
a review by Matheusmiranda96

a review by Matheusmiranda96
Aos onze anos a pequena e orfã garota é levada de seu orfanato para o lugar que lhe prometera adotar como lar. Avonlea, um pequeno vilarejo na Ilha do Príncipe Eduardo, então colônia britânica.
A longa viagem, de charrete, da estação à vila, repleta das mais belas paisagens que a garota sequer pudera imaginar, além do longo período, levou consigo as esperanças de um futuro que não chegará a acontecer. Havia um tremendo engano.
Os donos da casa, os irmãos Cutbert, Matthew e Marilla, desejavam adotar um garoto para que lhe ajudassem nos trabalbos braçais da fazenda. No entanto, a diretora do orfanato lhes enviara uma pequena.
O trauma de sucessivas rejeições outra vez se repetia. O vermelho de seus cabelos não escondia os igualmente vermelhos de seus chorosos olhos.
Assim inicia a jornada de Anne Shirley com sua nova família.
Baseado na coleção de livros de autoria da romancista canadense Lucy Montgomery, a obra conta com jma série de adaptações para animações, cinema, séries em live action, dramas teatrais, além de contos póstumos.
Não é de meu interesse fazer comparações entre as adaptações. Tampouco dizer para que se consuma este ou aquele show. Como alguém que assistiu ambas adaptações para anime e leu o romance original, recomendo que consumam o material que lhe for de seu interesse.
Mais do que um mero, e quem sabe vago, juízo estético, atenho-me a discorrer uma reflexão sobre o conteúdo.
A única comparação que me permito mencionar é o fato de que o primeiro show adaptou, em 50 episódios curtos, os dois primeiros livros da coletânea enquanto o remake adapta os três primeiros em 24 episódios.
De fato, um tanto apressado mas nada que comprometa a experiência ou a narrativa. Mesmo porque, a quem desejar todas as nuances da escrita, existe o romance original.
Resolvido o mal entendido, os irmãos decidem por adotar a garota que finalmente poderá chamar um lugar de lar. E não qualquer lugar, Green Gables. Com suas longínquas planices esverdeadas, misteriosas florestas e céu arrebatador, o charmoso lugar de imediato conquista a garotinha que tão logo lhe chamara de lugar mais belo que existe.
Tão belo que nem mesmo sua inesgotável imaginação era capaz de torná-lo melhor.
Dividido em três partes, o enredo abrange os três primeiros romances: Anne of Green Gables, Anne of Avonlea, Anne of the Island.
A primeira parte cobre o início de Anne até o décimo quinto aniversário. Com seus primeiros anos na ilha, o relacionamento com as demais crianças e sua amada Diana Barry. As aventuras, teimosias, trapalhadas.
O segundo período, cobrindo dos 16 aos 18 anos, retrata a primeira grande mudança. Agora adulta, Anne abandona suas "palavras grandiosas", marca registrada dos anos de infância, marcando sua antiga personalidade fantasiosa e romântica, que perdia horas à fio idealizando o mais perfeito, ou poético, cenário de tudo o que acontecia.
Durante as tragédias que acompanham o período, os anos como professora da mesma escola em que estudara, moldaram os novos traços daquela menininha.
O episódio 12 retrata bem isto. Quem mais poderia se importar e demostrar amor para com os gêmeos abandonados se não aquela que foi rejeitada tantas vezes? Como rejeitar paciência e atenção quando antes se exigia os mesmos?
"Talvez nós amemos mais as pessoas que precisam de nós mesmos, não?"
O terceiro momento marca a nova mudança. É preciso deixar para trás os anos passados, as histórias e lembranças, aquele perfeito lugar, bem como todas as amarras que escondiam as inseguranças, para abraçar o futuro.
Anne parte para a faculdade. Pela primeira vez a jovem moça teria de pensar em si. É irônico pensar que a mesma pessoa, perdidamente sonhadora, temia as incertezas do futuro. Agora Anne precisava encaras seus idealismos e perceber que nem tudo se trata de contos e romances.
__ _O surpléfuo e o trivial___
A história expõe um dos principais problemas que a modernidade trouxe, a falta de sensibilidade para com as coisas belas.
Em um certo lugar haviam dois garotos, vizinhos, que, diariamente, conversavam, diante de seus belos jardins, como seria fantástico poder visitar os locais com as mais belas paisagem do planeta.
Certo dia, um homem que passava e ouvia aquela conversa, deu-lhes o poder para realizar aqueles sonhos. De imediato o primeiro pediu para ser um gigante capaz de atravessar continentes com alguns poucos passos. Quando tornou-se gigante o primeiro visitou todos os lugares que queria. Viu desertos e oceanos, foi ao Niágara e ao Himalaia. E por todo lugar que passara decepcionava-se. O Niagara parecia-lhe como gostas caindo de uma torneira, e enquanto o Himalaia era sem graça. Os oceanos lhe foram como poças dáguas após alguma garoa. E, por tanta angústia e decepção, não lhe sobrava mais nada senão esperar pela morte.
Enquanto que o segundo fizera o exato oposto, desejando ser o menor dos pigmeus. Sem entender o porquê de desejar ser menor que uma mera polegada, aquele homem questionou seu pedido.
De pronto o segundo argumentara que desta forma não precisaria sair ao mundo inteiro. Antes, aquela sua nova forma possibilitaria perceber a beleza contida naquele jardim que ele não tinha capacidades para perceber. E quando se esgotassem todas as belezas daquele jardim, haveriam os muitos outros ali resididos. E cada poça dágua seriam inexplorados oceanos para velejar, e o imenso céu ainda maior seria. E quantas outras belezas mais seus olhos poderiam perceber a partir desta nova perspectiva.
Foi a partir desta história que Chesterton, em sua coleção de crônicas chamada Tremendas Trivialidades, expõe como a modernidade, e sua busca desenfreada pelo progresso, roubaram do homem a sensibilidade de tudo.
A pressa pelo enriquecimento, as novas tecnologias com suas formas de entretenimento, os enormes edifícios e casas que visam somente a utilidade, a expansão do minimalismo, relativismo e suas novas correntes filosóficas, cegaram o indivíduo.
Acordar às 05:00 já pensando em pegar alguma condução às 06:00 para fugir de engarrafamentos, acomodando-se em algum assento para, com seus fones de ouvido, escutar as notícias do dia anterior. E repete-se este ciclo, diariamente, por anos até que não restem mais forças para trabalhar.
Este é o retrato do homem moderno, que trocou o cantar dos pássaros e os sons da manhã por buzinas; que trocou o aroma do orvalho pelo abafado dos ar condicionados; ou a glória do alvorada por telas de celulares.
O moderno perdeu a capacidade de se sensibilizar e refletir. A pressa modificou a percepção do tempo. Faltam minutos para contemplar as primeiras luzes do dia, sobram horas para acompanhar a série favorita. Desnecessário seria ler um poema, já que ocuparia o precioso tempo diário das redes sociais.
O progresso substituiu a beleza do trivial pela distração do surpléfuo.
E o ser humano não percebe como isto é prejudicial. Falta paciência, sobram estresses. Cessou-se a compaixão para que reinasse o egoismo.
Ao passo que diminuem taxas de adoção cresce o número de abandono familiar. A gentileza de dar o lugar foi substituída pelos inúmeros casos de brigas no trânsito.
A agitação da modernidade suprime a convivência para que o indivíduo tenha progresso. E aqui está o progresso: sete bilhões de indivíduos. Sete bilhões de "na minha opinião". Cada um tentando se impor.
O Transcendente deu lugar à distração.
E assim caminha o homem, adormecido de si mesmo, incapaz de perceber a mais trivial existência que existe. Ele mesmo.
Voltando à Anne Shirley, o show demosntra a trajetória de tudo o que se perdeu. O homem moderno conquistou todos os direitos que almejavam, todos os bens que sonhou, toda a riqueza e poder que existem, em troca do sentido da própria existência.
Enquanto a personagem principal, mesmo com todo sofrimento que passou, mesmo sendo traída pelo próprio idealismo, a todo momento manteve o seu motivo de ser: "Eu gostaria de embelezar a vida".
Talvez sejam meras palavras grandiosas. No entanto, não seriam, justamente, palavras grandiosas as que descrevem perfeitamente a beleza que uma simples trivialidade tem?
"O mundo nunca sofrerá com a falta de maravilhas, apenas com a falta da capacidade de se maravilhar."
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