“If it cannot break its egg's shell, a chick will die without being born. We are the chick. The world is our egg. If we don't crack the world's shell, we will die without being born.”
"i won't know myself/ but i'll know you"
[...]
o poder purgatório da encenação. lá no alto, uma princesa confinada de ponta cabeça. perfurada por todas espadas do mundo, redimindo os pecados dos ressentidos. imitando uma bruxa para salvar o príncipe de mentira. condenada para sempre a ser mulher. enquanto isso, abaixo do castelo, uma revolução esquisita está em curso. Utena é sua estrela. é uma bishoujo, e é um príncipe. com uniforme de garoto e postura de muleque. tão forte quanto sua performance, invencível enquanto cultivar no peito a nobreza que carregava desde pequena, desde o caixão. uma força imemorial, mas que persiste.
quando criança, recém órfã e confrontada pela primeira vez com a efemeridade da vida, Utena se enclausurou num mausoléu. só saia de lá sob uma condição: que a mostrassem algo eterno. e o príncipe, um primeiro príncipe, a encontra, e a mostra. agora frente ao sacrifício de Anthy, Utena se sensibiliza profundamente. não pela natureza do seu martírio, muito pelo contrário, o que a move para fora do caixão é a urgência de tirar aquela mulher da cruz. essa empatia visceral, raiz da sua força e de sua revolução. a inconformidade com o destino feminino e o desejo transformador de estar ao lado dela.
Utena cresce, e já não se recorda bem do evento. a revelação está turva, mas sua essência permanece no coração. não à toa toma Anthy para si de novo, com o desejo de liberta-la. e embarca com tudo nessa grande tramoia perversa e violenta em curso, perdidamente inocente a principio. no meio do caminho, uma série de repetições, como rituais. adentrar o jardim, retirar a espada, destruir a rosa. se deitar todas as noites ao lado da pessoa amada, subir todos os dias a torre recitando um mote. herman hesse, em conjuntinho, fazendo pose. cada um com seus significados funcionais e sugestivos. se comparado com o adolescence of utena, aqui os espaços são mais físicos e menos abstratos. há um esforço em integra-los à lógica das instituições que povoam aquele mundinho: os dormitórios, o conselho estudantil, a arena, a sede da rosa negra - espaços familiares, mas em constante transformação, física e simbólica.
e no fim, tudo que acontece só acontece por intermédio da forma - na transformação dos espaços, nas pétalas que brotam do ar, no movimento dos cabelos, no teatro das sombras, no ronco do motor, nos olhos, nos feixes de luz, nas visões barrocas, nas reações sutis dos corpos, nas cacofonias, espaços amplos, enquadramentos estreitos e revelações fugazes - partes de uma só composição, revelando a realidade e a enformando cenicamente em consonância com o sentimento, pra além de qualquer limite rígido. o mundo realmente como um palco. um castelo de mentira e um sonho de verdade.
and someday, together, we'll shine.
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