

FICHA:
Gêneros: Ação, Drama, Terror, Romance, Sobrenatural, Fantasia Urbana
Estúdio: MAPPA
Diretor: Tatsuya Yoshihara
Autor: Tatsuki Fujimoto (Fire Punch, Saynoara Eri, Look Back)
Material fonte: Mangá
Apesar de gostar da primeira temporada, é inegável que ela não foi marcante. A tentativa de emular uma espécie de "estética cinematográfica" (entenda isso como um falso realismo hollywoodiano) e transformar o anime num Shingeki em termos de prestígio das séries televisivas, acabou criando uma obra lânguida, cinzenta, desinteressante com momentos de imaginação e ousadia. E isso é completamente o oposto do sentimentalismo violento e pujante que está nos cerne das obras do Fujimoto, especialmente Chainsaw Man.
Como leitor do mangá, o primeiro impacto veio com essa mudança na estética: que inclui designs de personagens mais simplificados, cores menos terrosas e uma direção de arte mais "psicodélica" e "pitoresca" em momentos de catarse. Então, inevitavelmente, meu texto acabaria sendo redundante se ficasse tecendo elogios sobre a animação ou a direção; sobre como trabalham o terror, o grotesco, o erótico e o melodrama com maestria. Portanto, quero focar na parte narrativa e, como li o mangá, discutir um pouco sobre a evolução do Denji.
Pois bem, o filme se passa pouco depois do Denji conseguir se estabilizar em um lugar. Agora ele tem comida, lar e amigos, cumprindo quase todos os requisitos do que seria seu sonho, exceto um: ter uma namorada. É interessante como esses sonhos simples e "rasos" dão muita substância para Denji e para Chainsaw Man num todo. Ele é alguém que viveu na miséria, alienado da sociedade e da "normalidade" — a própria Reze cita isso no diálogo na sala de aula —, e por isso o que seria o básico para a existência de qualquer um torna-se um objetivo de vida para ele.
O relacionamento com a Reze surge para "suprir" seu último objetivo. Crescendo sem figuras de apego estáveis, ele projeta em figuras femininas, como Reze, a esperança de preencher suas necessidades de afeto e intimidade física. Sua falta de socialização faz com que gestos simples de cuidado ou atenção — como Reze ensinando-o a nadar — sejam percebidos como demonstrações intensas de vínculo, o que faz ele buscar um estado de equilíbrio e pertencimento, mas, com anos de necessidades emocionais básicas negadas, sua necessidade por conexão é imensa e acaba transformando-o numa pessoa completamente previsível e transparente.
No mundo dos caçadores de demônios, onde a vida está constantemente em risco e sua sobrevivência está no sigilo dos contratos e na sua discrição, Denji surge como uma figura nua, falando o que pensa, em voz alta, agindo por impulso e demonstrando seus sentimentos com potência. Reze é o oposto. Um espiã soviética cuja existência é uma máscara. Ela se apresenta como a possibilidade de uma vida diferente, longe das dificuldades e da violência; uma mulher dócil, amável e "genuína", que está disposta a compartilhar momentos íntimos com Denji. Mas, não demora para essa intimidade sentimental transformar-se na violência habitual do mundo de Denji.
Reze tira sua máscara e revela ser o Demônio Bomba, revelando ao longo da luta (e no pós-luta) que tudo até agora não passava de uma mentira. Mas, esse fingimento, essa máscara, dá forma à sentimentos e sensações genuínas. A emblemática cena da piscina é um ponto muito interessante para entender o que Fujimoto quis trazer aqui. Apesar de ser mera encenação — somente uma armadilha para uma presa fácil — a beleza e a intimidade daquele momento realmente existiram; a emoção ainda é real.
Nesse sentido, para além da exposição sobre sociedade japonesa contemporânea e a maneira como a mentalidade do Denji reflete o jovem moderno, Fujimoto é um mestre em compartilhar suas paixões pela sétima arte. O filme — e a arte em geral — é uma ficção, e depende da suspensão da descrença e do envolvimento do observador para criar um vínculo. O que é mostrado na tela pode ser "falso" ou "um monte de desenhos", mas as emoções, as sensações e o impacto no espectador são reais (a cena da Makima e do Denji no cinema ilustram com maestria essa tese). E nem mesmo a Reze pode escapar de seus sentimentos.
Creio que a vida em sociedade é um pacto de fingimento para manter a boa convivência. As relações de amizade, de romance ou até inimizade começam com o fingimento e, pouco a pouco, vão se materializando em espontaneidade. Talvez, se fosse outra pessoa, a Reze até conseguiria não se afetar, mas a ingenuidade transparente de Denji potencializou a "quebra de sua máscara"; pois quando se rompe a barreira da indiferença podemos gerar uma conexão genuína, por mais efêmera que seja.
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