
FICHA:
Gêneros: Drama, Slice of Life, Mistério, Comédia, Histórico
Estúdio: OLM (Komi-san wa Comyushou desu, Summer Time Render, ODDTAXI)
Diretor: Norihiro Naganuma (Mahoutsukai no Yome)
Material fonte: Light Novel
A temporada de outono de 2023 foi marcada por grandes estreias. É notório que o anime que mais roubou a cena foi Frieren que, de fato, é uma obra excelente. Porém, uma estreia tímida com uma performance de temporada contida e velada simplesmente conquistou minha curiosidade e ao assistir os primeiros episódios, simplesmente senti-me hipnotizado com o enredo e, principalmente, com o ritmo da narrativa. É claro que estou falando de Diários de uma Apotecária, uma obra singela que entrega uma experiência prazerosa e traga qualquer espectador à trama histórica. Nesse sentido, não posso deixar de dar meus dois centavos sobre uma obra que mescla romances palacianos, tramas políticas, investigações à la Agatha Christie e um bom humor que destila toda a tensão ocasionada pelos elementos citados anteriormente, em especial, por causa de nossa protagonista. Desse modo, vamos ao texto.
Adaptada da light novel homônima de Natsu Hyuga e Touko Shino, a trama se passa na China Imperial e acompanhamos Maomao, a apotecária do título, que viva tranquilamente com seu pai e suas irmãs do bordel "Casa Verdete" testando suas habilidades com fármacos e especiaria, isso até ser sequestrada e vendida como servente do Palácio Imperial aonde, no novo ambiente, usa a própria inteligência e astúcia para sobreviver, em meio às tensões de um local altamente hierárquico e político. O maior mérito da obra é, definitivamente, manter-se interessante ante a constância do ambiente e ao ritmo episódico. Não há trâmites que explicitem toda a situação e mente de Maomao de imediato, afinal, num drama histórico slice of life, aonde acompanharemos a passagem do tempo de uma maneira lenta e progressiva, é necessário que certos mistérios sejam postos logo de início para nos manter interessados sobre suas resoluções enquanto a obra segue com sua própria história. A obra é um character driven, ou seja, coloca o foco principal nos confrontos internos, nas motivações e crescimento pessoal do personagem, com o enredo muitas vezes sendo secundário em relação ao desenvolvimento dos personagens. As ações e motivações são moldadas por suas personalidades, valores e desejos únicos. Desse modo, seguimos o dia a dia de Maomao servindo às funções que lhe foram incumbidas e despertando o interesse de nobres, concubinas e funcionários do palácio devido sua diligência nas atividades e seu entendimento do lugar a qual ela pertence.
Afinal, Maomao é altamente inteligente, determinada e possui conhecimentos diversos para além da área de medicina, já que demonstra expertise em investigação também, mas o interessante disso tudo é que ela, mesmo sendo tão boa em tanta coisa, nunca está na vantagem. Como uma espécie de limitador, ela nunca finda as investigações ou suposições que levanta, pois, como uma mulher plebeia ela precisa lutar em seus limites e, mesmo que possua boa relação com várias figuras influentes do palácio, como o eunuco Jinshi e a Dama Gyokuyou, ela só vai até onde eles permitem ir. Isso é narrativamente brilhante, pois, além de colocar uma fraqueza fulcral em nossa personagem tão hábil e calculista, corrobora com o subtexto crítico sobre os papeis de gênero na China Imperial. Visto que, nas dinastias chinesas mais antigas, o sistema de harém imperial chinês era muito prevalente na configuração sociopolítica do país, e o palácio interior era a síntese do que uma mulher era naquela época, um objeto de decoração para ornar a figura do imperador e responsável pela prole que garanta a perpetuidade dele, com elas sendo manuseadas e distribuídas como presentes, afinal, era ao que a vida delas era dedicada. À vista, acho verdadeiramente intrigante que neste retrato fictício, salvaguardado pela licença poética do autor, do palácio interior vejamos as perspectivas das mulheres com frequência, seja resolvendo problemas, estando envolvidas na política do palácio, ou até mesmo cumprindo suas funções, mas sem perder sua personalidade, tudo de uma forma bastante ponderada.
Portanto, o trabalho de Maomao torna-se cativante na medida em que conhecemos os diferentes tipos de perspectiva feminina sobre àquela situação, pois, ela mesmo tenta negar vários traços de sua personalidade para adequar-se ao local, enquanto nota o quanto as outras personagens lidam com esses entraves e reflete sobre suas próprias ações. Porém, toda a tensão do local é, como citei anteriormente, dissipada pelo cotidiano leve e casual que a garota leva suas atividades. Sejam em missões mais elaboradas e difíceis, como a prova de comida, ou simplesmente ajudando o médico do palácio, Maomao encontra no cotidiano e nas pequenas liberdades cedidas por Jinshi uma vida bem atarefada, mas recompensadora, e isso cativa-nos à medida que os episódios passam. No mais, diria que minha única reclamação seria o desenrolar romance da obra. Eu sei que ele existe e que, possivelmente, Jinshi e Maomao serão um casal, mas creio que a indiferença da garota, fruto de sua personalidade comedida, torna todo o relacionamento um retrato da unidimensionalidade da paixão de Jinshi e, mesmo que haja momentos em que ela demonstre um certo apreço por ele, na maioria das vezes parece que ela só sente-se grata pela gentileza e liberdades que ele proporciona e nada mais que isso. Porém, não quero ser precoce e dá um ultimato à isso, pois sei que é a primeira temporada e ainda há muito a acontecer.
Aqui encontra-se o ponto alto da série. Cada personagem que conhecemos ao longo da trama possui um arco contido em si e externo a si. Por exemplo, a passagem da Dama Lihua não somente desenvolve sua história e personalidade, demonstrando as dores da perda do filho e sua degradação pelo luto, como de modo consecutivo trabalha o modo de como funciona a estrutura de criação de filhos no palácio e dá à Maomao acesso ao Palácio Cristal e respeito — ou temor — das demais damas de companhia. Isso gera um sentimento prazeroso de que tudo está onde deve estar, amarrado por um fio narrativo que não atraca o desenvolvimento da história e de Maomao. O mesmo vale para a trama de Lakan, que surpreendentemente tornou-se um de minhas personagens favoritas da obra, que subverte o modo de como ele é apresentado. Aliás, a subversão da trama e de personagens é algo mui frequente aqui. O próprio mistério das missões de Maomao auxiliam na construção do problema e da surpresa da revelação, o que nunca cansa o espectador. Falando de modo particular, não houve um personagem que achei ruim. Cada um deles são bem trabalhados e colocados na hora certa, não havendo "desperdício" de tempo de tela. Se eu for discutir individualmente cada um — que são muitos — ficaria um texto longo e prolixo, então resumirei minhas impressões sobre alguns.
As três princesas da Casa Verdete, Meimei, Pairin e Joka, são divertidas e particularmente adorei a interação delas com a protagonista, em especial Pairin.
As concubinas também são igualmente interessantes e cada uma possui uma personalidade única e um arco narrativo bem feito que as distingue de modo fantástico; nutri grande apreço por Gyokuyou, afinal passamos muito tempo com ela no Palácio de Jade, assim como adorei Lihua e seu episódio fantástico — que indiscutivelmente é o melhor da temporada —, Ah Duo e Lishu também foram interessantes, mas Loulan ainda é mistério.
Jinshi e Gaoshun são uma dupla dinâmica fantástica e engraçada. É interessante como rapidamente o anime quebra o tropo do personagem andrógeno lindo como Páris ser "frio e elegante", para alguém bobo de amor. Claro que não somente seu amor platônico por Maomao me fez gostar da personagem, pois, o ponto mais interessante até agora é justamente a sua história com o Imperador e com a Dama Ah Duo, e estou ansioso para o que vem a seguir.
Agora é a protagonista, Maomao, que faz à obra, e foi o principal motivo pelo qual adorei tanto desse anime. Ela é uma personagem principal tão cativante e insana, dotada de uma personalidade muito dinâmica e perfeitamente funcional para a diegese, que não há como não se apaixonar por ela. A junção de elementos de tão opostos de que funcionam de modo harmônico, como fofura e frieza, diligência e desajeito, numa única personagem é o que faz a série tão fantástica.
A direção de Norihiro Naganuma é eficiente e contida à dramatização que a obra apresenta e ele raramente ousa além do que a narrativa pede. Como alguém que já trabalhou em outras obras slice of life, como My Little Monster e Kimi no Todoke, ele tem muita expertise no ritmo e comando da atmosfera e trilha sonora para que gere um certo acolhimento para o espectador. A animação junto à fotografia torna esse anime um deleite aos olhos. Os episódios, mesmo semanais, não perdem a qualidade e ocasionalmente o diretor até utiliza ângulos improváveis e jogos de câmera diferentes para compor a necessidade da cena, como Maomao perseguindo Jinshi ou Lakan correndo na chuva atrás de Fengxian. Particularmente houveram três episódios que me deixaram impressionado, que foram, respectivamente, o episódo 6, o 19 e o 23, cada um em um determinado aspecto. O sexto pela quantidade de sakugas e fluidez na animação, necessário pelo senso de urgência; o 19 pela construção da tensão até o ponto de ruptura, com o trabalho excepcional na trilha sonora; e o 23 pela narrativa que mescla os dois elementos acima, animação e áudio, de maneira incrível na história de Lakan. Assim, o design de personagem de Touko Shino é belíssimo, por não somente criar estilos únicos e reconhecíveis para cada personagem, mesmos trajados em trajes iguais ou pertencerem à mesma "casta" ou profissão, mas por tornar quase fantástico a ambientação vívida e colorida da China Antiga. A trilha de Satoru Kousaki é tímida, mas eficiente, assim como a própria Maomao e em momentos-chave do anime, como os citados acima, ela simplesmente toma a encenação para si. Os Seiyū também estão incríveis em seus respectivos papeis, mas vale o destaque à Aoi Yuuki, que teve um desempenho espetacular para realçar os tons e nuances para combinar com a personalidade multifacetada da personagem, fazendo Maomao ganhar vida da melhor maneira possível.

Enfim, Diários de uma Apotecária é uma boa pedida para aqueles que curtem um romance de época ou um bom suspense investigativo. É uma aula de como criar personagens carismáticos e de como entreter e, principalmente, cativar àquele que dedica tempo à sua obra. Fazia tempo que não adorava uma anime assim!
32.5 out of 37 users liked this review