Obs: Contém spoilers, esse review foi feito para quem viu o filme.
O Menino e a Garça é um filme diferente, mas nem tanto assim. No decorrer do filme cheguei a pensar que era o filme mais metafórico e misterioso de Hayao Miyazaki que assisti, mas logo percebi que ele é até que parecido estruturalmente com Viagem de Chihiro e o final certamente me fez pensar "é, esse é um filme do Miyazaki". Felizmente só fui pensar nisso hoje, um dia depois, o que significa que eu estava imerso o suficiente no final do filme e não distraído com análises semi-conclusivas.
Intrigante e misteriosa, a história atingiu quase em cheio alguma parte do meu coração que muito aprecia símbolos e metáforas. A história começa passando a impressão de que veremos o dia-a-dia de um jovem de histórico trágico perto do fim da Segunda Guerra Mundial, porém, a trama logo vai adquirindo um tom de "sonho" com acontecimentos misteriosos envolvendo uma estranha Garça que faziam eu e o Menino questionarmos o que era real e o que não era. Senti que Miyazaki estava tentando explorar o que se passava no fundo do coração de um garoto que perdeu a mãe em um incêndio traumático e que agora acabara de receber uma "mãe nova".
Imagino que um garoto nessa situação teria uma tempestade de sentimentos reprimidos: será que minha mãe morreu mesmo? Meu pai já se casou de novo, será que ele não amava minha mãe? Serei substituído assim como minha mãe foi? Afinal o que é a morte? O que é a vida?
Creio que Miyazaki mostra essas dúvidas bem com inúmeros símbolos, a começar pela Garça: uma criatura misteriosa com um olhar sombrio e dentes humanos parece querer atacar o Menino de qualquer forma. A sua aparência sombria e que fica cada vez mais grotesca pode representar o medo que o garoto sente lá no fundo de seu coração e portanto enfrentar a Garça significa também enfrentar esses medos. E é exatamente a garça que abre a porta para esse coração atingindo aonde dói mais: "Sua mãe não morreu, vou te mostrar ela, me siga."
Com uma frase absurdamente insensível dessas não resta escolha ao Menino a não ser confirmar a verdade e seguir a Garça. Daí em diante a história vai passando da fronteira entre Realidade e Sonho para se tornar 100% Sonho para no final finalmente poder voltar à Realidade.
Durante aquilo que chamo de Sonho, os sentimentos no fundo do coração do garoto vão sendo trazidos à tona através dos seus relacionamentos: com sua mãe, com sua madrasta, com a Garça e com o seu Ancestral. Cada um tem um papel diferente na jornada do Menino e todos juntos vão ajudá-lo a entrar em paz com sua própria existência e impedir que acabe engolido pela própria dor e tristeza interiores.
O filme também traz outras estranhas criaturas além da Garça que gostaria de mencionar. Primeiro os warawara: bichinhos muito fofinhos que parecem uns pequeníssimos travesseiros que flutuam como balões e me recordam de outros filmes do Miyazaki.
Temos também pelicanos: animais que se parecem com garças mas com a diferença principal no seu grande papo usado para capturar outras criaturas e se alimentarem. No filme os pelicanos passam uma sensação no minimo desconfortável com a fome exagerada e quase desesperada com que atacam tudo que aparece pela frente e, especialmente, os warawara, criaturas completamente indefesas diante deles.
O relacionamento entre essas criaturas e os Pelicanos é no mínimo curioso, e sinto que há uma complicada lição a se tirar do embate entre os dois grupos, que é destacada pela fala final de um pelicano prestes a morrer que o Menino enfrenta.
Em seguida temos...periquitos. Isso mesmo, periquitos! Periquitos enormes, mas também muito burros (talvez como se espera de periquitos). Quase que como pelicanos evoluídos, os Periquitos parecem representar um pouco do que há de pior na humanidade, especialmente no quesito tolice. Os periquitos tem o próprio rei e confiam nele completamente para resolver os problemas que eles mesmos não tem coragem de enfrentar. Coragem certamente o rei possui, mas como vemos ao final, a burrice continua intacta e acaba decretando o fim de todo o estranho mundo que o Menino encontrou.
Devo dizer que eu aprecio a jornada interior e metafórica pela qual o Menino nos leva e creio que há muito de interessante para se escavar em meio aos muitos visuais e símbolos mostrados pelo filme. Ver tanto o Menino, a Madrasta e o Ancestral enfrentarem seus medos e inseguranças já teria sido gratificante, mas fui pego de surpresa pela coragem e alegria da Mãe do menino, que corajosamente voltou para enfrentar seu destino mesmo sabendo o quão trágico seu fim seria. Não pude deixar de me emocionar nessa parte do filme, mesmo que tenha sido rápida, e de ficar feliz por esse encontro mágico entre mãe e filho que definitivamente brilha como um filme de Hayao Miyazaki deve brilhar.
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