FICHA:
Gêneros: Drama, Psicológico, Romance, Coming of Age, Denpa, Shounen
Autora e Ilustradora: Shuuzou Oshimi
Capítulos: 58
"Aku no Hana", conhecido também como "Flores do Mal", é o mais novo título que li pela primeira vez na passagem do ano passado para esse ano. É uma obra que mergulha nas profundezas da psique e do desenvolvimento do adolescente, explorando temas de alienação social, desejo e autodescoberta em um cenário sombrio e introspectivo. O que senti lendo essa obra foi algo verdadeiramente desafiador. Não pelo cansaço narrativo, tampouco pela abordagem da perversão moral e sexual, mas sim por remeter-me à um passado próximo. Todos nós já passamos pelo sentimento de não pertencimento, em especial na adolescência, há aqueles que esforçam-se para encaixar-se no local que querem que ele esteja e há aqueles que se rebelam, gritam, transgredem as normas sociais como uma espécie de protesto, um grito de socorro ao medo de "perder o que faz ser você". Por isso, creio que a obra tenha um apelo popular, especialmente aos jovens, pois ela, de fato, trabalha mui bem a adaptação compulsória em moldes pré-estabelecidos da sociedade. No entanto, tenho certos problemas quanto a narrativa e a mensagem, embora compreenda o que Oshimi quer dizer, mas desenvolverei melhor no texto.
Na trama, Takao Kasuga é um estudante do ensino médio que se vê preso em um ciclo de autodesprezo e alienação. Sua obsessão por uma colega de classe, Nanako Saeki, leva-o a cometer um ato impulsivo de roubar sua roupa de ginástica, onde ele é pego por Sawa Nakamura e torna-se refém da chantagem da garota ao aceitar um "contrato" imposto por ela, o que desencadeia uma série de eventos perturbadores e pervertidos. O relacionamento tenso entre Kasuga, Saeki e Nakamura, serve como o cerne da história, explorando temas como desejo, culpa, sofrimento e redenção. Nesse sentido, o início da história acaba sendo a parte menos envolvente desta obra, não por ser desinteressante ou monótona por si só, mas porque inicialmente não revela muito, servindo apenas como uma apresentação rápida e direta do trio e de suas respectivas personalidades. O arco inicial serve de estopim para mostrar a vida de Kasuga em seu próprio sofrimento, dor e “luxúria” para conseguir um entendimento pleno da sociedade e alcançar uma liberdade real, no entanto, definhando pouco a pouco durante o processo, até o ponto de tornar-se, na metade do mangá, uma verdadeira “monstruosidade social”. As outras personagens, Saeki e Nakamura, servem como catalisadoras do desenvolvimento de Kasuga, inicialmente, por isso creio que durante uma boa parte dos capítulos, enxerguei-as como meros elementos narrativos ao invés de personagens em si.Aliás, o fato de haver a poesia que dá nome à obra, de autoria de Charles Baudelaire, inserida no enredo, resulta em uma névoa de subjetividade que permite ao leitor tirar suas próprias conclusões sobre os acontecimentos e as motivações dos personagens. Elementos como a metáfora das flores negras abrindo e fechando os olhos, como se julgassem ou escolhessem o que ver, adicionam camadas de profundidade ao texto. Essa riqueza subtextual pode, em certos momentos, sobrepor-se ao texto, proporcionando uma experiência de leitura ainda mais complexa e intrigante. Porém, com o passar dos capítulos, Oshimi consegue elucidar muito bem cada problema das personagens, os quais irei comentá-los abaixo.
Desse modo, afirmo que a construção da personagem de Saeki é profundamente enraizada na dinâmica familiar japonesa, onde filhos são frequentemente instruídos a sacrificar suas próprias vontades em prol do bem-estar e da reputação da família. Nesse sentido, Saeki é apresentada como alguém que, ao longo de sua vida, busca preencher um vazio existencial, semelhante ao experimentado por Kasuga. Sua jornada é marcada por uma busca incessante por validação externa, seja através de conquistas acadêmicas ou talentos artísticos, todos destinados a satisfazer as expectativas impostas por seus pais e pela sociedade em geral.
Ela é uma pessoa sem substância que, por inércia ou força, nunca achou o real sentido de sua existência e quando teve contato com seus verdadeiros sentimentos através de Kasuga e Nakamura, pôde confrontá-los e entender a si própria, dando início ao seu amadurecimento. Minha principal crítica vai ao quão súbito foi a mudança quando a vemos de novo na obra, algo que se repete com a maioria das personagens, em especial no pós-timeskip.

Kasuga não é uma pessoa memorável. Sua persona é delineada por uma profunda alienação em relação à realidade, onde encontra refúgio nos livros como uma forma de escapismo do mundo ao seu redor. Nesse contexto, Saeki surge como uma musa inalcançável, um símbolo de seus desejos e prazeres, que ele idolatra de longe. No entanto, há uma dualidade intrínseca na percepção de Kasuga sobre si mesmo. Por um lado, ele se vê como alguém errado, um pecador, cujo desejo de possuir as roupas de Saeki se torna um fardo pesado que só ele, o pecador, pode suportar. Por outro lado, ele se esforça para manter uma vida de escapismo, temendo perder o conforto de sua existência pacata. Para evitar o tédio e preencher o vazio em sua vida, Kasuga deposita nos outros — Saeki, Nakamura e, posteriormente, no romance com Tokiwa — a sua razão de existir. No entanto, ele se acovarda diante da responsabilidade de enfrentar seus verdadeiros sentimentos, temendo que isso possa abalar sua zona de conforto e mudar sua percepção sobre si mesmo.
Este confronto intrínseco na jornada de Kasuga em "Aku no Hana" não apenas alimenta seu desenvolvimento como personagem, mas também representa sua emancipação rumo à maturidade. Ao longo da narrativa, Kasuga é retratado como alguém que carrega o peso de sua culpa e desejos reprimidos, incapaz de confrontar suas próprias emoções e assumir responsabilidades emocionais. Particularmente interessante é sua relação complexa com Nakamura, sua "algoz". Apesar de ser constantemente desafiado por ela e chamado de pervertido, Kasuga parece nutrir uma espécie de paixão não convencional por ela, possivelmente porque nunca tinha encontrado ou sido tão íntimo de uma garota como fora com ela,. Esse relacionamento perturbador desempenha um papel crucial em sua jornada de autodescoberta, para que ele se destrua por completo, até o ponto de se reconstruir, levando-o ao ponto mais baixo de sua vida durante o festival.
No entanto, é após esse evento traumático que Kasuga e a obra alcançam seu ápice de interesse. Três anos se passam, e Kasuga continua preso ao passado, incapaz de seguir em frente até encontrar Tokiwa. O crescimento e desenvolvimento orgânicos de seu relacionamento com Tokiwa são revigorantes, proporcionando uma nova perspectiva para Kasuga e para os leitores. A paixão despertada por Tokiwa leva Kasuga a confrontar não apenas as contradições da sociedade, mas também as contradições dentro de si mesmo. Esse processo de autorreflexão é exemplificado em suas conversas com seu subconsciente, onde ele começa a compreender que o passado pode moldá-lo, mas não precisa definir seu futuro. Essa realização culmina em sua jornada de volta à sua cidade natal, onde resolve os assuntos pendentes e encontra uma espécie de renascimento pessoal. A morte de um ente querido durante esse período simboliza o fim de seu eu passado e abre caminho para uma nova fase de sua vida. O encontro final com Nakamura representa não apenas o encerramento de um capítulo, mas também uma oportunidade para Kasuga reconciliar-se consigo mesmo e com seu passado tumultuado.
Particularmente, não gosto do modo como ocorre essa resolução. O arco inteiro soa-me apressado e essa parte ficou mui "subjetiva" para tudo o que construíra-se até então. Sim, é interessante ver a formação do casal, e é ainda melhor quando Kasuga desperta para perceber as contradições dialéticas do contexto social e de si próprio, mediante o exercício de pensar sua condição humana e, como homem, emancipa-se e toma as rédeas de sua vida. Porém, o modo como Oshimi optou por finalizar a relação Kasuga e Nakamura é mui plástica, e fica ainda pior quando no último capítulo ele mostra parte da visão de mundo da Nakamura, algo que poderia ser impactante, narrativamente falando, se ela fosse uma personagem mais real e menos simbólica, o que não é a regra para definir uma personagem, mas que aqui, mediante o ritmo e diegese da obra, era necessário.
Nesse contexto, a personagem de Nakamura emerge como uma figura complexa e intrigante. Embora não haja um diagnóstico claro de sua condição mental, seus comportamentos erráticos e desafiadores sugerem uma profunda tristeza e falta de sentido, característicos da depressão. No entanto, a obra não se propõe a fazer uma análise clínica da saúde mental de Nakamura; sua condição é apresentada de forma mais simbólica, permitindo interpretações diversas por parte dos leitores. O foco principal da narrativa está nos conflitos emocionais e psicológicos dos personagens, em vez de fornecer uma análise clínica de suas condições mentais. Desse modo, Nakamura desafia as normas sociais e as expectativas das pessoas ao seu redor, agindo como um elemento disruptivo na narrativa. Seu destino ambíguo, sem uma conclusão definitiva, reflete a natureza caótica e imprevisível de sua jornada. No final, parece que ela aceita esse seu estado errático, mesmo que seja um membro da sociedade, o que me deixa ainda mais confuso sobre se ela superou esse fatalismo que a consumia ou se deixou levar pela inércia do cotidiano e tornou-se um dos "comedores de merda" que tanto odiava. Esse final é interessante para contrapor o final fechado das outras personagens, mas creio que haja uma clara insuficiência no desfecho da personagem quando vemos o último capítulo.
Sua presença na vida de Kasuga é como a água que rega a "Flor do Mal" dentro dele, uma metáfora que representa seus impulsos obscuros e conflitos internos. Afinal, a flor está dentro de Kasuga antes dele conhecer Nakamura — assemelhando-se a mistura Id, no conceito freudiano, de um elemento julgador subconsciente —, como se brotasse, mas não houvesse solo fértil ou água para que ela possa crescer, até que ele começa em sua jornada pervertida. Essa flor, como um elemento simbólico, cresce quando há um comportamento ruim, até cobrir Kasuga com sua sombra, murcha quando Kasuga faz algo bom e deforma-se para sugar mais de seu psicológico, mas está sempre observando. Parece que Nakamura também possui algo assim, mas desenvolve-se como uma raiz parasita que envolve-a, formado uma rede sombria que vai espalhando, impedindo o crescimento dela como pessoa. Não temos um fim para essa problemática de Nakamura, até porque não precisa, mas creio que Kasuga superou a flor, não por negá-la, mas por compreender sua natureza e aceitá-la. Afinal, a flor permanece negra, mas ela não te olha ou te julga; sua plenitude reside em sua profunda escuridão eterna, sem julgamentos ou olhares externos.

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