Miyazaki sempre foi um diretor que, à parte de sua grandiosa identidade, não se importava em utilizar alguns clichês ou abordagens mais simplórias em suas obras. Entretanto, o segredo disso era a maneira com que ele os implementava. Mesmo em situações caricatas ou de aspecto clichê, a composição fundamental sobrepôs o que parecia evidente. Sejam elas esplêndidas técnicas visuais que compunham a cena, arrojadas abordagens sonoras implementando essência as obras, marcantes técnicas de câmera e perspectiva ou seu formidável modus operandi de fantasia e ação. Todos esses aspectos sobrepunham o que indicava ser um erro, tornando-o um ponto de refinamento, como, igualmente, estão presentes em Laputa.
Técnicas Visuais A constante movimentação dos diversos corpos que constituem o cenário, aliada da exploração de perspectiva e profundidade foram fatores de grande destaque dentro deste agitado enredo. De modo igual, as técnicas de interação dos corpos sobre os demais elementos da composição. Com fluidez e ótima geração de impacto, o contato dos corpos produziam diversas partículas, desconstruindo o cenário e originando novos objetos. Fomentando uma dinâmica muito eficiente para todas as finalidades emergentes. Sem dúvidas, uma das maiores sacadas introduzidas neste filme é a exploração de perspectiva e profundidade. A câmera não necessita agir sozinha ao trabalhar múltiplos planos, pois, em diversas cenas as personagens movimentam-se conjuntamente em diferentes posicionamentos, porém, ainda no mesmo ângulo, o que proporciona uma ampla exploração do ambiente e do fluxo da ação. Igualmente aplicada na cenografia, dando uma noção estrutural excêntrica aos frames e complementado com excelência o visual. Vale ressaltar também um característico design de cores, muito harmonioso, demonstrando ótimas aplicações de contraste e saturação. Tal-qualmente, complexos designs mecânicos e de edifícios aderindo muita estilização a obra.
Trabalho Sonoro Um fator vital a síntese. Caracteriza e permeia substancialmente todas as cenas. Embora não possua grande variedade, compensa na aplicação musical, formando uma mecânica conjunta ao constante uso de silêncio.
O Dinamismo da Ação Seja na tensão, na aventura ou mesmo em uma mínima cena constituída pela ação, as personagens sempre estão expostas a múltiplos perigos. Explorando essa margem de imprevisibilidade que o filme fomenta seu dinamismo. O princípio essencial para que os demais fatores de sua direção possam operar. Empregando incerteza a aventura, intensificando a tensão e proporcionando constância a ação.
MacGuffin Laputa é um excelente MacGuffing para o gênero narrarivo do filme. O Castelo Voador é a origem de todos os ocorridos, é o que todos perseguem, porém, é também, a origem do incerto. O seu princípio é cercado por mistérios e muita curiosidade. As ações dos personagens e os acontecimentos da narrativa instigam o espectador a tal sentimento. Tornando Laputa não só o pináculo do world build, como a principal força motriz de todo o filme. Uma autêntica força motriz que exala a maravilhosa essência do anime.
Comédia Apesar de pouco utilizada, ainda pode ser observada em escassos usos de comédia física e algumas cenas clichês hilárias ao em torno dos vinte minutos e, posteriormente, já em uma hora decorrida de filme. Não ganha ressalvas nem deméritos. O atenuante cômico de maior saliência fica reservado a esquadrilha pirata, que rouba os holofotes sempre que fazem presença.
O Planador Aos meados de uma hora e quinze de filme, é contado que a vigia em que os protagonistas se situavam poderia se transformar em um planador que ficaria preso a um imenso cabo telefônico. O próprio conceito desse elemento do roteiro já é muito interessante para o momento, então, ao instante em que o planador fica suspenso no ar, temos o grande alvoroço vigente sendo cortado pela imensidão do céu e seu silêncio, para que novamente as constantes adversidades da aventura venham a agir em uma súbita turbulência que atinge o veículo dos protagonistas. Sendo guiada por um trabalho de câmera muito dinâmico. Assim se criam três constantes perigos nas cenas que viriam: o avião militar que estava tentando destruí-los, o péssimo clima dentro das nuvens e o fino fio que separava as personagens de sua instável segurança nos céus. O objetivo predominante era o de alcançar Laputa, os sentimentos de tensão e curiosidade permeiam a atmosfera. Intercalando entre o uso de silêncio e uma musicalidade extremamente efetiva. E, claro, animações fluidas, preenchidas por um design de cores surreal. Uma cena que evoca a genuína síntese aventureira e fantasiosa de uma narrativa.
Conclusão Tenkuu no Shiro Laputa é um marco às produções da década de 80', introduz técnicas únicas a indústria e funda um legado em seus gêneros narrativos. Sem dúvidas, um ponta pé inicial excepcional para um estúdio visionário.