

Naoki Urasawa consegue fazer uma ótima releitura de Astro Boy. Pluto consegue manter toda a essência de Osamu Tezuka até o fim. Quando comecei a ler, tive medo de essa essência ser perdida, mas não: toda a mensagem de pacifismo e fé na humanidade de Tezuka está aqui. Urasawa, como sempre, consegue desenvolver seus mistérios, personagens e relações de forma perfeita.
Todos os sete robôs têm o seu aprofundamento suficiente para que nós, leitores, nos conectemos ao elenco. Todo o universo é construído e desenvolvido de forma tão cuidadosa que conseguimos nos conectar e entender tudo sem precisar de balões de fala explícitos ou de algum personagem X explicando todo o enredo. O drama de cada personagem é tocante, e, falando em drama de personagens, é impossível não citar o de North N°2. Em apenas um volume, North é construído de tal forma que é impossível não se simpatizar com o personagem, fazendo com que a parte de sua morte se torne muito mais tocante para nós, leitores.
Atom dispensa apresentações. Em relação a Brando e Heracles, eu não consegui me conectar muito com ambos os personagens, mas Heracles foi essencial para a introdução do tema que eu mais amei em Pluto: a mensagem antiguerra. Urasawa consegue fazer uma ótima obra antiamericanista, principalmente levando em conta que Pluto foi lançado durante a Guerra do Iraque. A coragem de Urasawa em fazer uma crítica direta à conduta dos EUA, sem esconder essa mensagem, só mostra como Pluto é uma obra corajosa — algo que falta nos tempos atuais.
A forma como o transtorno de estresse pós-traumático é representado nos robôs demonstra que eles já são como humanos, o que torna todo o contexto da seita antirrobô ainda mais pesado. Para mim, o ponto alto de Pluto é todo o arco de Gesicht. Gesicht é como se fosse o segundo Brau 1589, o segundo robô que matou um humano por vontade própria. O que isso significa para mim é que Gesicht, no ódio, conseguiu uma parte de sua humanidade, mas, ao superar esse ódio, ele se torna humano por completo. Afinal, como o próprio Gesicht diz: “Nada nasce do ódio, a não ser mais ódio”.
Essa frase final é o que consegue fazer Atom retomar seu juízo. Atom, com as memórias de Gesicht, conhece o ódio, mas, com essas mesmas memórias, consegue superá-lo, fazendo com que Sahhad/Pluto consiga fazer o mesmo.
Apenas uma coisa não me agradou em Pluto: achei a quadrinização um pouco confusa, principalmente em relação a flashbacks e cenas coexistentes. Quando uma cena se passa no passado (como o passado de Gesicht), você demora um pouco até entender todo o contexto, mas, depois de um tempo, isso se esclarece. Não é algo que atrapalhe a narrativa.
Em todo o contexto geopolítico de quando Pluto foi lançado e também no contexto geopolítico atual, no momento em que escrevo esta avaliação (começo de 2025), Pluto surge como um respiro de esperança e como um alerta para não fecharmos os olhos diante de situações de opressão e para não nos deixarmos sucumbir ao ódio, a fim de não perdermos nossa humanidade.
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