, ao que tudo indica, realmente haverá um finalmente nesse flerte cômico e estou realmente investindo nesse romance singelo, mas íntimo, e como o anime vive sob a mensagem de herança e memória há um pouco de Himmel e Frieren neles, porém, espero que eles logrem esse romance. Como há diversos personagens interessantes, apenas irei me focar no trio principal, embora Denken, Himmel, Flamme e Serie realmente chamaram minha atenção, principalmente no valor simbólico de Himmel e Serie.

Keiichirou Saitou é uma nova aposta para se tornar um dos, senão o maior dos, diretores da atualidade. Ele é alguém que trabalha com veemência o Iyashikei, e transmite uma sensação de calmaria e fluidez não somente no ritmo e na animação, mas também na trilha sonora magnifica de Evan Call. Sua supervisão juntamente ao trabalho da staff da fantástica MadHouse solidifica a experiência e engrandece-a. A direção nas cenas de ação também são espetaculares. Várias vezes a alternância de perspectiva e os planos-sequência somados à animação lotada de sakugas e mudanças de efeitos de partícula tornam-nas narrativamente estonteantes e visualmente deslumbrantes. Mas, como citei parágrafos acima, meio que rompe com o texto da obra, pois ela trabalha em favor de apresentar uma experiência mais relaxada, mais fundamentada e com pouca mudança e, em última análise, mais emocionante. Claro, não estou aqui tentando aplicar juízo de valor fajuto para deslegitimar a perícia do diretor na composição da obra, afinal eu gostei e vibrei com as cenas, no entanto é um ponto que simplesmente não posso deixar passar batido.
Enfim, Frieren e a Jornada para o Além (Sousou No Frieren) é uma viagem íntima e dedicada ao peso da memória e do tempo. De como às vezes devemos pouco preocupar-nos com o fim, e sim apreciar a jornada, pois nela, construímos memórias e nelas é onde nós vivemos, e não morremos até que nossa herança desapareça. Uma obra fantástica e um grato respiro ao gênero de fantasia nos animes.
19.5 out of 25 users liked this review