✏️ NOTAS: Quando "Frieren" estiver em itálico, estarei me referindo à série, e não a personagem. Essa review não contém spoilers.

Frieren foi, pra mim - e acredito que pra muitos - uma daquelas produções que repentinamente ganham uma notoriedade absurda que acaba, por um ou mais motivos, a diminuir a disposição que se tem pra de fato acompanhar e consumir. Existe a problemática de se envolver com a comunidade e levar spoilers que vão lesionar a experiência, o risco de ser mais uma produção totalmente comum que, por um motivo ou outro, um momento ou outro, viralizou de maneira exacerbada, ou simplesmente a má vontade no que diz respeito a ver conteúdo mainstream.
O último pode ser, por muitos, um motivo raso. Em primeira instância, eu concordo, mas eu também não posso dizer que não penso que existe um certo prazer, certa satisfação em descobrir uma série não tão famosa assim "pra chamar de sua".
Isso é exatamente tudo que Frieren parece ser em primeira instância; mais uma série tematizada num período medieval, com magia, classes de personagens, e que pela atenção monstruosa que recebeu, "não tem como não ter seu fator de genericidade".
Pra minha sorte - e que sorte a minha - eu tive todos esses preconceitos categoricamente derrubados enquanto via.

1: 📜 História e narrativa:
Sousou no Frieren - escrito por Kanehito Yamada e ilustrado por Tsukasa Abe - diz respeito às aventuras da maga e caçadora de demônios Frieren, que fez parte de um lendário grupo de heróis que enfrentou o exército de demônios que trazia calamidade pra terra. Ao contrário do que a maioria das histórias do gênero trazem, essa se desenrola não durante essa epopéia, mas sim depois.
É a partir daí - antes mesmo da história se desenrolar de fato - que eu acho que começa um aspecto fortíssimo de Frieren; apesar de parecer uma história genérica e comum em vários aspectos, o que acontece na realidade é que ela segue uma direção diferente desses padrões. E eu já vou dar um spoiler aqui; vocês vão ver bastante essa mesma frase.
Existe um jogo de palavras no título que infelizmente não pôde ser traduzido com o mesmo caráter pra língua ocidental. Sousou (葬送) é uma palavra formada por dois caractéres combinados, cada um tendo seu próprio significado, sendo 葬 "para enterrar" e 送 "enviar, emitir, despachar". Geralmente, a palavra possui um caráter de tristeza e luto, mas em alguns contextos também pode significar "para matar/executar/terminar".
No GIF acima, quando a Frieren é chamada por esse título é onde vemos a diferença de significado da tradução pro original. Enquanto a tradução optou tanto por um título mais direto (Frieren, The Slayer, que significa "Frieren, a Assassina") à personagem quanto ao anime (Frieren: Beyond Journey's End, que significa "Frieren: Além do final da jornada"), o significado original se aproxima mais de algo como "Frieren, que te manda para o túmulo" ou "Frieren, mensageira do túmulo" - que por sinal, que título FODA - representando mais ou menos o que a história é.
Frieren é uma maga élfica, e elfos, como retratado em diversas obras de ficção, são criaturas que, também nesse universo, se aproximam da eternidade no que diz respeito à vida. A protagonista, como mostra diversas vezes ao decorrer da série, é uma criatura ancestral que vive desde os tempos mais antigos; muito mais tempo que seus amigos e conhecidos, que vão morrendo antes dela e vivendo períodos de vida que não se comparam nem a um décimo do seu próprio tempo de vida.

A história começa num tom mais devagar exatamente por isso; após a jornada lendária do grupo de heróis, Frieren percebe como suas amizades, seus pequenos, curtos encontros, e principalmente o tempo que foi investido nessas relações são importantes. Agora, o que ela faz é seguir sua vida enquanto segue visitando os túmulos de seus amigos.
E o ritmo devagar do começo da série passa longe de ser uma coisa ruim. Pode ser desconfortável pra alguns, mas eu acredito que é um ótimo acerto no que diz respeito às mensagens que a série quer passar. Inúmeras vezes são abordados temas como os discutidos acima, e um deles - que, de novo, vai contra o que é comumente visto em séries do gênero -, que é repetido várias vezes, é a importância dos "momentos mundanos" em uma aventura.
Em histórias genéricas, a maioria das coisas que se vê são relatos acerca dos fatos espetaculares dos heróis e do elenco. Em Frieren, também se vê uma exaltação dos grandes feitos dos heróis, mas são muito mais tratados como contos curtos ou até mesmo um rolê aleatório do grupo. Em contramão, se vê um carinho, um cuidado e uma valorização muito maior no que diz respeito aos "momentos mundanos" que esses heróis passam, contribuindo diretamente pra uma humanização de personagem que eu, pelo menos, vi pela primeira vez aqui.
Obviamente existem outras aventuras que a Frieren e seus amigos participam conforme a história se desenrola. Ela "visitar os túmulos" dos seus amigos, como dito acima, não passa de um eufemismo. Aventuras se sucedem, e tudo que ela faz é, quando possível, visitar os resquícios e os legados que seus colegas deixaram após a morte.
Existem, também, algumas piadas com temática erótica algumas poucas vezes - essas, que foram categorizadas como "um pouco fora de tom" pela crítica -. Mas não vi nenhum problema com relação à fanservice ou um excesso desse gênero de piada. Em geral, o humor é divertido pra um anime, então se essa for uma preocupação sua, pode relaxar!

Eu poderia seguir falando sobre os desenrolares da história, mas acho mais divertido deixar em aberto pra quem tiver interesse em ver e ter uma primeira experiência autêntica. Pra mim isso faz a diferença.
2: 📺 Produção audiovisual:
Frieren é um anime do estúdio Madhouse (Death Note, Hunter x Hunter (2011)) que foi dirigido por Keichiirô Saitô (que trabalhou anteriormente em Bocchi the Rock!), com revisão/produção de roteiros sendo feita por Tomohiro Suzuki (One Punch Man), e cinematografia de Akane Fushihara (Spy x Family, Sonny Boy).
A produção foi amplamente elogiada por diversos críticos pela sua atmosfera calma e aconchegante, mas outros aspectos não ficam pra trás de maneira alguma.
A começar pelo design de personagens - feito por Reiko Nagasawa (Takt Op. Destiny), que também participou do processo de animação -, existe uma clara diferença entre a caracterização dos personagens do mangá pro anime uma vez que o mangá detém de muito mais detalhes, mas acredito que o trabalho da Srta. Nagasawa foi excepcional no que diz respeito a capturar a essência dos personagens e simplificá-los, mas sem abrir mão de traços e aspectos artísticos que se assemelham ao original.


Isso, aliado ao trabalho de cores do Sr. Harue Ono (Hunter x Hunter, Monster) - á exemplo dos olhos - resultou em personagens com designs únicos, bonitos e simples o suficiente pra não dificultar mais o trabalho dos animadores.
E, falando em animação, se você possui um pouco de conhecimento acerca da série, sabe como é chover no molhado elogiar essa produção nesse quesito.
Como foi dito anteriormente, há uma atenção e um apelo muito forte no que diz respeito aos momentos "mundanos" e cotidianos. Isso se intensifica - obviamente - em momentos de emoção, como de luto e tristeza, mas são nos momentos de ação que a equipe de animação realmente se destaca.
Tendo diretores que trabalharam em produções aclamadas como Jujutsu Kaisen, Chainsaw Man, One Punch Man e Mob Psycho 100, vemos diversas cenas de ação com ângulos de câmera ousados, com um bom trabalho de fundo, e que além disso são rápidas e dinâmicas, daquelas que deixam o telespectador vidrado enquanto vê.


Em adição à isso, temos um ótimo trabalho no que diz respeito à sonoridade da obra. Sendo o produtor de som Kanako Arima (Evangelion 3.0+1.01) e o diretor de sonografia Shôji Hata (Spy x Family, Vinland Saga), temos um design sonoro agradável e que, aliado à trilha sonora do compositor Evan Call (Violet Evergarden) contribui diretamente e de forma natural à imersão de quem assiste.
A trilha sonora de Evan Call, apesar de não ser um disco que se destacou imensamente como os de Boku no Hero Academia, por exemplo, ainda tem suas faixas que se destacam. "Zoltraak" é uma delas, alcançando mais de 10 milhões de streams no Spotify. Vale a pena dar uma ouvida!
youtube((https://youtu.be/7S3eJG-8v_E)
3: 🌐 Universo:
Como expressado anteriormente, Frieren é uma produção especial pra mim por ir em uma direção diferente do habitual em relação a outras produções similares, e outro ponto que eu acho que se sobressai nesse quesito é o tratamento da magia e a mana.
Não vou entrar em muitos detalhes pra não afetar a experiência, mas a abordagem alcança desde os fundamentos da magia até os usos específicos, além de fazer, vez ou outra, comparações acerca de como o uso da magia e administração dos seus usuários mudou com o passar do tempo. É um tratamento bem atencioso com um aspecto tão fundamental e importante na construção do universo, e que eleva bastante a imersão da experiência de consumir a obra.

Os personagens secundários também recebem atenção e possuem seus momentos de importância ao decorrer da trama. É possível não só ver como sentir as dinâmicas entre as relações dos personagens e como elas mudam com o passar do tempo. Cada personagem tem suas camadas de personalidade abordadas de maneira até bem clara e direta.
Os diálogos não são dos mais bem elaborados; muitas vezes os conflitos são resolvidos de maneira clara, direta e concisa, o que não se aproxima muito da realidade. Não é algo que me incomode apesar de perceber claramente acontecendo, mas é uma abordagem bem pessoal porque é como eu gostaria que problemas fossem tratados na vida real, então não posso garantir que seja algo que não vá te incomodar também.
O anime também possui uma variedade de fauna e flora que é explorada ao decorrer da história, além de trabalhar com símbolos e seus significados dentro do mundo. Flores e plantas são conectados diretamente à história de personagens, assim como símbolos e até monstros exercem importância direta e indispensável na construção da história coletiva e individual de um personagem ou um grupo de personagens.

Evidentemente, existe também uma variedade de raças humanóides, mas não é tão elaborado quanto Dungeon Meshi, por exemplo, onde as diferenças políticas, geográficas e históricas entre raças são exploradas.
4: 🔖 Instrumentos literários & reflexão pessoal:
Essa é uma parte um pouco mais pessoal com relação às outras, então se você não tiver interesse no que não seja uma avaliação mais direta e menos embasada eu recomendaria pular essa parte.
Apesar de eu ainda estar iniciando meus estudos de reconhecimento de instrumentos literários, posso dizer que reconheci que, além do simbolismo claro dos adereços que são presenteados por entre os personagens, há também uma simbologia no que diz respeito às ferramentas dos personagens, principalmente os cetros dos magos.
O aspecto visual da mana também exerce influência no tratamento dos personagens e na dinâmica de humanos e demônios, como foi muito bem explicitado no episódio 10 - que, por sinal, é uma aula de storytelling -.

Esse foi um desenho que ressonou em mim de uma maneira que eu jamais esperava antes de começar. Ele aborda temas dos quais eu já vinha - e ainda venho - refletindo há muito tempo, e, pra além da produção espetacular, tem um tratamento muito atencioso com coisas que normalmente são consideradas pequenas.
Eu não sabia, mas Frieren me fez descobrir que, essa atenção aos detalhes, às coisas que as pessoas normalmente acham desnecessárias e pequenas, é algo que eu também aprecio muito.
Não só isso, mas os personagens também bastante em mim. Desde os designs, escolhas de cores e habilidades... Todos - apesar da minha dificuldade de decorar nomes - ficaram marcados na minha memória da sua própria maneira. Uns mais que outros, evidentemente, mas cada um conseguiu teve seu tempo e se destacar da própria maneira.
Se é o melhor anime de todos os tempos, eu não tenho ideia. Mas na minha prateleira pessoal, certamente fica lá encima, entre os favoritos.
Enfim, pra quem tiver curiosidade; meu top 3 personagens é esse:
🥇 1° Lugar: Übel
Pra ser sincero, eu nem sei dizer o que me cativou tanto nessa personagem. Eu só achei ela tão carismática e divertida. Eu admito que tenho um fraco pra personagens que tem um parafuso a menos, e ela me apresentou uma maneira diferente de abordar esses personagens.

🥈 2° Lugar: Frieren
Isso se deve muito ao fato de eu me identificar com ela em alguns quesitos. Pra além do design e de todo o conceito do personagem que me agradou bastante - elfos mágicos são tudo de bom, também te amo Marcille -, ela é muito do que eu gostaria de conviver na vida real; uma pessoa tranquila, calma e que valoriza as próprias amizades o suficiente pra não procurar conflitos desnecessários com elas, além de resolver da própria maneira quando não é possível de forma convencional.

🥉 3° Lugar: Fern
Fiquei dividido entre ela e o Himmel nessa posição, mas confesso que - talvez por ela aparecer mais - gostei mais dela. O design é lindo, a personagem tem uma personalidade bem sólida e é, na minha opinião, debativelmente a mais engraçada do desenho todo.

É isso! Obrigado por ter lido até aqui. Espero que essa review tenha sido útil pra talvez te incentivar a ver esse desenho que é tão bem produzido. Todo o time envolvido certamente se empenhou bastante em entregar esse material, e por isso o resultado saiu tão bom. Espero ansiosamente pela segunda temporada e certamente começarei a acompanhar o mangá também.
Se você tiver mais interesse no que eu tenho pra falar sobre as séries que vejo, você pode acessar meu Linktree e navegar até a opção "‣ Resenhas e escrita". Eu gosto bastante de tentar esclarecer meus pensamentos e sentimentos com relação ao que eu consumo, mas mais que isso, também acho super divertido conversar, ouvir e debater sobre essas coisas, então sinta-se a vontade pra falar comigo sobre!
A gente se vê por aí, até mais.

📝 Referências:
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