
a review by MarkGAES

a review by MarkGAES
É claro que, a princípio, o que atraiu a minha atenção ao anime foi a comoção na comunidade em torno do fator "CGI". E ainda que isso seja compreensível e justificável como, talvez, o principal ponto de venda aqui, ao meu ver, tão grande desserviço quanto ignorar a obra por esse fator seria reduzi-la "apenas" a "um anime em CGI bem feito".
Girls Band Cry (ou "GBC" para abreviar) é a mais notória adição ao nicho de "garotas de anime montando uma banda". Porém, o anime se distingue significativamente de congêneres como K-On! e Bocchi The Rock, pelo fato de que este é, primordialmente, um anime de música. Não um Slice of Life, não uma anime escolar, ou mesmo um anime de "CGDCT" com plano de fundo de banda musical. Este é, de fato, um anime sobre música.
O diferencial de GBC em relação ao cenário de banda escolar mais característico dos títulos mencionados anteriormente já parte desde sua premissa. A começar pelo fato de que a história de fundo da protagonista do anime, Nina, é ela ter largado a escola. Tendo migrado do interior para a cidade para fugir de um contexto escolar e familiar conturbado, Nina é agraciada por uma chance do destino de se encontrar com Momoka, a guitarrista e vocalista de sua banda favorita. Essa por sua vez se encontra à deriva em sua carreira musical, após uma série de questões que a fizeram largar a sua banda. A partir do encontro entre essas duas figuras perdidas em suas vidas, e da posterior adição de alguns ingredientes novos à mistura, cada qual carregando consigo suas próprias adversidades, as engrenagens começam a rodar, e uma história de muitas angústias e paixão pela música se põe em movimento.

"Dramática" é como eu poderia definir a narrativa de GBC. E verdade seja dita, ela não é exatamente original no que diz respeito aos seus takes sobre as aflições em meio à formação de uma banda. O dualismo entre manter-se fiel à própria visão criativa ou abdicar de seus princípios para atender às demandas comerciais; a luta para crescer em popularidade e colocar o nome da banda no mapa; a dificuldade de se manejar as exigências da vida profissional em concomitância com as questões pessoais. Não sou nenhum especialista em obras do gênero, mas imagino que qualquer um que tenha visto outras histórias semelhantes na mídia de animes e mangás, ou mesmo fora delas, já deve estar familiarizado com cenários e conflitos dessa natureza. Porém, manter-se dentro do familiar e típico não é necessariamente um problema quando se faz um trabalho bem feito, e o anime consegue se destacar bem nesse repertório, com uma abordagem bastante compreensiva e verossímil sobre a indústria musical e seus desafios, a qual se desdobra a partir de uma trama engajante. Nesse sentido, GBC não é uma obra que reinventa a roda, mas certamente é uma que consegue por a roda em movimento, e como o faz!
Para além disso, eu diria que é no manejo dos dramas pessoais e interpessoais das personagens que o anime realmente brilha. Nina é uma protagonista vívida. Impulsiva, teimosa, determinada e com um senso de justiça que lhe torna incapaz de ficar calada frente ao que ela considera "errado", o que constantemente lhe põe em conflito consigo mesma, com o mundo, e com suas companheiras de banda. Sua personalidade intensa a torna alguém que é, para citar suas amigas, "um verdadeiro saco de se lidar", motivo de constante frustração para elas, e mesmo para o próprio espectador. A partir daí é que se desenrolam as tribulações que agitam e movimentam a narrativa, gerando tensionamentos recorrentes entre as personagens. Elas frequentemente discutem, brigam, levantam os dedos midinhos e jogam suco na cara umas das outras, sendo postas em confronto não apenas entre si, mas com seus próprios dilemas que elas prefeririam ignorar ou esquecer.

A partir dessas tensões é que urge a elas a necessidade de tratar de suas questões internas e externas, por vezes tendo que tomar decisões drásticas para suas vidas, pelo bem da banda e de si mesmas. E é nisso que se dá o desenvolvimento delas a nível relacional e pessoal. Tudo isso confere às personagens e ao conjunto da banda um ar de autenticidade e uma dinâmica muito gratificante de se acompanhar. Ademais, se os afetos são o combustível da música, então sua intensa carga de dramaticidade é o que confere a GBC um caráter verdadeiramente incendiário.






E para poder falar das apresentações musicais, aqui é onde eu finalmente retorno ao ponto de abertura desta review: sim, o CGI é MUITO bom. Não apenas "bom o suficiente para ser passível", é genuinamente incrível. Ponto é, o CGI aqui não é utilizado como uma alternativa econômica de produção, mas como uma efetiva escolha artística, comparável às produções do notório estúdio Orange. A animação é consistente, fluida e expressiva, mesmo nos momentos de interações descompromissadas das personagens.




Não só isso, mas o anime demonstra um ótimo domínio sob o uso de efeitos especiais e ângulos e movimentos de câmera, além de uma narrativa visual presente e criativa. De modo que, se a produção já demonstra o seu brilho mesmo nos segmentos mais corriqueiros da história, é nos picos de drama e apresentações musicais que a obra reluz com toda a intensidade (nesse quesito, o episódio 11, e particularmente o final deste, é um verdadeiro espetáculo).




Em suma, Girls Band Cry foi uma surpresa mais do que bem vinda ao ano de 2024. Um projeto criativo que exala genuína paixão, investimento e criatividade, com uma produção de impacto e uma trama que entrega uma experiência marcante e envolvente. Ainda que eu tenha chegado mais do que atrasado para pegar o trem do hype, na possibilidade futura de um bis, certamente estarei armando acampamento na fila da próxima apresentação, para poder acompanhar de perto os clamores emocionados desta banda de meninas.
Obrigado pela leitura!

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