O que se pode esperar da relação entre uma pessoa à espera de uma iminente morte e alguém com uma longa vida pela frente mas que já morreu em seu íntimo?
Sasaki Tsunehiro é um estudante universitário dono de uma assombrosa dívida contraída com agiotas que o leva a sofrer constantes ameaças pela falta de pagamento. Como se já não bastasse, Tsunehiro recebe a temerosa notícia de que possui pouco mais de dois anos de vida devido há uma doença terminal.
Ao decidir viver o resto de seus dias de maneira negligente, o protagonista é tomado por uma onda de negativismo, intensificada pela constante depressão. E, em certo dia, perseguido por cobradores, cai no mar. Quando já desistente, e aceitando o provável destino, Tsunehiro é resgatado por um grupo de pescadores.
Os acontecimentos que se seguia tornariam a vida do rapaz em algo completamente diferente do experimentado até então. Um grupo curioso de amigos, para não dizer excêntrico, fanáticos por pescaria e que trabalham juntos, encabeçados pelas figuras de Tsutsujimori Takaaki e Ayukawa Hana.
A história narra a conturbada vida de Hiro (como foi chamado por Takaaki) tendo que lidar com dívidas, doenças e pesca.
O cerne do enredo encontra-se na figura de pessoas, de alguma forma, perdidas em suas questões pessoais. O gerente da loja, por exemplo, enfrenta um divórcio doloroso. Entre as desajeitadas tentativas de reaproximação com o filho percebemos a dor que um casamento desfeito impõe.
Quantas vezes o homem trocou a família pelo vicio na pesca? Quantos encontros com explícito descontentamento? E agora, mergulhado de remorso, tem de encarar os fatos como o de não ter o crescimento do próprio filho diante de seus olhos.
O que vale mais, um enorme peixe ou a transição de infância para adolescência do filho? Parece óbvia a resposta, ainda que o gerente Machida a tenha encontrada de forma tardia.
Com estas reflexões o show apresenta cada um dos personagens.
No entanto, a principal relação, justamente a que me referia no início deste texto, é a confusa amizade de Hiro com Takaaki. Tsunehiro, que viveu a vida imerso em mágoas, carregando a angústia da morte, cada vez mais próxima, decide encarar a vida de maneira diferente. Apoiando-se nos novos amigos, o jovem busca uma forma de alegria e conforto.
Em contrapartida, Takaaki, no auge de seu vigor e juventude, leva a vida como uma uma falsa aparência. Frustrado pela morte do irmão, e carregando um enorme fardo de culpa, tem em seus dias nada mais que uma tentativa de sobrevivência. Não seria, agora, o antigo hábito de pescar a fuga da realidade?
Por isso torno a questionar. Entre o desespero da morte e a angústia da vida o que sobra?
O conto O Sonho de um Homem Ridículo, de Dostoievisk, nos apresenta, de forma bastante alegórica, as narrações acerca de um cidadão desprezado. Tomado como ridículo pelos outros, o personagem central abraça esta sina e decide viver de igual maneira.
Desprezado por todos, como também por si próprio, o agora entitulado Homem Ridículo caminha pelas frias ruas de São Petersburgo refletindo na insignificância de viver. O que seria a felicidade, o amor e a alegria de estar vivo? Tais coisas já não mais importavam àquele homem.
Certo de que a resposta que buscava seria alcançada no suicídio, o Ridículo, em uma tristonha e solitária noite, aquelas com um aspecto perfeito para tomar o óbito, encontra com uma garota perdida suplicante por ajuda. Sequer o desespero da inocente seria suficiente para tocar seu coração que de pronto a rejeita, retornando para o lar.
Uma vez que chegara ao apartamento, com uma arma em mãos, o remorso aperta o peito. Tomado por um profundo sono, o homem sonha que atira no próprio coração. E, logo após, vê-se a ser levado por uma misteriosa criatura até um local parecido com a Terra.
As semelhanças eram, ao mesmo tempo, poucas e muitas. O lugar era igual, com a exceção de ser perfeito. Sem doenças, guerras, mortes, intrigas.
Próximo ao fim do sonho, aquele Ridículo presencia os instantes de decadência. De uma terra perfeita à perdição que nem a mais temerosa guerra seria capaz de construir.
Tomado pela dor de ver a destruição do que era perfeito, o homem desperta. Não apenas do sono, desperta para si.
Dostoevski, através da narrativa fantástica, descreve como perdemos tempo com as coisas banais e ridículas. O estado original do homem, da felicidade e complitude, não reside na queda. Antes, no momento anterior a ela.
Somente quando o desespero da vida do Homem Ridículo deu lugar à transcendência foi, então, que as aflições e amarguras puderam ser suprimidas.
Como poderia o homem chamar-se de humano se viver alheio ao amor, a caridade, a contemplação e ao convívio com os próximos? Como encontrar valor em si próprio se a indiferença para com a dor dos outros for maior?
Voltando ao show. Ambos, Takaaki e Hiro, só encontraram significado, e por consequência um motivo para viver, quando ambos perocuparam-se com o outro. Como poderia ajudar Takaaki sem sequer buscar tratamento médico antes? E Takaaki, como poderia ensinar a Hiro o prazer de estar vivo se também o fora sepultado com o próprio irmão?
Somente o transcedente encontrado no amar o próximo é capaz de dar sentido à vida. De forma, por vezes dramática, outras vezes humorada, o show tenta expor tal reflexão.
"Havendo amor pode-se viver, mesmo sem felicidade. Até na aflição a vida é boa. É bom viver no mundo, ainda que se viva seja lá como for."
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