

Spoilers a seguir.
Blank Canvas: My So-Called Artist's Journey foi meu primeiro contato com a Higashimura Akiko. Eu já tinha planos de ler Princess Jellyfish, imagino que sua obra mais famosa, mas acabei caindo de paraquedas em Blank Canvas, uma autobiografia coming of age sobre o processo dessa garota, Hayashi, em começar a desenhar mangá - e muitas outras coisas.
Para além de especialidades técnicas como a ilustração leve desse mangá que combina bastante com seu tom mais suave e quase cômico na maior parte do tempo, mas ainda sustenta os momentos sérios, e a forma que a Higashimura leva essa história quase que não linear entrando em várias tangências de falar sobre a vida dela ou contar como funciona um processo do mundo da arte, mangá e faculdade japonesa dos anos 90, toda essa narrativa funciona especialmente bem em te inserir neste mundo e criar a compreensão de como essas vidas são levadas e afetadas.
Meu primeiro pensamento com essa obra foi um choque de o quão honesta, vulnerável e corajosa a Higashimura estava sendo em escrever certas coisas aqui, coisas que se fosse comigo eu nunca compartilharia com ninguém, mas acho que isso pode ser um charme da parte dela. Entrando no assunto principal do mangá, ele é tanto um pedido de desculpas e arrependimento, como uma homenagem e preservação à memória do Sensei da Hayashi/Higashimura. E mesmo que ela tenha feito isso mais de uma década depois, exige muita força de vontade para revisitar o passado e colocar com palavras tão sinceras o que significou todo esse período da sua vida. Acredito que o mais intensificante nessa jornada foi essa atitude terrível da Hayashi de nunca se comprometer de verdade - pelo menos com coisas que não eram mangá. Cria-se uma frustração muito grande pela protagonista, mas isso só parte por uma visão de fora de leitora que pode observar atentamente e julgar todos os passos dessa personagem. Na realidade eu me vejo agindo exatamente como ela, tanto no não compromisso com objetivos, como na insinceridade, não de uma forma de contar mentiras, mas de não ter coragem de ser honesta com seus sentimentos.
Hayashi teve diversas oportunidades de falar com o Sensei, sobre seu desejo de fazer mangás, sobre seus problemas, sobre o fato de não querer morar em Miyazaki, de não querer pintar mais. Mas ela nunca fez isso. "O mundo do Sensei apenas existia em preto e branco. Para ele, minha resposta cinza claro era branco puro." Mas é interessante como, apesar de todas essas dificuldades, Hayashi ainda se via "obedecendo" ao Sensei, trabalhando com ele, ensinando crianças, desenhando. É uma situação complexa de uma adolescente/jovem-adulta que quer conquistar seu próprio caminho o mais rápido possível, sem verdadeiramente se importar com os outros, mas ao mesmo tempo ela se importa, e muito, com seu Sensei. E eu acho que é aí onde Blank Canvas brilha pois, mesmo sendo uma ficção no sentido mais geral da palavra, é baseado no real, em pessoas que existem e existiram e passaram por cenas semelhantes às que lemos aqui. Por isso essa complexidade contraditória faz sentido aqui, e por isso é mais frustrante ainda quando vemos a Hayashi tomando decisões erradas ou fugindo por não saber o que fazer numa situação ou como lidar com ela.
O final desse mangá é um soco no estômago que, mesmo já sabendo que ele viria, não diminuiu em nada seu impacto. A filosofia do Sensei, que foi algo que permaneceu na personagem e na autora, é algo que eu também carrego para minha vida, mesmo que de forma diferente. Não existe "inspiração", não existe "espera". Você apenas precisa desenhar, desenhar e desenhar. Artistas nascem criando e morrerão criando, pois não há nada mais que possam fazer além disso.
Eu moro do outro lado do mundo do Sensei, e ele faleceu quando eu nem tinha consciência ainda, mas só de ter visto a sua representação criada pela Higashimura Akiko, eu sinto que ele deve ter sido uma pessoa maravilhosa e incrível, e gostaria de ter visto suas artes com meus próprios olhos. Que seus últimos momentos tenham sido em paz, e, mesmo já tendo se passado anos, espero que a autora esteja em paz consigo mesma também. Não existe ninguém que possa definir um "perdão" porém, ter criado esse mangá deixou a memória de Hidaka Kenzou viva para várias e várias pessoas, inspiradas por seus ensinamentos e pensamentos.
"Desenhe. Apenas Desenhe."
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