

Entre problemas alimentares e trabalhistas a Nagata Kabi, autora do mangá de 1 volume e 6 capítulos Sabishisugite Rezu Fuzoku ni Ikimashita Report, se encontra em uma completa desavença com sua própria vida. Buscando por uma resposta ou uma saída após ser demitida do seu último trabalho ela se depara com outras questões mal resolvidas consigo mesma durante sua vida, questões como relação familiar, cobrança de si própria e a frase “o que eu realmente quero para mim” são levantadas e refletidas no dia-a-dia da autora, indo assim até desembarcar em uma das situações que mudaria sua perspectiva acerca de inúmeras coisas. Essa é a saga de como Nagata kabi chegou a contratar uma acompanhante lesbica, a saga de como a autora viu-se contra a parede contra suas inseguranças e teve que através de pesquisa e experimento bolar um jeito de se entender.
A narrativa de Sabishisugite Rezu Fuzoku ni Ikimashita Report trata de muitos assuntos, mas no geral pode ser resumida a ser uma história da busca por um controle do que a autora quer para si, vivendo como quem ela é e não por pressão de outras pessoas. Em sua busca por liberdade de si própria, Nagata se depara com a experiência de outras pessoas com relação a sua própria, achando meios de expressar o que sente quando corta seus braços ou sente seu distúrbio alimentar bater, ela disserta bastante sobre como é viver com isso junto a uma ansiedade imensa que não a permite pensar direito, a não ser quando sai de casa para andar. Assim também, pulando de entrevista em entrevista ela se depara com uma pergunta que é sempre tratada com um pensamento que ela sempre tenta deixar de lado, mas volta recorrentemente, o que ela quer fazer, é uma questão importante na vida de qualquer pessoa, mesmo em idade já de trabalhar, ela se depara com isso como uma parede enorme que muitos enfrentaram antes, só que ao invés de escalar essa parede com luvas e treinamento, ela escala com sacos de pedras, que ela acha que serão importantes para outras pessoas que estão do outro lado. Estas pessoas, sua família, são personagens importantes mas não presentes, ela parece os amar e eles se preocupam com ela, mas em sua mente, por toda a pressão que se impõe e todo o trabalho que passa, Nagata dá a entender que se odeiam, devido a sua fragilidade emocional ela se isola daqueles que estão ali por ela e por isso, como em uma cena depois de uma entrevista de emprego, ela chora, ela desaba a chorar pois ela recebeu ajuda de uma forma inesperada e não estava pronta para isso. Por fim, é válido ressaltar quanto o capítulo 3 é um grande alívio para o leitor que a lê, ver ela se preocupar consigo mesma, ver ela se cuidar para ir a um encontro que ela quis ir, tudo isso junto traz um grande sorriso para os preocupados com ela, pois é nesse momento que se tem a certeza de que ela está melhorando, ela esta arrumando a si mesma não só para aquele encontro, mas também para sair do estado que estava, tudo isso é tanto fofo quanto um calor para o coração.
O traço da obra é bem diferente do comum, mais simples e minimalista, sua paleta de cores expande além do monocromático e no geral ela é bem expressiva com sua arte. Utilizando de muitas vezes da cor rosa para dar detalhe até a um seu outro eu que representa a parte de si que a manteve oprimida por tanto tempo e a agarra impedindo de seguir em frente, assim dando um bom contraste entre o real branco e o psicológico rosa. Ademais Nagata também emprega muito bem seu traço ao aproveitar de sua simplicidade para exagerar as vezes em desenhos para demonstrar emoções ou sensações, imbuída de um ótimo carisma ao o fazer ela põe um bom esforço em trazer a tona cada coisa que ela diz ou menciona, o que é ótimo pois cria uma ponte de empatia com o leitor por mais que ele não tenha passado pelas mesmas coisas. Há também, momentos que a Nagata usa do preto, que não é tão marcante no seu desenhar mas que quando é presente para significar algo ele o faz com bastante impacto, dando peso ao que ela quer destacar de uma forma que causa mais impacto por conta da paleta clara do mangá no geral. assim portanto, a Nagata consegue veicular bem a sua narrativa com uma estética simples porém eficaz.
Uma comic curta com uma estrutura bem simples, apesar da quadrinização ser bastante travada em um formato e isso ser de fato um pouco ruim é um incômodo, mas ainda assim ela consegue passar essa narrativa de forma a ser agradável e rápida, o jeito como a autora se expressa é bem articulado e é extremamente fácil de entender como ela se sente durante cada momento que ela descreve. O imagético é uma parte indispensavelmente carismática para a complementação de como as coisas seguem e o ponto de vista psicológico dela, tornando o manga, apesar de ser por muitas vezes pesado, leve, como uma reflexão pós acontecimento. No geral uma estrutura simples mas eficaz, apesar dos capítulos não terem constantes e isso ser algo não necessariamente comum em outras obras aqui é feito com sutileza, pois os capítulos sempre acabam quando a linha de raciocínio acaba, sempre acompanhando bem o momento da história, mais do que como se fossem páginas contadas para fazer a história acontecer.
O texto é mais um relato que passa a mensagem de seguir em frente a partir do autodescobrimento e de busca por ajuda, mas não fica apenas nisso, muitas das metáforas da Nagata, são simples, mas implicam muito como ela vê a sociedade e como ela vê a vida adulta, a visão de dignidade a partir do trabalho vista na sociedade japonesa respinga muito aqui, tanto no desespero por uma vida normal quanto por por exemplo o fato de que não ter um trabalho não faria alguém alugar um apartamento para a Nagata. Ademais resta dizer que a Nagata faz um bom trabalho explorando como a vida funciona no Japão para uma mulher como ela.
O mangá tem ótimos pontos extremamente positivos, a experiência é curta porém marcante, mesmo com a quadrinização parada, ele consegue ainda assim ser bom. Muitos leitores podem se identificar com os problemas da Nagata Kabi mesmo sem ter necessariamente as mesmas experiências, o jeito dela em contar suas frustrações por ser muito fácil de entender e simpatizar ajuda ainda mais nessa relação. O traço simples é ótimo para o tipo de história que ela quer contar e sua narrativa é muito bem concentrada na parte mais importante, seu psicológico durante tudo isso. Logo então, o final é inspirador de uma forma extremamente tocante, pois apesar de forma curta e resumida, deu para o leitor sentir como se conhecesse a autora e ver ela evoluir quando dá de cara com a parede traz um calor ao coração. Esse mangá também assim, pode ajudar outras pessoas a se encontrarem, conseguirem também seguir em frente com suas vidas e quem sabe, fazer o que querem com ela.
12.5 out of 14 users liked this review