
a review by VictorisShalashaska

a review by VictorisShalashaska
Depois da experiência sufocante e quase claustrofóbica que é assistir Serial Experiments Lain, obra do mesmo estúdio, carregada de densidade filosófica e existencialismo angustiante, chega NieA_7, um anime que parece andar na contramão de tudo isso. Relativamente simples, despretensioso e até bobo em sua superfície, ele se apresenta como um slice of life sobre aliens vivendo entre humanos, daqueles que caem como um alívio momentâneo em um dia ruim. É um anime que, ao invés de sugar sua energia vital como Lain, a devolve, com humor ingênuo e cenas que lembram a leveza absurda de Nichijou, mas sem abandonar um fundo reflexivo.
Durante praticamente toda a série, há uma enorme nave pairando no céu, a nave-mãe. Ela está sempre lá, imóvel, um detalhe quase esquecido no horizonte, até que, em um dos últimos episódios, simplesmente desaparece. É um acontecimento silencioso, quase banal, mas que carrega uma força simbólica profunda. A nave, em sua ausência repentina, se torna metáfora de amadurecimento: para Niea, representa um lugar ao qual ela nunca mais poderá retornar; para Mayuko, é como se fosse o fim de uma promessa de fuga milagrosa de sua pobreza e de sua solidão. Ambas, de formas diferentes, são obrigadas a encarar a vida sem essa muleta imaginária, o futuro como um território sem garantias, só com o peso do agora.
Essa temática ganha ainda mais força quando pensamos no passado de Mayuko. Ela perdeu o pai muito cedo, em uma idade em que a memória já não sustenta imagens nítidas. Ainda assim, carrega dentro de si o peso dessa ausência. O relógio herdado dele é um objeto que a acompanha ao longo de toda a série, um lembrete físico de alguém que ela mal lembra, mas cuja falta molda sua vida silenciosamente. Em pequenos instantes, memórias cintilam, como fragmentos de um tempo perdido, e se tornam intensas no momento em que a nave desaparece. Nesse instante, Mayuko se recorda de uma cena singela, porém marcante: ela e o pai observando vagalumes à noite. Essa lembrança atravessa o presente como um lampejo, ressignificando a perda e marcando o amadurecimento que a acompanha desde sempre. A nave que some é também o fim de uma espera invisível, a aceitação de que a vida segue, mesmo com buracos que nunca se fecham.
Mas Mayuko não é apenas marcada pela ausência de seu pai. Há em sua personalidade um traço forte de depressão, de isolamento social que o anime retrata com delicadeza. Um exemplo é quando sua amiga Chiaki a convida para uma festa. Mayuko aceita por impulso, mas depois recua, tomada pela insegurança de não ter roupas bonitas, de não se achar atraente, de não suportar a ideia de interagir em meio a desconhecidos. O peso da autocrítica a paralisa, e ela decide não ir. Ao não comparecer, sente-se culpada, como se tivesse traído a confiança de Chiaki, quebrado uma promessa silenciosa de amizade. No entanto, a vida seguiu para Chiaki, para ela, a ausência de Mayuko não teve o mesmo peso. Mas para Mayuko, esse gesto mínimo se cristaliza como um fardo, mais uma marca em sua solidão.
Já Niea vive outro dilema. Pouco antes da nave desaparecer, ela passa a enxergar mensagens de “sayonara” espalhadas pelas suas visões, como sinais de uma despedida inevitável. A nave não é apenas uma estrutura colossal pairando no céu: é uma mãe de verdade, uma casa, o ventre de onde todos os aliens vieram. Para Niea, representa uma origem, mesmo que suas memórias sobre ela sejam frágeis ou inexistentes. Sob sua postura infantil, há um sentimento profundo, nunca confessado em palavras, de pertencimento a algo que está prestes a se perder. Quando a nave some, é a aceitação amarga de que não há mais retorno possível, de que o elo primordial foi rompido.
O desaparecimento da própria Niea, antes da nave, reforça esse processo. Ele soa como uma aceitação melancólica de que Mayuko não poderia depender eternamente dela para preencher sua solidão. Niea era conforto, mas também distração. Sua ausência obriga Mayuko a enfrentar seu vazio de frente, a encarar sua vida em silêncio. E quando retorna, já não é mais a mesma relação: não se trata de dependência, mas de convivência, de uma amizade que existe sem a necessidade de preencher lacunas existenciais.
NieA_7 é um anime infantil na forma, simples em sua narrativa, mas carregado de símbolos que se abrem a leituras mais profundas. Talvez seja apenas uma mensagem singela sobre amadurecer e aprender a lidar com a ausência, seja ela de um pai perdido na infância, de uma amiga não encontrada em uma festa, ou de uma nave que pairava no céu como promessa inalcançável. Talvez haja outros sentidos escondidos, mas, como tantas coisas na vida, eles sempre escaparão. No fim, NieA_7 nos lembra que crescer é perder, e que até mesmo na perda existe uma beleza discreta. É um convite para viver a vida enquanto ela acontece, mesmo em sua banalidade, mesmo em seus instantes bobos e passageiros.

24.5 out of 25 users liked this review