
FICHA:
Gêneros: Ação, Aventura, Drama, Sobrenatural, Demônios, Tragédia, Histórico, Shounen
Autora e Ilustradora: Koyoharu Gotouge
Capítulos: 207
Minha experiência com Kimetsu no Yaiba pode não ser repleta de emoção, mas reflete uma trajetória comum entre muitos fãs da série. Impressionado com a estética visual e cativado pela promessa de uma narrativa intrigante, decidi mergulhar no mangá para explorar mais a fundo o universo de Demon Slayer. Esta é a segunda vez que me aventuro pela história, e agora, munido de uma bagagem empírica e teórica mais substancial, pretendo analisar a obra sob uma nova perspectiva. Essa crítica será dividida em dois tópicos principais: O panorama geral e minhas opiniões sobre cada arco, ambas perfeitamente divididas. No mais, espero que entenda que isso é minha opinião sobre a obra e de modo algum estou aqui para anular sua experiência, e sim, discuti-la de modo a engrandecer o debate.
Assim, Kimetsu no Yaiba, "Demon Slayer", se passa no Período Taishō acompanha a jornada de Tanjiro Kamado, um gentil garoto que vende carvão, em busca de vingança e redenção após sua família ser massacrada pelo rei dos onis (demônios), Muzan Kibutsuji, restando apenas sua irmã Nezuko, transformada em uma das criaturas. Diante dessa tragédia, os dois irmãos partem em uma jornada para derrotar o Oni que matou toda a sua família. A história é dividida em vários arcos, cada um introduzindo novos desafios e personagens.
Podemos definir a história de Kimetsu como uma típica jornada de busca, vingança e superação, sendo Tanjiro a antropomorfização desse tropo narrativo, onde a cada arco da história conhecemos personagens que confrontam esse ideal e nosso protagonista fragiliza a personagem em questão e muda-a através de sua compaixão infinda e bondade inata — comentarei sobre as personagens depois. Assim, a obra é um battle shounen formulaico clichê que instiga no início e até diverte em certo ponto, mas, com o passar dos capítulos, torna-se um verdadeiro martírio a quem lê. Seja pela unidimenssionalidade das personagens, da arte inconstante de Gotouge ou pela repetição incessante da mesma estrutura a cada arco, não há nada nesse mangá que você já não vira anteriormente, melhor escrito, inclusive.
Diante desse contexto, posso afirmar que o pior de tudo é como Gotouge não sabe qual é o foco de sua história, sendo esse o calcanhar de Aquiles da obra. Somos apresentados a inúmeras backstorys, mas quase nenhuma delas possui uma função na diegese ou tampouco dão substância aos personagens, já que mostrá-las pelo "espetáculo" não fundamenta ou nos intimiza aos personagens de imediato, já que em uma obra onde o núcleo da narrativa são os personagens, é importante que os vejamos como eles são no momento, e não em um flashback. Mostra-nos como funciona a hierarquia do Esquadrão de Caçadores de Onis, mas não desenvolve nenhuma minúcia da família Ubuyashiki ou dos caçadores em si, a não ser alguns Hashiras. Não desenvolve o vilão principal e, de tabela, não elucida com veemência a jornada de Tanjiro em busca de sua vingança. Não explica as reais diferenças entre respirações para além do visual delas, o que para piorar é dito pela autora que é, meramente, um recurso representativo da obra. Põe-nos diretamente no Período em que a obra se passa sem solidificar um argumento sólido do por que ela se passa ali, ou de pelo menos criar implicações plausíveis com o governo da época. Enfim, não há nada na obra que não esteja incompleta ou improdutiva, e isso me chateia demais, pois mesmo no fim de tudo eu cria que ainda teria algo a mais.
Antes de partir para minhas considerações sobre cada arco, vou discutir sobre o elemento que mais me incomodou na leitura, além dos flashbacks: as respirações. Na obra, as "respirações" são técnicas de combate utilizadas pelos Caçadores de Onis para enfrentar e derrotar essas criaturas. Essas técnicas são, notoriamente, baseadas na respiração dos praticantes e são aprimoradas através de treinamento intensivo e domínio das habilidades específicas de cada respiração. Cada uma é associada a um estilo de luta único, geralmente representado por uma forma específica de respiração ou padrão de movimento. No caso de Tanjiro, ele possui a Respiração da Água e, posteriormente, a do Sol. O meu principal problema com esse sistema é a ausência de diferenciação entre elas. Claro, além do visual — que ao que parece sequer é visível na diegese da obra — não há uma funcionalidade vantajosa ou desvantajosa que as diferencie. Claro, podemos apontar que a Respiração do Trovão ,de Zenitsu, é a mais rápida de todas ou que a Respiração da Pedra, do Gyomei, causa maior dano devido à qualidade de sua Nichirin, mas, tanto essas, quanto as outras, parecem, na verdade, depender mais da performance física de seu usuário e da qualidade da katana que da respiração em si. Não vejo em momento algum Tanjiro sentir dificuldade por ser usuário da Respiração da Água, assim como não vejo desvantagem alguma em nenhum usuário. Há uma única forma diferente — que no caso não advém da respiração — que é a do Inseto, da Kocho Shinobu, que utiliza extrato de flor de Glicínia em sua lâmina, pois, já que é fraca demais para decapitar um Oni, o veneno enfraquece-os e desacelera seu fator de cura. Mas, a minha pergunta é: Por que não usar esse veneno em todas as lâminas? Isso é algo que Gotouge colocou tão trivialmente que demonstra o quanto ela não se preocupa com as questões mais complexas da obra, já que sempre prefere o superficial — e olha que esse é somente um dos problemas com veneno nessa obra. Isso pode parecer trivial, e de fato é, mas num mangá battle sounen de "poderzinho", esse elemento não pode ser negligenciado dessa maneira. Posso, assim, declarar que tal como seu "poder", Kimetsu é apenas um composto de símbolos visuais instigantes, mas sem substância alguma.
FICHA:
Arcos: Arco da Seleção Final¹, da Primeira Missão², de Asakusa³, da Mansão Tsuzumi⁴, da Montanha Natagumo⁵, da Reabilitação e Treinamento⁶.
Capítulos: 1 a 9¹, 10 a 13², Capítulos 10 a 13², Capítulos 14 a 19³, Capítulos 20 a 27⁴, Capítulos 28 a 44⁵, Capítulos 45 a 53⁶
Nota: 51/100
O início da obra é bem simples. Somos apresentados ao cenário e ao acontecimento que move o enredo e que apresenta as personagens. O encontro com o Hashira da Água, Giyu Tomioka, é interessante, afinal, mesmo sendo inicialmente frio tentando matar a Nezuko transformada ele ainda possui uma certa honradez ao permitir que o garoto defenda-a e uma certa raiva pela fraqueza dele. Aqui, já nos dá uma ideia de como vai se seguir o relacionamento de Tanjiro com quaisquer personagens que aparecer dali por diante, onde ele será sempre gentil e bondoso, mas quando a vida de sua irmã, e futuramente amigos, estão em perigo, ele fica furioso e passional. Tomioka é interessante e dá vontade de conhecer mais a personagem — algo que só veremos no final da obra. Logo em seguida ele encaminha Tanjiro à Sakonji Urokodaki, seu sensei e antigo mestre de Tomioka, ex-hashira da água.
Nesse momento somos apresentados a conceitos essenciais da obra, como as respirações, os Onis e as Nichirin. Os Onis, semelhantes aos vampiros europeus, alimentam-se de humanos e morrem quando expostos à luz solar, quando decapitados por espadas especiais chamadas Nichirin-tou (Espada do Sol), feitas com um mineral especial que absorve a luz do sol. Esses demônios são alvos dos “Demon Slayers”, caçadores especializados. O treinamento não é tão crível e, embora a autora indique o tempo que é gasto, não sinto este esforço todo por parte de Tanjiro, e isso repetir-se-á ao longo de vários treinamentos da obra.
As missões são dolorosamente entediantes. Seja contra os luas inferiores perseguidores em Asakusa, ou o Oni do tambor da Mansão Tsuzumi, ou enfrentamento contra a família de Rui, na Montanha Natagumo, tudo é tão pacato e desinteressante que não comentarei sobre eles — e por isso reuni-os aqui. Eu posso definir que as cenas-chave são, de fato impactantes, como a apresentação de Muzan, que é básica, mas funcional, e a apresentação dos Hashiras durante a reabilitação. Nesse período forma nosso trio principal: Tanjiro, Zenitsu e Inosuke. Eles funcionam entre si e, ocasionalmente, geram cenas divertidas, mas no que se refere a impacto dramático ou narrativo eles são bem ineficientes, em especial Inosuke — mesmo que seja meu favorito entre eles. O arco da Montanha Natagumo é um dos melhores, não só do início, mas da obra em si. É o único momento em que Gotouge soube dosar ação, sem cair na absurdeza ilógica e cansativa, terror, sem cair no body horror sem substância, e melodrama, sem ser piegas ou forçado. A história de Rui e sua família é verdadeiramente emocionante, tal como sua luta contra Tanjiro. De modo geral, posso definir esse início como decente.
O arco que inicia a sequência de "parcerias com Hashiras" com Tanjiro e sua turma é bem decente. Ele é, de fato, um mais longo e investe mais na "construção" do cenário da vez em comparação com os arcos anteriores da obra. Dessa vez, somos apresentados ao Hashira das Chamas, Kyojuro Rengoku, uma personagem carismática, mas, como tudo em Kimetsu, pouco explorada. Chega até ser um insulto o quanto Gotouge tenta forçar Rengoku aqui, especialmente em sua morte. Não que ele não seja gostável, porém, o vício da autora no hiperestímulo em detrimento do comprometimento emocional com ele simplesmente mata-o antes mesmo dele morrer. Porém, diria que aqui ela conseguiu criar um cenário convincente para demonstrar o nível de pode da obra, especialmente no confronto entre o Hashira, Rengoku, e o Lua Superior 3, Akaza.
No mais, o foco prolongado na batalha contra o demônio Enmu dentro do trem estende-se além do necessário, resultando em um ritmo um pouco arrastado e torturante durante o desfecho que antecede luta entre Rengoku e Akaza. Certos aspectos da luta final foram resolvidos de maneira conveniente demais, sem a complexidade ou desenvolvimento que poderiam ter sido explorados mais profundamente, como, por exemplo, a dualidade de pensamento entre os lutadores, já que ambos são mui parecidos em mentalidade, mas seguiram por caminhos diametralmente opostos. O que é pior quando esse momento era, inicialmente, um embate épico e trágico, mas não temos conhecimento suficiente sobre as personagens para entregar-nos à catarse sintética que a autora quer que você sinta. Porém, sua importância na progressão da história e na jornada dos personagens principais é inegável e Rengoku é uma personagem que marcou bastante Tanjiro e sua turma.
FICHA:
Capítulos: 70 a 97
Nota: 70/100
Essa é uma parte crucial da série, sendo facilmente a melhor, que oferece uma mudança de cenário refrescante e uma expansão significativa do universo para além do campo e cidade de modo genérico. Pois aqui, nossos personagens se juntam ao Hashira do Som, no distrito de Yoshiwara, uma cidade noturna que gira em torno da prostituição, para resgatar as três esposas do caçador. Lá, eles descobrem que a cidade é controlada por uma dupla de irmãos onis, Daki e Gyutaro, que juntos representam a Lua Superior Seis, ou seja, o sexto capanga mais poderoso do grande vilão Muzan Kibutsuji.
Uma das maiores qualidades deste arco é a maneira como ele mergulha no local mais fundo, sombrio e sexual da sociedade humana, sem perder a essência da obra. A leveza como Gotouge leva a narrativa, especialmente pelas piadas de cada personagem do trio funcionar mui bem em cada casa que são colocados, se deve principalmente pela escolha de Tengen Uzui para liderar essa trama. Ele é alguém que, diferentemente de Rengoku, é bem explorado e como ele é "somente um personagem", Gotouge consegue dar a dramatização necessária para compor a personagem sem roubá-la de Tanjiro e sua turma. Na verdade, diria que até a engrandece. Toda a extravagância da personagem revigora o elenco de personagens tão chatos e melodramáticos que estávamos acompanhando, e toda a trama investigativa e o mistério em torno dos luas superiores criam um clima interessante para todo o arco até chegar no ponto de ruptura, que é a descoberta dos dois, aonde começa ação, que dessa vez possui significado plausível para tal.
Além disso, pela primeira vez, a autora soube como equilibrar inúmeros elementos e sensações de uma só vez, sem perder o fio narrativo. As cenas tristes são rapidamente sobrepujadas por momentos cômicos e as lutas passam por momentos alegres, tensos e até flashbacks melancólicos. Tudo isso funciona aqui, e creio que só funciona por causa da extravagância de Uzui e da seriedade bondosa de Tanjiro, que formam uma dupla crível e hilariamente carismática. Felizmente, um arco fantástico.
FICHA:
Capítulos: 98 a 127
Nota: 15/100
Este arco é decepcionante do início ao fim. É difícil encontrar motivação para discuti-lo, dada a sua qualidade tão abaixo do esperado. A história nos leva à remota Vila dos Ferreiros, um local tão obscuro que nem mesmo os Hashiras têm conhecimento de sua localização. Durante este arco, acompanhamos a Hashira do Amor, Kanroji Mitsuri, e o Hashira da Névoa, Tokito Muichiro, enquanto as forças de Muzan se reúnem para planejar a invasão da vila.
Apesar dos problemas do arco, a introdução de Muichiro e Mitsuri é relativamente competente. Especialmente notável é o desenvolvimento de Muichiro ao longo do arco, refletindo tanto em sua evolução como espadachim quanto em sua personalidade. A relação de respeito que se forma entre ele e Tanjiro é convincente e comovente. No entanto, Mitsuri é lamentavelmente subdesenvolvida, servindo principalmente como objeto de sexualização e alívio cômico devido à sua ingenuidade e ignorância. Apesar disso, ela possui um charme próprio e, felizmente, não depende de um passado trágico para se destacar na trama. Os Onis superiores são tão esquecíveis que sequer gastarei caracteres sobre eles, então resumírei-los a patéticos.
O pior aqui está em seu impacto na trama. Nezuko conquista o sol no final do arco, sem nenhum motivo aparente e servindo apenas para acelerar o final, por meio da cena mais piegas e ridícula que já li num battle shounen. Ainda há a substituição da respiração pela marca do caçador, que é um mero artifício de roteiro que, de modo artificial, alavanca a trama para facilitar nossas personagens. Claro, isso pode parecer irrelevante, mas não é natural ler um battle shonen que introduz um novo sistema de poder e simplesmente “ignora” o anterior, o que mais uma vez corrobora com minha tese que a respiração em Kimetsu é algo mui inútil — e ainda piora.

Bem, é um arco de transição interessante, sendo uma pausa na loucura narrativa que acompanhávamos, mas não há nada para se discutir. Talvez, possa citar o início do desenvolvimento de Sanemi e Gyomei, além de mostrar o reencontro dos outros Hashiras com nosso grupo e um entendimento a mais sobre a personagem de Tomioka, que toma forma como personagem, mas nada muito relevante.
Esse é o segundo melhor arco da série, sendo a primeira parte da saga final de Kimetsu. No início da batalha final, Muzan cai em uma armadilha de Kagaya Ubuyashiki, o líder do Esquadrão de Caçadores de Onis, e ele fica encurralado pelos Hashiras e Tanjiro. Entretanto, todos eles são pegos pelo Castelo Infinito, a base secreta de Muzan e as Luas Superiores, que está sob controle de Nakime. Com Muzan impossibilitado de agir, o arco é uma corrida contra o tempo dos caçadores para encontrar o rei dos Onis enquanto está fragilizado. Esse arco é promissor, porém, sofre com uma quebra rítmica na narrativa que simplesmente destrói grande parte da experiência. Isso se deve, exclusivamente aos flashbacks. Como Gotouge não desenveolveu suas personagens anteriormente, ela precisa desses histórias para dar sentido aos confrontos , o que ocasiona truncamentos constantes no ritmo, a priori, frenético e contínuo do arco. Há, no geral, 5 lutas no arco, as quais comentarei uma a uma abaixo.
Primeiramente temos o encontro de Kocho Shinobu com a Lua Superior 2, Douma. A batalha possui um tom pessoal, afinal, Douma é o oni que matou sua irmã, enquanto o monstro quer tornar-se íntimo à Hashira por ela despertar sentimentos "estranhos" para além da vontade de devorá-la por que ela é mulher. A luta em si é interessante. Vemos a ação da Hashira e sua velocidade ante aos Kekkijutsu de Gelo do Douma, porém, não me cativei muito com o vilão, já que ele é construído, inicialmente, para ser um rival pessoal porque ele não se sustenta como um personagem por si só. Todo seu flashback e todas as suas motivações são caricatas e não dão credibilidade à ele como vilão. Surpreendentemente, ele ganha, tornando a morte da Hashira algo verdadeiramente grotesco e sandio, especialmente pela conotação romântico-sexual que Douma sente ao devorá-la e tornar-se parte dele. Há um segundo round no confronto, onde Kanae e Inosuke o enfrenta e até que é uma luta bacana e bem ritmada, mas, como uma espécie de tentativa de desenvolver Inosuke no final, nos é revelado o Douma também é o oni que matou a mãe do javali também. Isso é algo tão forçado e plástico que sequer tive reação quando li, chega a ser desgastante o quanto Gotouge tem preguiça de escrever as personagens. Por sorte, o mesmo não ocorre com Kanae, que possui um motivo crível para lutar e até sacrifica parte de sua visão — sendo mais um artifício narrativo retirado do além — para derrotar o Lua. Seu final é interessante, pois é uma morte de envenenamento para alguém que era da "realeza" que invoca até um Buda de gelo para lutar por ele, sendo assim alguém que sucumbiu ao veneno do Apego e um nobre que morreu envenenado. É uma personagem medíocre, bem trabalhado em poucos pontos.
No intervalo entre as lutas de Douma temos Zenitsu vs Kaigaku. Era uma luta que tinha potencial para transformar Zenitsu em uma boa personagem, afinal, a história dele com seu sensei e do confronto com Kaigaku é verdadeiramente interessante. É realmente surpreendente ver Zenitsu agindo de uma maneira diametralemte oposta ao que ele é, finalmente assumindo o manto de usuário de respiração do trovão ao criar uma nova forma, mas toda sua transformação é tão súbita e artificial que nem dá para sentir muita coisa — sem contar que ele prossegue sendo chorão e tarado, transformando tudo isso num mero lapso de desenvolvimento de sua personalidade, como se somente servisse à narrativa. Já Akaza vs Tomioka e Tanjiro é interessante. Agora apresentado, Akaza pode desenvolver-se durante o confronto e a mescla entre dois usuários de Respiração de Água trabalhando juntos contra aquele que matou um amigo tão quisto à eles, como era Rengoku. Ela é decente, assim como o final da personagem funciona naquilo que ele se propõe — que seria a honra entre homens e a filosofia do mais forte —, afinal ele entende que não há como honrar aqueles que partiram sendo algo tão desonroso quanto um Oni. Temos, a luta de Mitsuri e Obanai com Nakime, mas essa é tão ridícula e fora do tom narrativo que me recuso a comentar.
Por fim, chegamos na melhor luta de kimetsu: Kokushibo vs Muichiro Tokito, Genya Shinazugawa, Sanemi Shinazugawa e Gyomei Himejima. Cada personagem aqui — com exceção de Genya — são excelentes para demonstrar o sentido da luta, que seria o confronto entre Ápice e Decadência da honra e batalha. Kokushibo, era, originalmente, um humano chamado Michikatsu Tsugikuni, que viveu durante o período Muromachi no Japão. Essa diferença temporal marca a diferença dele para com os desafiantes, tanto em força — como Oni e espadachim —, quanto em refino de suas técnicas, afinal ele criou uma variação única da respiração do sol através de seu Kekkijutsu. Desde novo até torna-se Oni, ele vê-se atormentado pela decadência e pelo complexo de inferioridade que o engole, em especial por ser irmão do maior espadachim e caçador de Onis da história. Por isso, ele mostra um profundo respeito pela força e habilidade de seus oponentes, embora também seja impiedoso ao enfrentá-los. Sua lealdade a Muzan é inabalável, e ele está disposto a fazer qualquer coisa para garantir a sobrevivência dos Onis. Apesar disso, Kokushibo luta internamente com sua humanidade passada, como citei. Essas visões e lembranças de sua vida anterior, somadas com o confronto com os Hashiras, finda sua derrota. Sua história com seu irmão gêmeo, Yoriichi, além de tocante demonstra que Gotouge, quando quer, sabe fazer um bom flashback. Devo admitir que quando vi Yoriichi morto em pé para logo em seguida ser morto pelo seu irmão demônio, me emocionou demais, e até me fez derramar uma lágrima — assim como na cena da flauta. O mais interessante é que Kokushibo, em seu auge, estava decadente em aparência, um verdadeiro monstro, por isso ao ver seu reflexo ele entende, que não eram os Hashiras que eram decadentes, e sim ele, afinal, trocou sua vida por poder, virou um Oni para manter-se no auge, para no fim entender que o tanto que ele sacrificou não era suficiente para cobrir o preço da monstruosidade. Além de toda a parte simbólica da luta, ela em si é bem quadrinizada. Por ser um espadachim, e usa respiração, Gotouge consegue fazer que nossos olhos deslizem pelos golpes e pelas páginas, sem contar no nível de dificuldade que o Lua 1 apresentou para espadachins tão formidáveis quanto eles. Simplesmente fantástico.
Objetivamente, o final é péssimo. Muzan não sustenta o peso de ser a "ameaça final", tampouco é um símbolo diegético crível de oposição a tudo que Tanjiro é. A sequência final é lotada de sacrifícios sem peso e cenas mortas, que não me causaram nada. Até mesmo o momento dos caçadores lançando-se entre as chicotes de carne de Muzan para salvar os Hashiras, que era para ser um momento emocionante, fica forçado em meio a velocidade, conveniente, que Gotouge implica aqui. Conveniente, pois nesse final os Hashiras devem tentar sobreviver para segurar Muzan até o nascer do sol e, no início, parecia uma atividade hercúlea e até mesmo impossível, já que passam capítulos e mais capítulos e somente meia hora havia se passado — sendo que faltava 1h30min para o nascer do sol. Mas, claro, é somente Tanjiro chegar que o tempo começa a correr, e tudo se resolve. Porém, não se resolve com respiração, técnica demoníaca ou marca do caçador, na verdade se resolve da maneira mais — perdoem-me a falta de decoro — porca e imbecil possível, que só Kimetsu sabe fazer, que é por meio de flashback e veneno.
Já não bastasse os flashbacks que basicamente servem para perder página, não agregando em nada na história, aqui novamente surge como facilitador artificial da narrativa, respondendo diretamente a Tanjiro o segredo da respiração do sol, e dando-lhe, do mais absoluto nada, a desculpa de ser "O Escolhido" já que Yoriichi passou a respiração para os ancestrais de Tanjiro e eles mantiveram-na viva através da dança. Em seguida vem o veneno místico de Tamayo, o maior dispositivo de roteiro artificial da obra, já que resolve tudo. Houve um momento em que eu, genuinamente, pensei que era alguma piada. Muzan primeiramente é afetado pelo veneno que enfraquece, mas não, na verdade tinha o veneno que envelhece, mas calma que ainda tem o veneno que dissolve a carne e... é sério? O vilão final, cujo reino de terror era infidável e que nenhum Hashira sequer conseguira matar um de seus subordinados durante um século inteiro foi derrotado, não por técnica, mas por veneno? Chega a ser um insulto a capacidade de suspensão de descrença do leitor. No fim, após o desfecho patético do bebê Muzan, ainda há o Tanjiro Oni, para Gotouge ter certeza que se você não chorou com as mortes dos Hashiras, você chorará ao ver Tanjiro deformado e machucando seus amigos, para logo em seguida ser curado.
E, para finalizar com chave de mercúrio, ela ainda entrega-nos um timeskip para os dias atuais mostrando os descendentes, ou reencarnações, dos nossos heróis no Japão contemporâneo. Assim termina Kimetsu, uma obra vazia que gerou-me uma experiência mista, embora tenda a condená-la como algo verdadeiramente ruim.

As personagens são unidimensionais e pouco intuitivas, sendo símbolos vazios de clichês do gênero, servindo meramente como elementos da narrativa que ocasionalmente auxiliarão no desenvolvimento de Tanjiro. Nesse tópico, vou falar falar sobre eles, priorizando as personagens principais da trama e comentando, por cima, as demais personagens em grupos.
Tanjiro é retratado como um jovem gentil, compassivo e determinado. Personagens assim, comumente, caem no gosto do público pela idealização da bondade que eles geram, e Tanjiro é tão preso ao argumento inicial que move sua personagem que não há nenhuma abstração a mais para tirar dele — o que por si só não é ruim. Mas, por que estou falando somente desse traço do Tanjiro? Simples, ele é a representação, em personagem, da obra em si, funcionando como uma verdadeira espinha dorsal. Mas, parece que Gotouge esqueceu de criar todo o resto para validar sua personagem, pois ele é um protagonista decente. Ele flerta com alguma espécie de desenvolvimento de personagem, com o texto dando a entender sua dor e as nuances em sua personalidade quando ele é colocado em situações que balancem seus ideais ou quando ele é posto a opinar contra discursos mais inflamados de seus pares. Veja, as personagens estão sempre a procura de algo, como se faltasse objetivo nelas, mas Tanjiro não está a procura de nada, afinal, ele já tem um objetivo traçado, consolidando sua personagem, tornando-o altruísta e cativando as demais personagens. Não é à toa que, por ser bem resolvido e austero em seu modo de vida, ele é um notório espadachim e transpassa as barreiras que lhe são impostas, pois seu objetivo é bem maior que elas. O problema é que, em dado momento, a obra fica tão cíclica que esse texto, interessante, não vai para frente. Assim, ele torna-se uma personagem bem desinteressante.
Zenitsu é retratado como um jovem espadachim inseguro e covarde, mas com um potencial oculto e um talento extraordinário quando se trata de técnicas de respiração e habilidades de combate quando dorme. É uma personagem irritante na maioria das vezes, limitando-se a sua carência por afeto feminino, principalmente à Nezuko, e sua covardia inata. Nas mãos de um bom roteirista, a covardia de Zenitsu seria interessante para gerar um confronto dele ser um empecilho para seus amigos, onde teria que superar, mas, aqui, ele apenas dorme e está tudo bem. O pior é que seu estado de sonolência sequer causa algum efeito negativo à ele ou aos próximos, o que criaria uma limitação à personagem, pois ele continua falando, pensando e agindo normalmente mesmo dormindo. Ao que parece, Gotouge queria insistir nessa piada do Zenitsu e não sabia quando parar, ou pelo menos acertar o timing cômico, e isso gera um preço grave nas lutas mais sérias da obra. O momento em que o personagem, subitamente, melhora é em seu confronto com o Kaigaku, que realmente foi surpreendente e até satisfatória, mas já era o penúltimo arco da série e o estrago já estava feito — sem contar que, após esse fato, ele permanece chorão mesmo no confronto final.
Inosuke é retratado como um espadachim selvagem e destemido, com uma personalidade extremamente peculiar e uma aparência selvática. Ele é limitado a ser o alívio cômico do grupo — mesmo que quase todo mundo também tenha essa função — o que implica dizer que se ele não for engraçado sua personagem, praticamente, inexiste. Por sorte, ele é engraçado, e sua ignorância advinda de sua criação na mata é verdadeiramente interessante. Não tenho muito a falar sobre ele, pois nem a obra aprofunda-o, mas dentre o trio é o que eu mais gosto.
Nezuko é uma das personagens centrais da obra, afinal, sua transformação em Oni é um ponto crucial na história, pois desencadeia a jornada de vingança e redenção de Tanjiro, bem como a busca para curá-la e restaurá-la à sua forma humana. Mas, ela é basicamente isso mesmo, um artifício de roteiro para validar a jornada do protagonista. Ela passa a obra inteira dormindo e ocasionalmente aparecendo para murmurar com o bambu na boca, e quando não é isso, está agindo em função do roteiro porco para mudar bruscamente a obra do jeito que Gotouge quer, como um tapa buraco no enredo. Seja quando consegue a habilidade de virar um Oni tão forte que bate de frente com Lua Superior, ou do fato de superar o sol, sem motivo algum — e não tem nada haver com a linhagem de sangue, pois não há explicação da obra —, na verdade diria que ela é uma personagem, assim como Genya, que contraria a lógica diegética da transformação em Oni, já que ambos podem, aparentemente, transformarem-se em Oni e ficar tranquilos com isso. O caso do Genya chega a ser ainda mais problemático, pois poderíamos argumentar que Nezuko possui algum sangue especial, mas Genya simplesmente come partes de Onis e miraculosamente ganha os bônus sem o ônus de ser um Oni temporário. Sinceramente, não acho nada da Nezuko. Não sinto raiva, amor, tristeza ou curiosidade pela personagem, pois, ela somente existe. E ponto.
Muzan é um antagonista ruim. Não acho que consiga comentar algo além disso. Ele é um simulacro do vilão que quer a imortalidade por medo de velhice e nada mais. Não que ele precise romper com o clichê ou desconstruir o tropo narrativo, mas, sinceramente, ele é alguém tão ausente na obra que nem dá para comentar sobre o que ele é em si. Temos somente um pequeno flashback e fragmentos de sua personalidade nos encontros de outrem com ele, mas nunca vemos quem é Muzan Kibutsuji. Tudo o que ele tem é "promessa". Esteticamente ele é estiloso e comumente é colocado em situações que demonstram sua malignidade e força ante as personagens, mais fracas, porém ele só limita-se à isso. Posso definir a personagem na oscilação da raiva vinda da frustração, seja de um plano que falhou ou de uma situação que lhe dê desvantagem, e da aura de terror que ele ocasiona nos outros. Tudo nele é tão genérico e pasteurizado que sequer dá para inventar uma abstração mais poética sobre a personagem.
Os Hashiras formam uma organização crível e bem coordenada. Apesar das vicissitudes de cada personagem, individualmente, creio que como grupo eles funcionam e possuam, talvez, o melhor senso de equipe numa organização desse tipo em um battle shounen. Individualmente, gosto bastante de Sanemi, Tengen, Gyomei e Tomioka, pois cada um conseguiu brilhar no pouco tempo de cena que possuem na obra. Nutro certo carinho por Tokito, afinal ele realmente tem um desenvolvimento interessante e torna-se um personagem bem sólido. Quanto aos demais, Shinobu, Obanai, Rengoku e Mitsuri, creio que fizeram seu papel narrativo, e só; não sinto absolutamente nada sobre eles.
Os Luas Superiores são uma organização peculiar. Assim como os Hashiras, e a maior parte das personagens, a força e a imponência depende de como Gotouge os utilizará na trama. Dentre os seis, podemos destacar somente os três primeiros Luas, Akaza, Douma e Kokushibo, respectivamente, os quais já comentei acima. Infelizmente, o ritmo frenético e a despreocupação narrativa rapidamente minou qualquer possibilidade de imponência que eles poderiam desenvolver, ficando apenas na conversa que "eles são amedrontadores" e que "mataram inúmeros Hashiras", quando na verdade vemo-nos apanhando para crianças. O senso de unidade é inexistente no grupo, e parecem que são meramente "mini-chefes" individuais de algum jogo de ação genérico.
Uma das características mais marcantes da arte de Koyoharu Gotouge é a habilidade de criar expressões faciais extremamente emotivas e caricatas de modo que funcione, em certos aspectos, com a mensagem catártica e melancólica da obra. Inicialmente, há um amadorismo perceptível no traço que demonstra o desconhecimento de, principalmente, composição de páginas. No começo, os efeitos das respirações tendiam a sobrecarregar os quadros, dificultando a leitura dos balões de fala, principalmente durante as lutas. Isso ultrapassava a sarjeta, que entendo que é utilizada para aumentar o impacto e facilitar a compreensão do ato, como é feito em "Dragon Ball", de Akira Toriyama. No entanto, aqui, essa técnica poluía a página e obscurecia a cinética do confronto.
Felizmente, com a prática, Gotouge demonstrou uma grande curva de aprendizado, aprimorando sua habilidade na representação de movimento e ação em suas ilustrações, especialmente após o arco do Trem Infinito. Os combates tornaram-se dinâmicos e fluidos, transmitindo um intenso senso de energia e impacto que me manteve completamente imerso na ação. No entanto, a coreografia das lutas ainda é um ponto fraco. É evidente que certos poderes são demasiadamente complexos para se misturarem com katanas, como os Kekkijutsu. Como resultado, a maioria deles se limita a ataques singulares ou a uma saraivada de golpes aleatórios, em vez de ataques mais elaborados e contínuos, que poderiam ser mais explorados em batalhas contra adversários como Gyutaro, Douma e Akaza.
Um outro aspecto notável da arte de Gotouge é sua habilidade de caracterização de personagem. Cada uma é distintamente desenhada, com traços físicos e estilos de vestimenta que refletem sua personalidade de modo frontal e lúdico. O ponto fraco fica na dimensão espacial do desenho. Por muitas vezes não sinto o cenário com as personagens e tampouco sua interação com elementos pertencentes a ele, o que dá uma sensação de não pertencimento ao local. Poderia dizer que, por exemplo, em duas lutas houve uma boa construção espacial do confronto, que seria na luta contra o Lua 6 e a luta contra o Lua 1, mas nada disso chega a destruir a experiência. Enfim, o traço de Gotouge é bem reconhecível e possui seus altos e baixos, mas, serve para a narrativa e consegue criar expor mui bem sobre o que é a obra. Não é uma obra prima ou um conceito foda, só é decente e melhora com o tempo.

Kimetsu no Yaiba pode inicialmente atrair o público com sua premissa instigante e cenas de ação empolgantes, mas com o passar dos capítulos, a falta de desenvolvimento significativo dos personagens e a fórmula clichê do gênero battle shounen acabam minando o interesse do leitor. A obra, embora tenha seus momentos de diversão e entretenimento, eventualmente sucumbe ao peso de seus próprios tropos narrativos, tornando-se uma leitura desafiadora e, no meu caso, frustrante.
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