Houseki no Kuni - A gema bruta que é o ser humano
Começando pela arte, a Ichikawa é uma artista de mão cheia e, principalmente, uma quadrinista muito incrível. Tal qual o Fujimoto em Chainsaw man, Suas histórias demandam mais do que só imagens bonitas, eles fazem questão de usar o potencial máximo da mídia quadrinhos para suas narrativas tanto visuais quanto textuais. É até difícil imaginar como é o anime de HNK, tendo em vista a absurda dificuldade que eles vão ter em adaptar tal obra.
Minha página preferida ilustra muito bem como a arte dela é incrível em demonstrar o conflito entre os dois personagens usando luz e sombra, mostrando como ela controla muito bem a ideia da luz natural. É um uso muito bom das únicas duas cores que um mangá dispõe.
A história é muito bem contada, tendo o ponto de vista do Phos aprendendo sobre como aquele mundo chegou em seu estado atual obtendo seu conhecimento aos poucos enquanto vai interagindo com outras espécies que vão aparecendo,
Dentro da história eu consigo fazer três leituras, e em nenhum momento elas se anulam ou entram em conflito, na verdade são três caminhos que andam em paralelo para passar uma mensagem maior.
Minha primeira linha de pensamento vem de como o Fos é uma criança passando por todos os processos até se tornar um adulto. Ele começa como uma criança de fato, pura e (literalmente) frágil, e que vai crescendo psicologicamente e fisicamente literalmente absorvendo o ambiente ao seu redor. Trabalhando de forma direta, a ideia de que nós, enquanto humanos, somos quem somos por causa do ambiente em que crescemos, nós absorvemos o que há ao nosso redor e moldamos na nossa personalidade.
Outro ponto que demonstra muito como esse trecho é realmente sobre o crescimento de uma criança, é o inevitável conflito com sua figura paterna, o sensei. Enquanto criança, tudo ser decidido por ele é ok, mas a partir que ela chega na suposta adolescência, ordens e instruções que não pareçam fazer sentido, são questionadas e confrontadas.
Tudo isso faz ainda mais sentido quando descobrimos que tudo aquilo foi um plano realmente focado em recriar um humano. É o fato de uma pessoa ser literalmente moldada.
A segunda linha de pensamento vem da necessidade humana de função.
Função é o que começa a história em vários pontos, e é um conceito fundamental em seu andamento e conclusão. Você pode observar os personagens sofrendo por não terem funções, por sentirem que não se encaixam na função que eles ocupam, até finalmente encontrarem funções que as libertam e as permitem serem quem realmente são. Sentir que você ou o que você faz é útil, é um dos anseios mais básicos, porém mais essenciais que temos enquanto humanos.
E se formos pensar que o anseio é um componente fundamental humano, deixar de ser humano não é deixar de ter anseios? E se libertar dos anseios não é exatamente o que o budismo prega? Essa é a terceira e final leitura da obra, que só se mostra clara quando elementos inegavelmente budistas passam a fazer cada vez mais parte da coisa. O processo que todo o universo da obra vai passar, é o de atingir o nirvana e deixar a humanidade para trás, tanto que a raça que herda a terra, são pequenas criaturas que não desejam nada além do que elas já são e tem. Elas não somente já são felizes, como vão para o lugar mais próximo do céu em todo aquele universo.
Enfim, HNK é uma obra incrível que busca discutir, de modo a separar os humanos em três vertentes diferentes, o que de fato nos faz ser essa espécie tão conturbada e ansiosa. Dependendo e buscando tanto por algo ou alguém que precise de nós.
24.5 out of 43 users liked this review