
a review by GSevero

a review by GSevero
Green Blood é a estética do senso comum.
O mangá narra a empreitada de vingança dos irmãos Burns pela morte de sua falecida mãe, que foi friamente assassinada pelo marido. Ambientada no pós-guerra civil estadunidense o gibi tenta abarcar questões de ódio levando em consideração raça, e, principalmente a decadência moral a partir da violência sem sentido e... prostituição.
Para já tirar o óbvio da sala: sim, é uma arte bonita; caprichada e eficaz na medida certa para construir momentos minimamente impactantes. Se você já usava a Internet nos início dos anos 2010, você deve ter visto as páginas duplas de Green Blood em diversos tópicos de Artes Fodas, afinal, há uma apelo antigo ao hiper-realismo nas mais diversas mídias, e no gibi não é diferente.
Os meus dois principais problemas com ela, porém, é o uso, porque, cacete. O autor manda uma página impactante em (quase) todo o capítulo e por ser uma arte densa e escura 100% do tempo, em determinado momento fica desgastante; o impacto dilui e muito. O segundo e último problema, pra mim, é um pouco junto ao primeiro, nessa tentativa contínua de ser memorável, é de que há pouquíssima sensação de movimento nesse mangá. Td é tão pensando a partir das páginas duplas, que os quadros parecem soltos, quando dá pra entendê-los. Então a arte é direcionada para um impacto épico
Uma das coisas que disse acima é de que há uma decadência moral no centro do mundo do mangá, de modo que a narrativa centra-se nos irmãos tentarem não sucumbir a isso à medida que perseguem o pai. Brad, o mais velho, é um dos mais famosos assassinos de aluguel de uma das gangues da cidade; Luke, por sua vez, é um pacifista que desconhece a vida secreta do irmão.
Acho paia. Sempre achei merda qql história que colocasse questões estruturais como o crescimento da violência e da prostituição como um problema moral e não sistêmico, com uma materialidade política e histórica; como se as pessoas, de repente, escolhessem serem mais violentas, do nada. Porque é meio metafísico. Por qual razão a América no Velho Oeste é tão horrível, assim? Porque é, simplesmente. O Luke é Jesus Cristo; Edward King, satanás.
Cabe esclarecer que narrativas maniqueístas não são um problema per se. A questão é que os personagens, Luke e Brad, por exemplo, perdem substância à medida q suas personalidades são estereótipos E sequer tem uma história. Por exemplo, a mãe dos protagonistas, ela não tem nome, rosto e a situação de sua morte sequer é mostrada (sequer é DITA como aconteceu nem nada), de modo que soa quase cínico os personagens falaram q estão em busca de vingança, ao msm tempo em que a história em si não ressoa essa mesma preocupação. Aí se eles não fogem do estereótipo e não tem uma história desenvolvida, resta oq exatamente?
Por outro lado, há situações estranhas como a que Luke fica puto com o garoto preto q decide participar de um ''roubo'' de cavalos. Vamos tirar de lado o fato de q toda e qql riqueza gerada sob escravidão é fruto do trabalho de escravizados, O garoto não tá roubando NADA. Mas, ok, o Luke ainda é um jovem do século 19 que vive sob esse contexto histórico. Mas, veja bem, ele tbm comete uma ''imoralidade'' que é assassinar alguém, mas ele o faz pq é o pai dele, é um ser abjeto sem redenção e que causa caos. É uma justificativa razoável pro Luke estar passando pela sua ideologia, e um garoto filho maltratado de escravizados n tem razão? E: pior, não há um diálogo do Luke explicando seu raciocínio, nem nada, é estranho principalmente por isso. Pq, sendo justo, a história em si não condena o rapaz. Mas ainda tem um julgamento, meio q pequeno, que o garoto tá ''roubando'' oq não é dele, em certo nível.
Agora, o pior: o choro do Luke em meio a um MASSACRE de indígenas, papo pau mole da boca do pessoas do povo originário sobre ódio? Amigo, é um lado está matando e o outro morrendo, simples; um lado tem tem todo um sistema anti-indigena q massacra os povos e os cara apenas se defendem.
Enfim, é um mangá que opera a partir de sensos comuns sobre questão negra e indígena, de modo que reproduz narrativas da época, século 18, que viam racismo e a escravidão como um desvio moral específico e único, e não um problema sistêmico e que, inclusive, operava no funcionamento da própria sociedade. Tudo isso, aliado a uma história que contraditoriamente tenta utilizar elementos melodramáticos, que evocam um certo maniqueísmo, mas tenta se fingir de denso e cinza, quando não é, certamente. E, também, fracassa no momento de fazer a história acontecer, quando as motivações dos personagens não parecem ter um lastro que real e material, por um lado; e, por outro, não há carisma e caracterização de quem fosse, para além da maldade e bondade pura. A arte, pra mim, boa e com composições belas perde o impacto nessa ânsia de repetir impacto atrás de impacto. Enfim, achei merda
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