INTRODUÇÃO
A heterossexualidade compulsória é um conceito que tem ganhado crescente atenção dentro dos estudos de gênero e sexualidade, especialmente no que se refere às pressões sociais que normatizam a heterossexualidade como a única forma válida de expressão sexual. Este fenômeno, muitas vezes invisibilizado ou minimizado, se reflete em diferentes aspectos da vida cotidiana e é especialmente relevante quando analisamos a experiência de mulheres lésbicas, que são constantemente desafiadas a conformar-se a um padrão sexual heteronormativo, sendo estigmatizadas ou forçadas a se ajustar a esse modelo, mesmo que isso contrarie sua verdadeira identidade e desejo.
Um exemplo notável dessa discussão pode ser encontrado no mangá Kakeochi Girl, uma obra que se aprofunda nas dinâmicas de opressão e resistência das mulheres lésbicas diante da heterossexualidade compulsória. Através de suas páginas, o mangá apresenta personagens que vivem a luta cotidiana para conciliar o desejo genuíno de viver de acordo com sua orientação sexual com as expectativas sociais que exigem conformidade com o modelo heteronormativo. Ao abordar temas como o amor não correspondido, o casamento imposto, o medo do julgamento e a busca por uma identidade própria, Kakeochi Girl oferece uma representação da experiência que muitas mulheres lésbicas já enfrentaram.
Dentro dessa perspectiva, é possível propor uma análise crítica da forma como a sociedade pressiona as mulheres a se enquadrarem dentro dos padrões heterossexuais, questionando os mecanismos de controle e os efeitos psicológicos dessa compulsão. A obra não apenas apresenta o sofrimento e as dificuldades vividas por essas personagens, mas também coloca em evidência os processos de autodescoberta e resistência que surgem diante da opressão, mostrando a importância da visibilidade e da aceitação da diversidade sexual.
SINOPSE E PROVOCAÇÕES
O primeiro amor de Maki foi sua colega de escola, uma garota chamada Midori. Mas Midori terminou com Maki na formatura de conclusão do Ensino Médio, dizendo que elas estavam "velhas demais para ficar saindo com garotas". Dez anos se passaram, Maki não conseguiu tirar Midori da cabeça, e quando as duas mulheres se reconectam após um encontro casual, Maki percebe que, embora seus sentimentos não tenham mudado, Midori já seguiu em frente há muito tempo – na verdade, ela está noiva. No entanto, quanto mais Maki ouve Midori falar sobre seu futuro marido, mais sinais de alerta ela percebe. Midori tinha outro segredo, um que ela ainda não havia compartilhado com Maki.
Alguns anos após o afastamento e ao chegar na fase adulta, Maki seguiu sua vida acadêmica e profissional, mas em seu ambiente de trabalho, estudo e principalmente em casa, ouvia frequentemente as pessoas opinarem que ela deveria procurar um namorado. Maki não havia contado para ninguém sobre sua orientação sexual, tentava apenas ignorar esses comentários e sorria, para evitar mais problemas. Posteriormente ao reencontro com Midori, a mesma convidou Maki para seu casamento e consecutivamente para visitar sua nova casa.
Durante a visita, Maki conheceu o marido de Midori, e nota como ele é desrespeitoso quando fala sobre ela, a menosprezando. Esse foi um grande sinal de alerta para Maki entender em que tipo de relacionamento a Midori estava presa. Sendo esse, exatamente o papel que a sociedade espera de uma mulher, que ela cuide da casa, seja submissa ao marido e dependa dele até mesmo financeiramente, fator que corrobora para que mulheres que vivem em relacionamentos tóxicos não consigam sair deles.
RAÍZES DA HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA
A heterossexualidade compulsória é um conceito que descreve a pressão social e cultural para que todas as pessoas se comportem e se identifiquem como heterossexuais, oprimindo e apagando a identidade de pessoas LGBTQIAPN+. O termo foi popularizado pela poetisa, professora, escritora e teórica feminista americana, Adrienne Cecile Rich (1993), em seu ensaio Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence, apresenta diversas críticas à maneira como a heterossexualidade é imposta como norma, e a forma como isso afeta as mulheres. É discutido como a experiência lésbica é marginalizada e silenciada, e como essa opressão corrobora para a manutenção das estruturas patriarcais. Além do fato, de que as mulheres sempre foram privadas de ter a liberdade de expressão sexual, uma vez que nem sequer eram vistas como indivíduos dignos de sentir prazer sexual.
Ao perceber a existência desse apagamento, surge a necessidade de entender qual a motivação por trás dele, e a causa mais gritante é a política de extermínio e manutenção dos papeis de gênero que foram designadas por determinados padrões sociais. Rich (1993) sugere que ‘A Heterossexualidade Compulsória’ é uma ‘instituição política’ que assegura a subordinação contínua das mulheres, pois ela requer a ‘identificação masculina’ no que se refere à maioria das mulheres, isso significa priorizar as necessidades, demandas e perspectivas dos homens, negando a existência ou potencial da identificação feminina. Ela também afirma que existe um conjunto de normas, diretas ou indiretas, que obriga as mulheres a enxergarem a heterossexualidade como a única forma legítima de vivenciar as relações sociais. Essa opressão está presente em vários ambientes, seja na divisão por gênero do trabalho, discrepância nos salários onde tanto o homem quanto a mulher realizam as mesmas funções, mas ainda assim o homem recebe um salário maior, seja na educação diferente oferecida para meninos e meninas, quando é disseminada a ideia de que a mulher somente será completa ao se casar com um homem e encontrar sua felicidade na maternidade, ditada como uma obrigação.
A FORMA COMO ISSO REVERBERA NA VIDA DAS PERSONAGENS
Midori revela para Maki que esta grávida, claramente demonstrando insatisfação, relatando como seu marido a forçou a ter relações sexuais sem o uso de preservativos. Mas que apesar de tudo, deveria enxergar essa grávidez como uma benção, já que todos estavam a parabenizando. Em conversa com a Marie Claire, a pesquisadora e Professora Doutora em Psicologia do IFRJ, Jaqueline Gomes de Jesus, explica o que é heterossexualidade compulsória e discorre sobre o padrão heteronormativo da sociedade, e afirma que cresceu esperando aprovação masculina, mesmo que nem fizesse sentido para ela. É a exata situação que testemunhamos, vemos Midori se forçar a aceitar sua gestação indesejada, tudo para ter uma família nos padrões impostos.
Nesse contexto, a rede de apoio se mostrou ser um artifício crucial no momento de validação e aceitação do indivíduo com sua orientação sexual, a construção de uma comunidade fortalece o senso de pertencimento. Por isso é muito importante celebrar a identidade, ter datas que reafirmam o orgulho e exigir por nossos direitos. Dessa forma, é possível alcançar mais pessoas que estejam precisando muito dessa representatividade, assim como Midori precisou do apoio de Maki. Kakeochi Girl é uma obra forte, com personagens humanizados, mostrando que por mais que o processo de autoconhecimento ocorra em meio a tantas atitudes equivocadas, más decisões e confrontos, se encontrar e abraçar quem é, sempre será a melhor solução. Com essa verossimilhança é possível notar a importância de obras que tragam esses temas que acabam sendo invisibilizados.
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