
a review by DecoVsMyGPA

a review by DecoVsMyGPA
Quem já me conhece sabe, mas como isso daqui é um espaço público de escrita eu vou dar uma contextualizada em algo pra entender melhor os próximos parágrafos e frases que serão ditas nesse bloco de texto que poucos vêm, mas que eu aprecio muito a oportunidade que a internet me dá de falar. Eu sou um guri gaúcho com uma família judaica não praticante, cresci com uma vida de boa, não de luxo, mas tenho a sorte de dizer que nunca passei fome, estudei a minha vida toda em um colégio particular no qual tenho a sorte de trabalhar agora. Nesse colégio foi a primeira vez que eu tive contato com anti-semitismo, nenhuma violência absurda, só piadas antissemitas aqui e acolá faziam parte da minha rotina mensal desde que eu entrei, seja jogando uma moeda pra longe e mandando eu ir pegar, ou falando que eu e meus familiares controlavamos o mundo, quem me conhecia sabia que isso era claramente mentira, de todo meu grupo de amigos eu era o que menos esbanjava riquezas (era um bando de playboy, eu incluso, mas dos playboy eu era menor kkkkk). Essas piadas não faziam sentido e na minha cabeça de criança e adolescente, elas me faziam ter uma bizarra reação, eu ficava triste, mas não entendia porque, eu não ficava abalado com vontade de chorar, mas elas pareciam fazer algo que eu não entendia, agora que entendo posso dizer, me faziam esconder a minha origem, tradições e minha etnia, eu tentava de tudo ficar o mais longe possível de ser judeu, eu não queria manter contato com nada que me lembrasse disso. Entra Hellsing, um anime que me chamava atenção, mas eu sabia que tinha nazistas como vilões principais e isso me fazia manter distância, como eu disse, eu queria manter distância de qualquer coisa que lembra-se o meu subconsciente de que eu era judeu, disso a mística em volta de Hellsing continua, mas eu mantenho a minha distância.
Agora sou um adulto menos confuso da cabeça e com algumas ideias certas, a curiosidade pra ler Hellsing continua, não tinha muito o que ler e é uma semana cheia de horasbundas no trabalho, então bora tirar essa curiosidade e matar esse minotauro que assombra o meu subconsciente a tanto tempo. Então está feito, eu lí Hellsing, eu na real devorei Hellsing, eu tenho uma paixão absurdas por obras que não se levam tão a sério e que sabem se divertir com conceitos estéticos ou coisas do gênero e o autor de Hellsing aparentemente é um maestro em fazer isso, talvez seja o seu background como escritor de hentai ou talvez seja só a personalidade caótica sedenta por diversão, mas Hellsing faz isso com primor. Ele não só faz isso como consegue contar uma história muito bonita de amor, um conto sobre como guerra não faz sentido e um estudo bem pequeno sobre o que faz a vida valer a pena, tudo isso num mangá completamente estúpido, feio e meio nonsense, isso é incrível isso é HELLSING, isso é ARTE.
A história começa meio solta, demora um tanto até começar a realmente ter um background ou qualquer coisa do gênero, mas a primeira coisa que me chamou atenção foi o fato do autor escolher ter a agência dos protagonistas ser um braço armado da família real da Inglaterra e um agente armado da igreja protestante, isso não seria nada de mais se o primeiro vilão que põem medo nos nossos protagonistas não fosse um padre Irlandês do braço armado da igreja católica. Bem, eu não tive a melhor primeira impressão quando eu ví isso, eu tenho crenças bem fortes sobre os Troubles então digamos que colocar um vilão como um Irlandês maluco que quer acabar com os nossos herois protestantes não é o melhor jeito de me puxar pra uma história, mas eu continuei, isso me deixou muito curioso pra saber como isso acabava em "Vampiros Nazistas Do Mal Atacando Londres!" e o que caralhos o autor ia fazer com isso (SPOILER: Ele não faz nada, incrivelmente o embate Protestantes VS. Católicos não é um ponto focal do mangá, que tristeza...) então ao chegar no terceiro volume todas as dicas de que algo estava errado com os ataques vampirescos que o mundo estava sofrendo é concluída com um grande truque que só um mago estudado nas artes do Naziexploitation teria coragem de fazer, ERAM NAZISTAS!
Como que isso é uma história de amor? Simples, é uma história de amor entre um servo e seu mestre, um mestre e seu servo, um maníaco e a sua vida, Hellsing é sobre viver, é sobre o valor que damos a ela e como esse valor, mesmo que retirado brutalmente de nós por outros, é de ser conservado por nós mesmos, o Alucard é alguém que viveu milhares de anos, mas ele o mangá todo parece estar a procura de morte, morte por um humano, ele quer que sua vida acabe de verdade, pois a vida de um monstro não vale a pena, a vida de um monstro não é vida. Essa mensagem pode resbalar em tropos racistas, mas eu te juro que não caí, aqui o monstro não é um alegoria racial como normalmente é, aqui o monstro é alguém que não aguentou mais ser humano, não aguentou mais a dor, não aguentou mais o struggle de ser humano e largou tudo para virar um monstro. Alguém que abdicou de poder ver a beleza do nascer do sol, alguém que não tem mais amor a própria vida e largou ela por um objetivo, essa pessoa é um monstro, não são os vampiros, pois a Seras (outra protagonista sem ser o Alucard) é uma vampira e como ele bem disse "talvez tenha espaço para um andarilho da tarde", ela não abdicou da dor de ser humana, ela continuou na luta, ela persiste até o final nessa luta, a transformação dela em vampiro completo não foi pra se safar de algum problema ou matar o inimigo mais rápido, foi por amor, foi um presente daquele que a amava para ela. Hellsing é sobre isso, o vilão principal, os nazistas, não são os vilões por serem cartunescamente malvados, eles são os vilões pois o único motivo deles de viver é a guerra, é o sangue, é a luta, a Seras pergunta para o Major (o vilão principal) se o objetivo deles era morrer esse tempo todo porque ele só não se matou e ele revela que pra ele não adiantava só morrer, isso seria largar de ser humano, ele precisava morrer tendo sua última orquestra, vendo um espetáculo do que ele mais ama a guerra. O Major diferente do resto dos nazistas é um monstro que se acha humano, diferente do Alucard ele nega ter largado tudo para concluir seu objetivo mais facilmente, pois ele acredita que o que nos faz humano não é uma alma, não é o amor, é a vontade, apenas isso, pra ele o Alucard se assemelha ao humano ao entender que a dor é o que nos faz humano, mas continua sendo um monstro, já ele se vê como alguém que se assemelha a um monstro, mesmo continuando humano. Essas filosofias diferentes ganham mais um braço, a diretora Hellsing, entende que humano é aquele que faz derrotar algo o seu objetivo, só um humano teria esse objetivo, seja pela compaixão pelos outros ou seja por qualquer motivo egoísta, o humano quer o objetivo, o monstro quer a o processo, com isso ela crê que não, o Alucard não é um monstro, o Alucard é um humano, quem é um monstro é o Major, pois ele está fazendo a guerra pela guerra, não pra derrotar alguém, mas pelo simples fato de derramar sangue, toda SS são monstros, eles só estavam alí pelo derramamento de sangue. É sobre isso que é Hellsing, sobre o valor da humanidade, o que a gente considera que nos define como humano e no mais, amor.
10.5 out of 11 users liked this review