Spoilers a seguir.
Itou Junji é um autor que me traz um certo interesse, acho que por eu amar tanto o gênero do horror e ele ser considerado um dos mestres de horror japonês. No entanto, as únicas coisas que li dele foram Uzumaki - que eu considero perfeito, provavelmente - e uma compilação de histórias, Ma no Kakera (ou Fragments of Horror), que eu considero... ok no mínimo e ótimo no máximo?
Então existe essa certa curiosidade em entender melhor como o Itou desenvolve histórias para além das suas mais famosas, o que me traz nessa antologia, Yami no Koe.
Não restam dúvidas de que a arte desse autor é fenomenal e consegue instigar esse sentimento de terror e nojo em você, mas o que eu quero abordar aqui é sobre como essas histórias são feitas. Yami no Koe começa com três histórias bem fracas sinceramente, que parecem ter um senso de urgência desnecessário em apresentar um conceito interessante mas resolvê-lo o mais rápido possível, o que nunca é algo muito divertido de se ler, principalmente no horror. Claro, são histórias boas, mas ao terminá-las existe um sentimento de insatisfação. "É isso?".
Todavia, isso tudo melhora a partir da quarta história, "Mistério da Casa Mal Assombrada". Aqui, o Itou Junji foca mais numa atmosfera bizarra e em nos guiar por essa narrativa do que realmente explicar alguma coisa ou ser expositivo, o que eu acho que funciona em prol do mangá. Chegou num ponto em que, eu que já sou super acostumada com horror e não tenho muitas reações na maior parte do tempo, esbocei algo quando vi o filho do dono da casa ao virar a página. O que foi muito mais pela situação, a construção que levou até aquele momento do que só "olha esse desenho bizarro". Acho que é aí em que as qualidades do autor brilham.
E isso procede na minha história favorita, o capítulo 5, "Glicerídeo". Não sei se por trazer um elemento para o horror que não seja o padrão de sangue e violência, pois aqui a substância que "dá medo" é óleo. Uma casa infestada de óleo, pessoas infestadas de óleo por dentro e por fora, sonhos oleosos e sentimentos oleosos. Eu não sei se isso foi unicamente do mangá, se eu já estava doente ou se foi uma combinação de ambos, mas ler isso me deixando genuinamente enojada, que é uma reação bem incomum para mim, em qualquer forma de arte. E é claro, as qualidades também brilham aqui, visto que não há uma preocupação de "resolução" ou exposição, e apenas de apresentar personagens, uma ambientação, e ver onde isso vai dar. E eu acho isso incrível.
As últimas duas histórias são igualmente boas, destaque para o final da sétima, "O Chamado do Condenado", que não se preocupa em explicar ou resolver nada, apenas documentar. Minha única ressalva porém é com o final do penúltimo capítulo; decidir explicar o porquê da condição de "earthbound" não é algo ruim, mas eu senti essa urgência novamente, de mostrar como tudo se resolve e como tudo acabou. Eu entendo o porquê de fazer as coisas de tal forma mas, como mencionei acima, acho que essas narrativas brilham quando não se preocupam com tais coisas.
De qualquer forma, é uma coletânea que vale a pena ler, e tenhos boas esperanças para sua continuação.
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