My Hero Academia foi certamente o mangá/anime da minha adolescência. Conheci essa obra em 2016, no auge dos meus 14 anos. Me lembro até hoje da minha reação ao ver o primeiro episódio. Depois disso eu me tornei FASCINADO por essa série, li os mangás semanalmente, vi todas as temporadas do anime (mais de uma vez), mas chegou - tudo tem seu fim - ...e sinceramente, gosto disso. Histórias precisam acabar em algum momento. Genuinamente, fico feliz que apesar de grande (170 episódios no total), My Hero Academia não se estende de forma. A obra acaba quando de fato precisa, gosto muito que Kohei Horikoshi sempre respeitou esse aspecto de sua obra. De toda forma, o final estranhamente trás um sentimento estranho de gratidão por essa obra, mas ao mesmo tempo, tristeza, como se uma parte da minha adolescência dissesse adeus. É insano como a arte consegue nos tocar a esse ponto. Mas, enfim, sem mais enrolação, vamos a review completa dessa última temporada de My Hero Academia.
Essa última temporada da obra adapta o final do último arco da série. Adaptando do capítulo 399 ao 430. Não tem muito o que falar da sinopse em si, afinal, ela apenas finaliza o anime.
Mas, vou destrinchar parte-a-parte dessa reta final, pois gostaria de ressaltar alguns pontos nesse final que me incomodam, outros que acho positivo.
Antes de tudo, sempre bom deixar claro, o final como um todo NÃO É RUIM como se prega, mas claro, possui defeitos.
Creio que um dos maiores defeitos dessa série foi manter All Might vivo no fim da obra. O anime escreve toda a rota do personagem em tom melancólico, de despedida...mas, infelizmente, o personagem sobrevive. Creio que o encerramento teria sido muito mais épico, dramático e marcante com esse tipo de despedida de um personagem como All Might. Afinal, é ali, onde o personagem se reconstrói e pode sair do ciclo negativo que o atormentava desde a luta contra All for One. Creio que o sacríficio de All Might nesse contexto seria como a morte de Jiraiya em Naruto em questão de impacto, aqui a obra teve oportunidade de criar talvez o momento mais dramático de sua história.
Mas, infelizmente, All Might sobrevive e o desfecho tem menos impacto. É um bom desfecho, mais pela série ser bem escrita do que por ser de fato um bom desfecho. Inclusive, vale ressaltar um problema que comentei (acho) em reviews antigas sobre o anime. A falta de mortes é um efeito extremamente negativo na obra. Não estou aqui fazendo discurso edgy de que obras são melhores por conterem mortes. Pelo contrário, acho que tudo depende. Muitos animes que considero masterpiece não possuem muitas mortes, tudo depende de contexto, sempre.
Boku no Hero é um anime shonen, não estou dizendo que precisa ser uma carnificina brutal como Berserk, mas é um anime com vilões, lutas, o espectador precisa sentir que aqueles personagens correm riscos reais. Isso afeta a experiência do consumidor, um exemplo que se encaixa perfeitamente...
Em algum momento próximo a batalha final, (não me lembro qual temporada exatamente), Gran Torino se feriu gravemente em batalha contra Shigaraki Tomura. O personagem fica hospitalizado, com direito a "cena de despedida", com o personagem entregando seu cachecol á Deku.
Qualquer espectador pensa que o personagem vai morrer ao ver a cena, porém, isso não acontece, Gran Torino, por motivo NENHUM fica hospitalizado até o fim da série, e você sequer sente o impacto do personagem ter sofrido, já que nada de relevante de fato acontece após um evento tão dramático. Parece vazio de sentido e trás uma falsa sensação de perigo para a obra.
Isso me abre outra paráfrase em relação a isso...porque personagens como Nagant e Overhaul ficam vivos na obra??? São personagens que em nada acrescentavam na obra após seus respectivos arcos. Mantendo esses personagens que já foram importantes em visibilidade, trás a sensação ao espectador que voltarão novamente e farão algo, porém, Overhaul nada faz além de estar sem braços, Lady Nagant também apenas assiste ao conflito. Enquanto eles aparecem e o espectador espera algo, não são como Gentle e La Brava que realmente mudaram de lado e tem utilidade ao longo da temporada, mesmo que mínima. Overhaul e Nagant são incógnitas completas na obra a esse ponto.
Esse aspecto me incomodou durante toda a minha jornada em My Hero Academia, desde o começo da obra. Mais personagens mortos e suas consequências poderiam ter acrescentado a narrativa.
Para finalizar esse tópico, gostaria de ressaltar como o All for One ficou FODA com essa estética na reta final. O personagem deixa de parecer um tiozão sem graça e se torna um personagem muito mais legal de se acompanhar (mas aí é uma opinião puramente pessoal e estética sobre o estilo e personalidade do personagem).
Também gosto como a obra trabalha de forma sensacional o episódio do passado do vilão. Pra mim, é certamente um dos melhores episódios de toda a obra, seja em qualidade de narrativa e animação. Infelizmente o público não deu muita visibilidade pra esse momento, mas eu particularmente acho um dos mais bem animados e bem escritos do anime.
Bakugo derrotá-lo também é um ótimo fechamento para o personagem, que pra mim é uma das melhores variações de seu arquétipo. Mas por falar em Bakugo, o personagem é "ressuscitado" pelo Edgeshot, e fico sem compreender porque mantiveram esse personagem vivo, ao mesmo tempo que o anime praticamente faz uma despedida triste para o personagem.
Optei em pular a parte relacionada a luta final de Deku vs Shigaraki, não tenho muito o que falar dessa luta. Eu só achei bem mediana pra uma final battle, sendo sincero. Algumas lutas do Shigaraki me pareceram bem mais interessantes de assistir.
No entanto, o "poder da amizade" do final na obra para derrotar o personagem me convence, não acho mal feito, não é como o Naruto indo na caverna "catequizar" o Nagato em Naruto. É bem escrito. Poder da amizade não é um problema, problema é a forma como as coisas são feitas, isso em qualquer obra.
Acho que isso vai de encontro com uma jornada de superação de um garoto que além de sonhador, se sentia só no mundo.
É lindo acompanhar a jornada de Izuku Midoriya, não só como herói, mas como alguém que supera também a solidão. My Hero Academia sempre falou de rejeição, não de forma tão clara como outras obras como Naruto, mas esse sempre foi um dos problemas do protagonista.
De toda forma, eu gosto disso, acho poético, e não me parece forçado, me parece coerente com a jornada. Essa pegada de "somos todos heróis" a crítica ao ranking de heróis, é tudo muito maduro, acho uma discussão válida e até forte pra um anime shonen. Novamente fazendo analogia a Naruto (perdão galera, vou melhorar), é como se o protagonista desistisse de ser hokage ao entender o quão problemático é essa figura como líder e o quão negativo é esse sistema. Uma discussão que a série acaba deixando ímplicita em Naruto Clássico, mas não expande. Boku no Hero expande seu discurso. Mas mesmo trazendo esse assunto que é pertinente, não gosto do maior dos heróis ser algo simbólico. Acho que o anime poderia deixar claro a mensagem e a crítica que quer passar (que concordo 100%) mas ainda assim concretizar o sonho do protagonista.
Talvez seria interessante ele ser o número 1, mas buscar mudar o sistema, já que é consciente de seus problemas, porquê não??? Até porque...o ranking de heróis que foi tão criticado durante toda a obra (o que eu concordo), continuou ativo até o final. Isso concilia as críticas da obra com o sonho do protagonista e a esperança que a série tanto planta no espectador.
Muito se falou de Boku no Hero Academia não realizar o sonho do protagonista, mas também se falou sobre o final ser inconclusivo. Afinal, muitos desfechos pareceram não estar 100% finalizados. Mas, não concordo com essa afirmação. Muito pelo contrário, penso que esse aspecto só tornou o anime rico e pé no chão narrativamente (como sempre foi). Como já citei, alguns desfechos como o de Gran Torino, Nagant e Overhaul me incomodam, realmente parecem inconclusivos, mas a maioria dos grandes desfechos da obra são MUITO BONS. Até acima da média. Pra mim, são o grande ouro dessa reta final.
A começar pela finalização de Endeavor. Gosto do destino final do personagem, se tornou uma nova pessoa, mas ainda paga pelos pecados que cometeu, inclusive não recebendo perdão de seu filho mais velho Natsuo. 100% coerente, afinal, o personagem nunca demonstrou arrependimento de sua decisão em relação ao pai.
Eu realmente sinto que o "jeito ocidental" de finalizar histórias é defasado. Estamos acostumados com histórias onde tudo é resolvido, ninguém mais tem problemas e tudo acaba bem. Boku no Hero, vai em um viés mais realista e mostra que a vida simplismente continua. Que nem tudo vai ser como queremos e vai terminar como conto de fadas. Pra mim, isso é algo que a narrativa ocidental deve superar . Gosto muito do realismo que Boku no Hero propõe nesse sentido, a história não depende de Izuku, ela é viva, e cada personagem tem seu ponto de vista.
O epílogo de Spinner também é fascinante nesse sentido. Gosto muito como ele destaca características positivas em Shigaraki, ao mesmo tempo que ele é demonizado pela imprensa. Gosto muito que a série acaba trazendo até críticas a própria imprensa e seu tratamento com criminosos, mesmo que de fora bem sútil (ao menos é a minha interpretação da cena, que não é a única que parece abrodar críticas sobre imprensa).
Assim claro, como também gosto muito do personagem ficar vivo e ganhar um destino (está vendo? necessidade de morte é sobre contexto). Ele vira escritor, e assim como o caso de Endeavor, é muito legal a obra trazer um destino alternativo para o personagem, afinal, somos pressupostos a lógica natural do: "final = vilão morto ou preso". Spinner se levanta como um revolucionário e continua sua jornada.
Gosto também da saída do Aoyama da Classe A, o personagem sofre as consequências de seus atos (mesmo não sendo de fato um vilão ou pessoa ruim), mas o Shinso como seu substituto me incomoda. Sempre achei o personagem mal encaixado, DO NADA, ele está treinando com o Aizawa e vai se juntar a classe...e quando se junta, é somente no último episódio??? É mais um prato que a série cozinha e não entrega de forma adequada. Shinso me parece fruto de uma reunião da Jump onde pediram para ser incluido na obra já que tinha muitos fãs, mas o Kohei não conseguiu encaixar o personagem.
Satisfatório. Apesar dos problemas mencionados. Gostaria que a obra tivesse canonizado alguns casais e tivesse mostrado o desfecho dos personages DE VERDADE e não só com menções nos créditos. Acho muito bonito o último episódio fazendo várias menções ao primeiro, é um encerramento de ciclo, e recomeço de um novo. Pra mim, é uma jogada quase sempre funcional e muito legal na ficção.
O mini-arco do Koki Terumoto (personagem incluido somente no último episódio) é mais bem trabalhado no anime do que no mangá. É um personagem 100% criado pra reforçar uma mensagem de como a empatia muda um destino. Mas no mangá, ele é introduzido no começo do prólogo, e gera um suspense, pra uma mensagem simples. É como ficar 3 horas na cozinha e voltar com um pão com ovo.
Como disse, o Deku se tornar um herói somente simbólico me incomoda, ainda mais sabendo que no final ele "ganha" poderes novamente para atuar como herói. O personagem parece ter se contentado com a ausência dos poderes, na mesma medida que gostaria de tê-los de volta, é algo até confuso (embora pé no chão, o que é bacana), de toda forma, parece que a série fica confusa em relação a essa questão.
Como qualquer outra obra, My Hero Academia sofre da extremização do público nas redes. Vivemos no período onde tudo é muito bom, ou muito ruim, infelizmente. O final tem problemas, nuances que poderiam ser melhor exploradas, mas creio que a obra é pior na jornada do que no final em si.
De fato, creio que My Hero Academia é possivelmente o melhor shonen de sua geração. Apesar de ter sofrido muito com as críticas do público brasileiro. A obra condensa bons personagens, trabalha com boa parte dos mesmos por bastante tempo, tem um bom universo, e ainda tem um pé de crítica social forte em vários momentos, o que trás uma intertextualidade na obra que a destaca e que se faz cada vez mais necessária na ficção. Mas claro, sofre problemas, assim como toda obra sofre. A grande crítica ao final é 100% válida, é um ponto realmente negativo. Mas também respeito quem ache um ponto positivo. Mas o final não é essa aberração que a internet brasileira prega.
No mais, eu recomendo o final da obra sem medo, apesar de poder trazer sim a uma decepção do espectador. Creio que se você já chegou até a 8ª temporada dessa obra, certamente vale a pena o investimento. E como alguém que já viu todas as temporadas (se for o seu caso) creio que muitas das nuances do final da série possam ser compreendidas, como por exemplo o fator da "inconclusividade"
No mais, usando da licença poética como fã e não como alguém que está no papel de analisar imparcialmente a obra:
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