

Spoilers a seguir.
Tatsuki Fujimoto é provavelmente o meu mangaká favorito por diversos motivos, mas acho que o motivo do qual eu quero focar aqui é que eu me vejo nele em várias facetas. Isso não é de modo literal, até porque eu não o conheço e nunca vou, mas a minha forma principal de me envolver com outras pessoas sempre foi por meio da arte, não só a arte que o Fujimoto faz, mas também o gosto dele e o modo que ele interage com ela.
No hiato após a parte 1 de Chainsaw Man, Fujimoto lançou duas one-shots: Look Back e Sayonara Eri, duas histórias pessoais sobre a relação das pessoas com arte. Confesso que eu sou completamente apaixonada por Sayonara Eri, e talvez isso tenha acabado ofuscando Look Back na minha concepção, mas eu aproveitei esse filme e o fato de todo mundo estar amando ele (o Kojima viu esse filme quantas vezes? 11?) para poder experienciar isso aqui novamente, já que faz uns 2 anos desde que li a one-shot.
E foi uma experiência tão destrutiva quanto eu imaginei. Eu vi várias pessoas no twitter que, após o filme, decidiram que iam voltar a desenhar ou fazer qualquer tipo de arte, decidiram que iam voltar a viver a vida. E o filme é exatamente isso.
Eu não sei se todas as pessoas se sentem assim, mas ler (e agora assistir) Look Back é como experienciar o fundo da sua alma canalizado por essas personagens. O fato delas se chamarem Fujino e Kyomoto (Fujimoto) é algo legal, mas acho que também é para exemplificar como a faceta de "ser artista" está dividido entre elas. Pelo menos eu me vejo muito nas duas.
A Fujino desenha porque ela era boa nisso. Quando ela vê alguém melhor que ela, esses sentimentos confusos a fazem querer ser melhor.
A Kyomoto é uma hikikomori. Ela tem medo das pessoas e não consegue nem comprar algo no mercadinho. A única coisa que ela tem são os seus desenhos, inspirados por quem fez ela começar a desenhar, Fujino.
Quando a Fujino percebeu que não valia mais a pena tentar ser melhor do que a Kyomoto, ela desistiu. Ela passou a "Viver a Vida Normal".
Até o dia que elas se conheceram.
Fujino voltou a desenhar. Desenhar pela Kyomoto, talvez? Ou por que alguém elogiou ela de novo, e justamente a pessoa pela qual ela estava tentando ultrapassar? Ou os dois.
Mas o que importa é isso: ela voltou a desenhar.
E as duas passaram anos desenhando, juntas.
Até, é claro, a mudança, já que nada pode permanecer o mesmo para sempre. Kyomoto não quer depender de Fujino para tudo. Kyomoto quer melhorar ainda mais seu desenho. Elas querem coisas diferentes.
Essa cena dói, mas talvez seja uma das minhas favoritas. A Fujino está sendo uma completa babaca e eu amo isso.
E então, a tragédia. A negação, a culpa, os pensamentos de "e se eu tivesse feito diferente?"
Mas pensar e pensar não muda nada. Pois a vida é assim, e não temos controle sob o que não temos controle.
O que eu amo sobre esse final é sobre essa "escolha" implícita apresentada à Fujino após a morte da Kyomoto.
Ela vai deixar de desenhar, tal como fez no 6° ano, ou ela vai continuar?
"Fujino, por que você desenha?"
E essa pergunta não ser respondida com palavras, mas sim cenas da Fujino desenhando. Desenhando com a Kyomoto. Desenhando sozinha. Desenhando, faça chuva, faça sol, independemente do que estiver acontecendo, desenhando.
Por que os humanos fazem arte?
Por que se abdicar de todas as outras coisas, por uma coisa que talvez você nem goste realmente de fazer?
Por quê?
Por que a resposta é sempre a arte?
E então, Fujino olha para trás, para o casaco da Kyomoto que ela havia assinado anos antes.
E ela sai do quarto e continua a desenhar seu mangá.
Por que o que mais ela vai fazer, além de desenhar?
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