INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, a discussão sobre os direitos das pessoas com deficiência tem ganhado espaço nas pautas sociais e políticas. A inclusão de PCDs em espaços públicos, educacionais e culturais revela não apenas desafios estruturais, mas também enfrentamentos simbólicos, como o preconceito e o capacitismo – termo que designa atitudes discriminatórias contra pessoas com deficiência.
A obra Yubisaki to Renren, criada por Suu Morishita, contribui significativamente para essa discussão ao retratar a vida de Yuki Itose, uma jovem com deficiência auditiva. Por meio de sua história, o leitor é convidado a refletir sobre como a sociedade trata as diferenças e como a empatia, o respeito e a acessibilidade são fundamentais para a construção de uma convivência equitativa.
O CAPACITISMO NA REPRESENTAÇÃO DE PERSONAGENS
Capacitismo é definido como o preconceito que marginaliza e inferioriza indivíduos com deficiência. Segundo Guljor (2020, p. 58), "o capacitismo é uma forma de opressão sutil, naturalizada nas relações sociais, que constrói o corpo com deficiência como inferior, ineficiente e dependente, sendo tolerado apenas quando demonstra superação ou se adapta às normas da maioria".
Na obra, tal postura é evidenciada especialmente no comportamento do personagem Oushi, amigo de infância de Yuki. Ao invés de apoiar a autonomia da protagonista, ele a trata como alguém frágil, infantilizada e incapaz de realizar atividades básicas. Em uma de suas falas, Oushi expressa: “Quando não dá pra escutar, é mais fácil se colocar em perigo. Talvez eles devessem ficar onde é seguro, e nem sair…”
Essa perspectiva revela uma forma de tutela disfarçada de proteção, que nega a autonomia da pessoa com deficiência e reforça a lógica de exclusão social. Atitudes como essa, mesmo que comuns no imaginário social, têm implicações negativas no processo de inserção de PCDs nos diversos âmbitos da vida.
INCLUSÃO EDUCACIONAL E BARREIRAS ESTRUTURAIS
A trama também evidencia a ausência de suporte institucional para PCDs. Yuki precisa da ajuda constante de sua amiga Rin para acompanhar as aulas, já que a universidade não oferece intérprete de Libras, mesmo tendo políticas de reserva de vagas para pessoas com deficiência. Esse fato levanta um questionamento importante: a quem cabe a responsabilidade pela inclusão efetiva?
Ainda nesse contexto, outra fala de Oushi ilustra o desprezo pelo direito à educação da protagonista: “Por que diabos você tinha que fazer faculdade?”. Tal questionamento revela o pensamento capacitista de que a pessoa com deficiência não deve ou não precisa ocupar espaços tradicionalmente normativos, como a universidade.
HISTÓRICO DA DEFICIÊNCIA: DA EXCLUSÃO À INCLUSÃO
A trajetória histórica da pessoa com deficiência pode ser dividida em quatro períodos principais: exclusão, segregação, integração e inclusão. Durante a exclusão (3.500 a.C. a 476 d.C.), crianças com deficiência eram muitas vezes mortas, consideradas maldições divinas. Na segregação (476 d.C. a 1492 d.C.), surgem instituições religiosas que isolavam as pessoas com deficiência da sociedade. O período de integração (1980 - 2020) marcou o início das políticas públicas de adaptação, como a criação de materiais didáticos acessíveis, embora ainda mantivesse a ideia de “inserção condicionada”. Finalmente, no período de inclusão (2020 - atualmente), surgem leis e práticas que visam garantir a plena participação social das PCDs. No entanto, como observa-se em Yubisaki to Renren, a inclusão plena ainda está longe de se concretizar.
O caso do Holocausto Brasileiro, ocorrido no Hospital Colônia de Barbacena, evidencia como as políticas de segregação deixaram marcas profundas na memória nacional. Milhares de pessoas foram institucionalizadas e submetidas a tratamentos desumanos, muitas sem sequer possuírem diagnóstico de deficiência mental.
CONCLUSÃO
Yubisaki to Renren transcende o enredo romântico e se firma como um material relevante para a discussão sobre capacitismo e inclusão. A trajetória de Yuki revela não apenas os desafios enfrentados por pessoas com deficiência em ambientes supostamente inclusivos, como também a importância das redes de apoio e do respeito à diversidade humana.
Ainda que o mundo esteja, teoricamente, em um período de inclusão, observa-se que na prática ainda há muito a ser feito. A verdadeira inclusão não se limita à concessão de vagas, mas exige transformações estruturais, culturais e pedagógicas. O reconhecimento da humanidade plena das pessoas com deficiência é o primeiro passo para romper com o ciclo histórico de exclusão.
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