
a review by DecoVsMyGPA

a review by DecoVsMyGPA
Uma das coisas que mais me deixa curioso nas artes japonesas é como eles não se importam em representar de verdade acontecimentos históricos se o jeito como eles aconteceram não ajuda a contar a história que o autor quer contar, obviamente isso tem mais peso em ficções históricas que retratam o ocidente, mas mesmo em obras sobre o Japão existe um entendimento de que nem sempre a verdade e a representação exata do que aconteceu é o melhor jeito de contar essa história. Innocent é um exemplo perfeito disso, uma história que se passa um pouco antes da Revolução Frances, mas que inventa personagens, muda completamente acontecimentos e pessoas, não se interessa em ser verdadeira, mas se interessa em usar esse background já muito conhecido por nós ocidentais para contar uma história sobre como mesmo que para mudar o status quo, se juntar a ele acaba te fazendo virar o que ele quer que tu vire.
Em Innocent a gente acompanha o Charles Sanson, o Monsieur de Paris o executor que cuidava das penas de morte em Paris que vem duma dinastia de executores, começamos com ele sendo um adolescente que não aceita fazer parte dessa dinastia, pra ele o mundo não precisa de mais execuções, não existe um motivo para fazer isso, mas por ser o filho mais velho ele ainda assim tem que fazer parte desse sistema, depois de ser torturado, abusado fisicamente e vários outros absurdos pelo seu pai e sua avó ele finalmente aceita fazer parte do sistema, mas com o objetivo de quebrar o sistema por dentro. Charles com o tempo vai se acostumando com o jeito que as coisas funcionam, vai pegando gosto pela execução. Ele vai de pouco em pouco mudando o jeito que se porta, mas sempre com a mesma desculpa "estou fazendo isso para criar um mundo sem execuções", ele por exemplo começa fazendo várias execuções que eram para ser extremamente doloridas e lentas serem indolores e rápidas, mas ao mesmo tempo ele consegue fazer a sua irmã virar a carrasca de Versalhes, ele tira sua avó e seu pai de jogo, mas depois vira alguém muito parecido com os dois. Charles é essa figura de hipocrisia que é tão normal em movimentos apaziguadores, ele é moldado pelo status quo, pois é impossível de sozinho mudar um sistema inteiro, enquanto ele é a esquerda liberal, um progressista não revolucionário, a Marie é o contrário, ela é a representação da esquerda revolucionária, da quebra quase que total com esse status quo e das mudanças sem a auto-indulgência e sem a mentira de que tu ta fazendo isso por um objetivo maior, Marie é antagonizada por todos, ela sofria não só por ser uma Sanson, mas também por ser uma mulher e nisso, uma mulher que tinha algum objetivo diferente de se casar, ela precisa que seu irmão a coloque no cargo que ela está e mesmo sendo posta nesse cargo ela precisa constantemente se provar, ela tenta de tudo cortar com o que se espera de uma mulher, ela raspa o cabelo, ela se veste de forma masculina, ela age de maneira "masculina", esse prego levantado é ativamente caçado pelo sistema no geral. Enquanto vemos Marie ascendendo e mudando algumas coisas pequenas, fazendo-se ser aceita, fazendo o que ela quer que aconteça acontecer sem mudar o jeito que ela é, vemos o seu irmão crescendo e cada vez mais perdendo de vista o sonho de mudar o mundo, mas sim se transformando numa figura parecida com a do seu pai, que nos é revelado no meio da obra que mesmo sendo um carrasco de sangue frio, ele tinha um quarto da casa com uma cruz pra cada cabeça que ele cortou, Charles entende que "assim como eu, ele também deve sonhar com um mundo onde não existem mais execuções" e assim ele justifica todas suas ações futuras, o ato de espelhar o seu pai é concretizado onde ele que jamais torturaria alguém se vê torturando o seu filho e na página que sua cara reflete a de um demônio enxergamos a conclusão da sua transformação, com a frase "ao se tornar um pai, o mesmo, se torna um monstro", Charles agora não era mais um indivíduo, mas sim um recipiente para a dinastia Sanson, assim como seu pai, assim como a sua avó, ele não é só o culpado, mas também a vítima, assim como seu pai, assim como a sua avó. Ao replicar esse comportamento, Charles agora vira o principal antagonista da Marie, esse irmão que era o porto seguro nessa sociedade machista, agora virou um avatar de tudo que Marie despreza, ele virou o martelo que vai bater nesse prego elevado, ele a força a se casar, a traí em um duelo, a impede de moldar Maria Antonieta, mas mesmo assim a Marie que tem o símbolo da família queimada no seu peito se recusa a virar uma ferramenta da mesma, ela acha uma brecha se casando, mas ainda assim sendo uma carrasca, ela continua moldando Maria Antonieta, ela no final não se deixou ser absorvida pelo status quo, agora querendo um mundo no qual um amigo a mostrou, onde crianças de qualquer status podem ir para escola, já Charles em sua última aparição está tentando criar uma máquina que consiga cortar mais de 100 cabeças ao dia, uma máquina perfeita para o sistema. Ao entender todos acontecimentos como um comentário em cima de status quo, do que se espera de alguém e o peso dos papéis que temos que abordar numa sociedade e como a mesma te força a abordar esses papéis, percebemos que a história não se trata sobre França, muito menos sobre a sua revolução, mas sim sobre o Japão, desde a escolha do carrasco (algo que dá pra fazer a ligação com a própria memória histórica japonesa, pois quem trabalhava com morte era também uma pária no Japão), mas principalmente essa narrativa de ser o que a sociedade espera de ti, ser moldado pelo status quo ou ficar completamente excluído do mesmo, usa esse plano de fundo dum país ocidental para refletir sobre os problemas na sua própria sociedade atual.
Sem ser esses comentários em volta de toda narrativa, existem várias aspas e adendos que dá pra se falar principalmente sobre direitos LGBT e outras coisas, mas eu sinceramente acho que a história não lida muito bem com eles e nem tenta explorar eles direito, virando mais realmente uma nota de rodapé e só adicionando um pouco a essa discussão sobre papéis de gênero e sistema etc que é a parada que a obra realmente quer comentar. Uma cena que eu acho que simboliza muito bem e começa verdadeiramente a discutir os papéis de cada um na sociedade é quando Charles que até então só se interessava por homens, transa pela primeira vez com uma mulher, ele já estava se acomodando ao que o status quo esperava dele, mas a partir desse momento ele sente que virou um homem e então tem que tomar o que a sociedade espera que um homem faça, ele não é mais um garoto, ele não tem mais espaço para sonhar, ele é um homem, só o vemos saindo dessa mentalidade quando ele faz cross-dressing, quando ele se interessa por outro homem, quando ele se desvia do que o status quo espera, mas no final era só momentâneo, a vida ainda espera que ele seja um homem. Outra coisa muito interessante é como esse mangá é pouco literal, existem muitos momentos de simbolismo na obra, cápitulos onde não vemos o que realmente acontece, mas vemos por exemplo uma peça de teatro reencenando o que aconteceu, vários momentos nessa pegada, é algo que complementa muito esse desapegado da exatidão histórica, deixando bem claro que o importante aqui não é exatamente o que ta acontecendo, mas sim o que esses acontecimentos significam.
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